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TOLSTOI, ANARQUISTA CRISTÃO

19.06.2003 | Fonte de informações:

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Lev Nikolayevitch Tolstoi (1828-1910) foi, na minha opinião, o maior escritor em prosa do mundo. Claro que há outros grandes autores, de notáveis qualidades, que são leitura obrigatória para todos aqueles que apreciam literatura. Mas Tolstoi foi inexcedível no conhecimento e no desvelamento da alma humana: era capaz de ler e descrever tudo aquilo que se passasse no espírito de qualquer pessoa, fosse nobre ou servo, russo ou francês, religioso ou ateu, rico ou pobre, homem ou mulher, piedoso ou libertino. "Guerra e Paz", sua obra máxima, é um imenso quadro em que as guerras napoleônicas servem de fundo para a existência, seja cotidiana ou incomum, heróica ou abjeta, de vários personagens, cujas vidas são descritas com tanto detalhe e imparcialidade que fica difícil distinguir quais personagens são históricos e quais são fictícios. Hermann Hesse escreveu que poucos livros dão-nos a sensação de estarmos não diante da obra de um autor, mas do próprio mundo. "Guerra e Paz" é sem dúvida um desses livros.

Mas neste artigo quero tratar não de "Guerra e Paz", mas da chamada segunda fase de Tolstoi, de suas obras de caráter religioso, geralmente consideradas inferiores às da primeira fase (como "Guerra e Paz" e "Ana Karenina") justamente porque marcam o abandono da literatura como pura arte, para se tornar também um meio de propagar as idéias muito particulares de Tolstoi acerca da religião e da moral. Sem dúvida, suas obras da fase religiosa não conseguiram atingir a estatura máxima da primeira fase; mas nem por isso são desprezíveis. Pelo contrário, são importantes veículos de uma mensagem moral e religiosa muito importante, e várias dessas obras, como "A Sonata a Kreutzer", "O Padre Sergei" e "A Morte de Ivan Ilich" têm também uma grande importância estética. As idéias de Tolstoi sobre religião e moral são muito abrangentes e também muito polêmicas; poder-se-ia encher vários volumes, muito maiores que a totalidade da obra de Tolstoi, para citá-las e comentá-las todas. E suas idéias são também de um alcance muito grande: pois Tolstoi foi um dos primeiros a propor uma "luta pacífica", e isso o fez um dos inspiradores de Gandhi, que chegou a se corresponder com o escritor russo no início do século XX. Pretendo ainda escrever mais sobre Tolstoi em outros artigos; no presente, quero apenas comentar uma de suas principais qualidades, que foi retomar o espírito rebelde, ou mesmo anarquista, do cristianismo.

Algo que eu particularmente repudio em alguns movimentos de esquerda é que eles criticam o cristianismo como sendo uma religião da passividade, da resignação, da aceitação das injustiças e dos males do mundo. É uma seqüência da célebre frase de Feuerbach, "a religião é o ópio das massas", que Marx depois absorveu em seu sistema ao considerar a religião como parte da ideologia dominante, para manter os oprimidos alienados, sem consciência de sua exploração e sem poderem reagir a ela. Isso é bem contrário ao espírito original do cristianismo, rebelde desde seu início: para confirmá-lo, basta que leiamos os Evangelhos, onde se vê Jesus Cristo expulsando os vendilhões do templo; criticando a hipocrisia e a ostentação dos fariseus; ajudando os pobres, os leprosos, as prostitutas -- vê-se bem que Jesus nada tinha de resignado. As idéias de Tolstoi sobre religião também possuíam um senso de justiça muito crítico em relação à sociedade russa do século XIX, com suas imensas desigualdades, e a autocracia czarista, retomando justamente este espírito rebelde, muito consciente e muito contrário às injustiças de sua época e lugar.

Isto não é privilégio de Tolstoi: na verdade, o cristianismo tem-se mantido como força espiritual viva e atuante mesmo depois de mais de 2000 anos de seu surgimento porque, toda vez que houve o risco de que ele se esvaziasse e se tornasse apenas um puro ritualismo de uma instituição, apareceram renovadores que traziam de volta o verdadeiro espírito religioso cristão, de caridade, compaixão e luta pacífica contra todos os poderes opressores. São Francisco de Assis, São João da Cruz, Lutero e Kierkegaard foram alguns desses renovadores, além de Tolstoi. E o interessante é que todos eles tiveram problemas com as autoridades eclesiásticas de seu tempo: embora tenham sido canonizados, Francisco de Assis e João da Cruz foram personalidades bastantes polêmicas em sua época (o último chegou até a ser encarcerado); Lutero teve que se afastar do catolicismo e fundar sua própria igreja; Kierkegaard por sua vez teve muitos desentendimentos com pastores da Igreja Luterana dinamarquesa; e Tolstoi foi excomungado da Igreja Ortodoxa. Nenhum deles eram contrários às instituições religiosas, mas é fácil compreender porque tais conflitos aconteceram: como toda instituição, as igrejas também têm seus interesses políticos e econômicos, por isso é natural que esses renovadores colidam com tais interesses e causem problemas a suas respectivas igrejas. Mas é exatamente essa rebeldia e essa contestação do "status quo" que mantém o cristianismo vivo com o passar dos séculos e dos milênios. Se o eliminarmos, aí sim poderemos falar como Nietzsche, de morte do cristianismo.

Quanto a Tolstoi, é fácil perceber porque ele foi excomungado. Um crítico francês, Daniel Gillès, o chamou de Lutero russo, e com razão: Tolstoi queria eliminar do cristianismo todo ritualismo e todo misticismo (muito importantes na ortodoxia e no catolicismo), para transformá-lo numa doutrina puramente moral. Em seu último romance, "Ressurreição", ele chega mesmo a afirmar que o ritual da eucaristia é uma "bruxaria sacrílega", por afirmar que pão e vinho se transformam no corpo e na alma de Cristo. Tolstoi era um racionalista, não aceitava nenhum tipo de milagre nem nada que contrariasse a razão e o bom-senso; este é o defeito mais sério de sua proposta religiosa, pois priva o cristianismo de um de seus aspectos mais importantes, o da possibilidade da experiência e da integração com o divino, que são o propósito da mística que, obviamente, não pode ser racionalizada. Por outro lado, porém, ao centrar-se na moral, Tolstoi pôde fazer uma importantíssima crítica social contra todo tipo de opressão, desigualdade e violência.

O que o grande escritor fez de mais genial foi perceber que todas aquelas injustiças denunciadas por Jesus ainda eram praticadas, e que a igualdade de todos os homens pregada pelo Cristo significava a abolição de toda classe, propriedade e Estado. Foi um dos mais contumazes críticos do czarismo, e só não foi preso ou extraditado para a Sibéria por ser nobre (tinha o título de conde, do qual abdicou) e ter um grande renome internacional. O capítulo XV de um de seus contos mais importantes, "Khadji Murat", contém uma crítica fortíssima ao czar Nikolai I, mostrando-o como um egocêntrico megalomaníaco que crê que o mundo gira em volta de seu umbigo e que repete constantemente para si mesmo: "Que seria da Rússia sem mim? Que seria da Europa sem mim?" Este capítulo foi eliminado por completo nas primeiras edições, sendo restaurado muito depois da morte de Tolstoi, em edições soviéticas. Ao reler este capítulo recentemente, não pude deixar de imaginar George W. Bush no lugar do czar Nikolai, perguntando-se: "Que seria da América se não fosse por mim? E que seria do mundo sem mim?" Isto é o que acontece quando uma mente fraca chega ao poder de uma nação poderosa: sua mania de grandeza é uma ameaça não apenas aos cidadãos de seu país, mas aos de todo o mundo. Hoje em dia, George W. Bush é o maior perigo à paz mundial, como os iraquianos sentiram na pele, e sempre ficamos na dúvida: quem vai ser a próxima vítima do militarismo de Bush? Irã? Coréia do Norte? Líbia?

Voltando a Tolstoi, ele recusou-se a um comprometimento com um partido ou um programa político, apesar de todas as suas denúncias contra as injustiças e a opressão, pois não acreditava que uma revolução pudesse solucionar os problemas da sociedade. Um conto seu, menos conhecido, chamado "O Divino e o Humano", mostra bem o distanciamento de Tolstoi de revoluções políticas: um revolucionário vai preso e, na cadeia, lê pela primeira vez os Evangelhos e dá-se conta: "Sim, se todos vivessem desse modo, então não seria preciso a revolução!" Para Tolstoi, a questão não era derrubar uma classe dominante e substitui-la por outra através de uma revolução, mas conscientizar as pessoas para que leiam, entendam e pautem sua vida segundo o Evangelho. E como o cristianismo apregoa a igualdade universal, a única sociedade que se harmoniza com ele é a anarquista, onde não há Estado, propriedade, classes, e onde todos vivem de seu próprio trabalho, não da exploração do trabalho alheio. Um marxista chamaria Tolstoi de "utópico", por recusar a revolução; não pretendo entrar nos méritos de Tolstoi e Marx no presente texto, mas minha opinião pessoal é que a proposta de Tolstoi é menos utópica que a de Marx. O que importa aqui é que Tolstoi soube retomar e realçar o espírito rebelde do cristianismo, mostrando que esta religião está bem longe da resignação. Apesar da recusa de Tolstoi de se comprometer com um programa político, pode-se muito bem dizer que ele foi um anarquista cristão. Ernesto Sábato, grande escritor argentino, assimilou muitas idéias do escritor russo e também se define como anarquista cristão. A influência literária, religiosa e mesmo política de Tolstoi foi imensa, embora muitas vezes passe despercebida fora da Rússia.

Carlo MOIANA PRAVDA. Ru MG Brasil

 
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