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Portugal 7 Rússia 1

16.10.2004 | Fonte de informações:

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Ninguém pode fingir que o resultado foi bom, porque não foi…mas vamos analisar de cabeça fria o que aconteceu no Estádio José Alvalade em Lisboa e tirar as nossas conclusões. Não é assim tão grave quanto isso.

De facto, os pupilos de Georgy Yartsev sofreram uma derrota histórica e o futebol da Rússia foi humilhado com este resultado – mas não pelo jogo em si. Quem conhece o futebol sabe muito bem que o resultado não reflecte necessariamente o que acontece no campo.

Primeiro de tudo, não houve uma diferença de seis golos entre a equipa portuguesa e a equipa russa. Também, comparando com o jogo durante o Euro 2004, que Portugal ganhou por 2-0 com a ajuda duma arbitragem péssima, Portugal não melhorou a produção em campo por três vezes e Rússia não foi três vezes pior. O que aconteceu foi que Portugal desfrutou das suas hipóteses de golo sete vezes e a Rússia, só uma vez. No futebol, uma equipa pode jogar melhor durante todo o jogo, criar 20 hipóteses de golo, não marcar nenhum e o adversário, se marcar as três hipóteses que teve, ganha por 3-0. Mas não é três vezes melhor.

Em segundo lugar, é um facto que a equipa russa conteve a equipa portuguesa durante os primeiros 25 minutos de cada parte do jogo, sofrendo 3 golos nos últimos 20 minutos da primeira parte e mais 4 no mesmo período da segunda. Por isso, tiramos a conclusão que durante uma hora do jogo, Rússia e Portugal jogaram em pé de igualdade.

Terceiro, o resultado em si não é assim tão dramático como pareceu à primeira vista, em termos da campanha global, visto que o objectivo não foi ganhar em Lisboa mas sim, qualificar para a fase final da competição FIFA 2006 na Alemanha. Duas equipas vão-se qualificar deste grupo (e até o terceiro tem boa hipótese se marcar muitos pontos e golos), e porque Portugal é favorito a ganhar o grupo, nesta altura perder duas vezes com Portugal não constitui problema algum para a Rússia.

Em princípio, a Rússia pode e deve vencer facilmente e por muitos golos a oposição fraca das outras equipas no grupo (Estónia, Letónia, Liechtenstein, Luxemburgo e Eslováquia), com um só jogo difícil de ganhar, em Bratislava. Não é assim uma tarefa tão impossível.

Em quarto lugar, de vez em quando, levar uma boa tareia até serve de exemplo para os jogadores e para a equipa técnica. Tirando as conclusões do jogo de quarta-feira, há que apontar várias realidades.

1. A equipa russa está cansada porque ao contrário do resto da Europa, não teve o período de descanso no verão – vai descansar no Inverno. As lesões começam a pesar muito no grupo e é difícil encontrar um onze “modelo”;

2. Isso, porém, não é desculpa para um país com tantos jogadores federados e com a população que a Rússia tem. A razão pelo resultado tão avultado é muito simples de corrigir – deu-se muito espaço à equipa portuguesa na média distância. Se o problema de Portugal até quarta-feira tinha sido converter chances em golos, vingaram-se contra a Rússia.

Basicamente, Portugal tem jogadores que podem desestabilizar uma equipa e forjar um resultado dum momento para o outro. Muitas equipas têm um ou dois jogadores que têm essas qualidades; Portugal tem vários. Deco, por exemplo, consegue passar uma bola por um espaço mínimo, quase por magia, e consegue desferir um remate fortíssimo dum ângulo quase impossível.

Cristiano Ronaldo é um pesadelo para qualquer defesa – seus pés foram já descritos como os mais rápidos de sempre na troca da bola. Semeia o pânico num organismo defensivo, criando enormes espaços para os jogadores do meio-campo ocuparem e atacarem a baliza. Deco e Ronaldo são dois exemplos num universo de seis ou sete.

O meio-campo de Portugal serve como força de ataque, porque todos os jogadores sabem rematar de pé ou de cabeça na meia distância (coisa que Scolari trouxe para Portugal, transformando uma equipa que fazia tudo menos finalizar numa equipa que afinal perdeu o medo patológico de marcar). 3. O problema não é fazer o erro – é perceber o erro e alterar a situação para que não seja repetido. Neste caso, Georgy Yartsev se viu no pior pesadelo para um treinador de futebol: seu plano de jogo (“game plan” na gíria de futebol) contava com uma repetição do jogo durante o Euro 2004, o que seria lógico de esperar.

No entanto, na segunda parte da primeira metade do jogo, viu que o jogo não era o mesmo e não teve tempo para rectificar. No entanto, ele não pode ficar completamente intocável na atribuição de críticas.

Qualquer equipa neste nível de futebol deve ser treinado duma maneira mais flexível, que permite grandes alterações durante o jogo para contrariar tendências que são criados pelo adversário. Neste caso, com os jogadores portugueses em dia sim, a formação adequada teria sido o clássico W M, com dois defesas de raiz, dois atacantes, e seis no meio-campo, fechando hermeticamente a área frente ao golo (oito defesas) e expandindo no ataque (oito atacantes), assim privando os portugueses de tanto espaço e facilidade de rematar e criando um ambiente de receio no adversário (se avançasse demasiado, seria castigado).

4. “Nós não temos desculpas. A motivação de vários jogadores foi demasiado baixa – talvez alguns não queiram trabalhar comigo. Peço desculpa por esse pesadelo”. Foi assim que Yartsev encarou o jogo, depois de ter abandonado o campo.

Por muito desagradável que fosse o espectáculo, o capitão fica com o navio até que se afunda. No entanto, o “mea culpa” de Yartsev foi um gesto nobre mas não é só ele que tem a culpa.

Parece que depois do primeiro golo, os jogadores encolheram os ombros, sem dúvida lembrando do jogo durante o EURO, quando a escandalosa expulsão de Sergei Ovchinnikov desestabilizou a equipa.

Os jogadores não são pagos tanto dinheiro por desistirem, especialmente quando estão usando as cores do seu país. Talvez haja outros que queiram vestir a camisola e correr, intervir, e não olhar para o adversário trocar a bola. Talvez haja outros que sabem passar uma bola para outro jogador…com salários destes, deve haver muita gente que quer aprender, pelo menos.

Assim, há muitas razões mas não há desculpas para um resultado tão avultado. O que interessa agora é jogar futebol, porque a equipa russa tem elementos com grande capacidade e habilidade, interessa rectificar o que está mal, dando mais possibilidades de jogo flexível à equipa e chegar à Alemanha, onde esta equipa russa tem todas as capacidades de criar sensação.

Aconteceu o que aconteceu, há muito trabalho para a frente. Mãos à obra, e ganhem aquela Taça, que têm qualidades para isso!! Timothy BANCROFT-HINCHEY PRAVDA.Ru

 
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