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Grande Guerra da Pátria IV

12.05.2005 | Fonte de informações:

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Antes da Segunda Guerra Mundial, a guerra era um assunto a ser resolvido entre militares: os países formavam exércitos, que lutavam entre si, e o que derrotasse o outro (ou pelo menos o forçasse a recuar) vencia. Depois vinham os diplomatas, acertavam um acordo de paz, territórios e riquezas trocavam de mão, e tudo estava arrumado. Claro que os civis muitas vezes sofriam, com destruição de suas propriedades e perdas de suas vidas. Mas esses eram danos colaterais, e mesmo Napoleão, considerado como um conquistador bastante brutal em sua época, evitava, sempre que possível, provocar sofrimentos aos civis.

A Segunda Guerra Mundial, porém, viu uma grande mudança na condução de hostilidades armadas: os civis se tornaram um alvo deliberado, e matá-los ou arruinar suas posses passou a ser parte importante para a vitória. É impossível manter um exército, quando os civis são dizimados e não há mão-de-obra, e as cidades, as fábricas, a agricultura e a infra-estrutura estão em ruínas.

Todos os países que participaram da Segunda Guerra Mundial levaram adiante esta estratégia, desde que tivessem os recursos para isso. Obviamente, países pequenos ou militarmente fracos como Noruega, Bélgica, Holanda, Polônia e até a França, simplesmente não puderam fazer nada diante do ataque alemão. A acusação do tribunal de Nuremberg, que julgou os crimes nazistas depois da guerra, de que a Alemanha deliberadamente vitimou civis, poderia muito bem ser aplicada aos Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a União Soviética.

Estados Unidos e Grã-Bretanha tiveram uma participação relativamente pequena no conflito terrestre europeu; a maior contribuição desses países à vitória foi a campanha de ataques aéreos maciços contra territórios ocupados pelos alemães. No final da guerra, imensas frotas aéreas, de milhares de bombardeiros pesados, atacavam quase que continuamente as cidades alemãs, de dia e de noite.

Alguns alvos eram bases militares e fábricas de armamentos; mas o objetivo principal era simplesmente arrasar as cidades alemãs, matar civis, destruir toda a infra-estrutura do país, deixá-lo completamente exangüe e sem capacidade para continuar a guerra. E funcionou: cidades sem alvos militares importantes, como Berlim, Hamburgo, Dresden e Frankfurt, foram quase que completamente destruídas. Em apenas uma noite, a de 28 de julho de 1943, bombardeiros ingleses causaram a morte de 42.000 civis hamburgueses.

Os soviéticos não fizeram uso em larga escala do bombardeios de cidades, pois sua força aérea tinha muitos poucos aviões bombardeiros de longo alcance. Mas os soviéticos também cometeram atrocidades, principalmente matando civis nas cidades ocupadas, expulsando-os de antigos territórios alemães que passaram para outros países (como a Prússia Oriental, que foi dividida entre a URSS e a Polônia), e estuprando quase todas as mulheres que encontraram ao tomar Berlim.

A política oficial do Estado-Maior soviético, diferentemente do norte-americano e inglês, era de evitar ao máximo qualquer malefício aos civis alemães, e não permitir que seus soldados lhes causassem qualquer dano. Na prática, porém, as coisas foram muito diferentes: soldados soviéticos maltratavam alemães, e os oficiais fingiam que não viam.

Depois da guerra, a população alemã que vivia em territorios orientais do país, como a Prússia, foi expulsa de suas cidades e perdeu todas suas propriedades. Tal prática é considerada crime de guerra pela Convenção de Genebra, mas é justificável porque a URSS fez isso para redesenhar as fronteiras da Europa oriental, objetivando evitar guerras futuras.

A Alemanha tinha conflitos de fronteira com quase todos seus vizinhos: disputava as províncias da Alsácia e da Lorena com a França, a região dos Sudetos com a Tchecoslováquia, e territórios no Báltico com a Polônia e a URSS. Como os alemães foram os únicos responsáveis pela Segunda Guerra Mundial, o critério utilizado para resolver todos esses conflitos foi bastante simples: nenhum dos territórios disputados ficaria com a Alemanha.

Interessante é notar que a população alemã dos territórios orientais muitas vezes fugia das regiões tchecas e polacas para entregar-se aos soviéticos, pois estes eram os únicos que providenciavam meios minimamente humanos para deportação, e algumas vezes até davam indenizações por propriedades perdidas.

Teria sido melhor se os militares soviéticos tivessem se abstido de causar danos propositais aos civis alemães; mas isso requeriria uma magnanimidade e uma capacidade de perdoar impossível à maioria das pessoas. Depois de quase 4 anos lutando em uma guerra cruenta, iniciada pelos alemães (pois a URSS fez todo o possível para evitar o conflito, inclusive assinando um tratado de não-agressão com Hitler, que rapidamente o rompeu), e de ter testemunhado as tremendas atrocidades cometidas pelos nazistas contra seu próprio povo, é compreensível que os soldados soviéticos tivessem um irreprimível desejo de vingança.

Pois foram exatamente os nazistas que cometeram o maior número e as mais cruéis atrocidades, o que faz com que seja de certa maneira justificável o uso da violência em larga escala por parte dos aliados, embora não moralmente correto. Os alemães foram os primeiros a usar ataques deliberados contra civis como estratégia militar, ao bombardear e arrasar quase completamente Varsóvia, em setembro de 1939.

Hitler tratava com certa decência os franceses, noruegueses, belgas e holandeses que não participavam de movimentos de resistência. Mas tinha um enorme desprezo pelos eslavos, e foi muito brutal contra poloneses, tchecos, sérvios e povos soviéticos. Os nazistas não apenas queriam exterminar todos os judeus, como todos sabem: os ciganos e os eslavos, tidos também como “inferiores”, deveriam ter o mesmo destino dos judeus.

A Alemanha tinha um grande plano para os países eslavos, chamado Generalplan Ost (Plano Geral Leste), a ser posto em prática após a derrota da URSS: eliminar quase toda a população eslava, e substitui-la por colonos alemães. Os poucos sobreviventes seriam usados como mão-de-obras escrava para a nova população germânica. O plano incluía ainda a demolição completa de Moscou, e em seu lugar seria contruída a nova capital do III Reich, Germânia.

Tal política, porém, foi bastante contraproducente para os alemães na guerra soviética. Alguns ucranianos, por exemplo, receberam alegremente as tropas nazistas, acreditando que elas os libertariam do jugo stalinista. Porém, logo vieram as SS (tropas especiais, fanaticamente leais a Hitler, usadas para os trabalhos mais sujos, como administrar campos de concentração), e os ucranianos viram que Hitler não era um libertador, mas um tirano muito pior que Stalin.

Erich Korch, administrador da Ucrânia nomeado por Hitler, fez um discurso aos seus subordinados, dizendo: “Sou conhecido como um cão brutal. Nosso trabalho é sugar da Ucrânia todos os bens que pudermos. Espero dos senhores a mais extrema severidade contra a população nativa.” Por conta da brutalidade ilimitada dos nazistas, muito mais cruel que a de Stalin, rapidamente se formou na Ucrânia um movimento de resistência que lutou do lado das tropas soviéticas.

Extermínio e escravização de todos os civis que encontravam, rapto de crianças e de mulheres para serem usadas como escravos sexuais, mal trato de prisioneiros (que muitas vezes eram trancados em campos de concentração e morriam de fome, pois os alemães não lhes davam alimentos) foram práticas correntes dos nazistas no fronte oriental.

Por considerarem os eslavos um povo inferior, muitos de seus patrimônios culturais foram propositadamente destruídos: na Rússia, a tumba do escritor Lev Tolstoi foi violada; os palácios de Catarina e o de Petrodvorets, próximos a São Petersburgo, foram arrasados (e reconstruídos depois da guerra); várias contruções medievais na antiga cidade de Novgorod também foram destruídas, além de incontáveis outros monumentos e obras importantes que simplesmente foram perdidos para sempre.

A URSS perdeu, na Segunda Guerra Mundial, entre 20 a 27 milhões de pessoas, por conta da tremenda barbárie nazista. A Alemanha foi a precursora e a maior realizadora de atrocidades, que de certa maneira justifica aquelas que foram cometidas pelos aliados: pois os nazistas eram tão brutais, e sua vitória representaria uma catástrofe humana tão imensa, que qualquer meio era aceitável para derrotá-los. As atrocidades que os alemães sofreram então nada mais foi do que uma resposta em menor escala às que eles próprios haviam gerado, seja participando ativamente delas, seja apoiando Adolf Hitler.

Carlo MOIANA Pravda.ru Buenos Aires

 
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