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O INIMIGO DE MEU INIMIGO É MEU AMIGO

09.09.2004 | Fonte de informações:

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Apóia-se um grupo ou um país, não por qualquer coincidência de interesses, mas simplesmente por ser contrário a um outro país adversário ou hostil. Os Estados Unidos e muitos países da Europa são os que mais aplicam tal princípio, ainda hoje, embora tenha se revelado altamente prejudicial, inclusive a eles mesmos.

Na década de 30, França, Grã-Bretanha e Estados Unidos viam Adolph Hitler e o partido nazista na Alemanha com simpatia, simplesmente pelo seu radical anti-comunismo. Hitler era bom porque impedia o comunismo de chegar à Alemanha e, assim, espalhar-se pelo resto da Europa. E, ainda melhor, Hitler havia escrito no seu livro de propaganda "Mein Kampf" ("Minha Luta"), que invadiria a União Soviética e cortaria pela raiz o mal do socialismo. Que Hitler também tenha escrito, no mesmo livro, que invadiria a França, a Holanda, a Bélgica, e exterminaria os judeus, foi algo que os países ocidentais preferiram fingir que não viram. E o preço desta simpatia todos conhecem: a Segunda Guerra Mundial e 50 milhões de mortos.

Depois, na década de 80, os Estados Unidos apoiou explicitamente Saddam Hussein no Iraque e as milícias islâmicas radicais no Afeganistão: o primeiro porque estava em guerra contra o Irã, ex-aliado dos EUA que agora era governado por uma teocracia islâmica; e as segundas porque o Afeganistão era governado na época por um regime socialista, pró-soviético, o qual os fanáticos islâmicos buscavam derrubar. Incongruência gritante: combate os extremistas em um país porque derrubaram um governo aliado (o Aiatolá Khomeini, que tirou do poder o shá Reza Pahlevi, pró-EUA), e ajuda extremistas com os mesmos ideais em outro país, porque tentam derrubar um governo adversário (o regime socialista no Afeganistão).

O preço deste apoio também é bem conhecido: a guerra Irã-Iraque, que durou 8 anos e matou mais de um milhão de pessoas; a invasão do Kuwait em 1990 (foi só a partir daí que Saddam Hussein passou a ser visto como "tirano" e "terrorista" que precisa ser detido); infindáveis guerras civis no Afeganistão, até que um grupo conseguiu impor-se sobre os demais: o talibã, o mais radical, extremista e fanático regime islâmico que já existiu, que apoiou inúmeros ataques terroristas da Al Qaeda contra os EUA (a explosão do navio USS Cole, a destruição das embaixadas na África, o seqüestro dos aviões e a destruição do World Trade Center em 2001).

Eis a que levou a política de apoio a países e grupos só porque ambos tinham inimigos comuns: assim que a ameaça principal foi eliminada, a aliança, por ser meramente casual, se desfez e aqueles mesmos grupos ou países não hesitaram em atacar seus antigos colaboradores. Hitler, antes de invadir a URSS, invadiu a Polônia, a Holanda, a França, e lançou grandes ataques aéreos contra a Grã-Bretanha; Saddam Hussein, pouco depois de assinar a paz com o Irã, invadiu o Kuwait, importante aliado e fornecedor de petróleo aos EUA; e os mujahedins afegãos, depois que os soviéticos se retiraram de seu país, não demoraram para voltar-se contra seu ex-aliado e novo inimigo: os EUA.

Longe de terem aprendido com as terríveis conseqüências desta política absurda e irracional, os EUA e a Europa voltam a praticá-la, desta vez apoiando os terroristas tchetchenos (e do Cáucaso em geral), para que esta região separe-se da Rússia e passe a sua esfera de influência. O que eles não vêem, e não querem ver, é que o mesmo motivo que leva os radicais a odiar a Rússia, os levará a odiar também a Europa e os EUA. O Cáucaso, com suas inúmeras repúblicas, povos e etnias, é bastante semelhante ao Afeganistão: uma região fragmentada, com fortes tensões étnicas, e uma longa tradição de pequenos governantes tribais, adversos a qualquer Estado unificado.

Manda quem tem a milícia mais forte, e consegue atemorizar mais as outras tribos. A Federação Russa é odiada por tais extremistas exatamente porque ela tenta impor a lei e o estado de direito na região, e é exatamente por este mesmo motivo que a maioria da população é a favor de manter-se dentro da Federação.

Não que os tchetchenos amem os russos e os considerem seus salvadores: é bem provável que, se fosse possível, os tchetchenos optariam pela independência. Mas a Tchetchênia já foi independente de fato (embora não reconhecida por nenhum governo como um Estado soberano), de 1991 a 1994 e de 1996 a 1999, e seu povo viu o que lhes trouxe esta independência: crime desenfreado, seqüestros, lutas tribais, ausência de poder estabelecido e reconhecido por todos, completa falta de um regime legal e aplicação da interpretação mais dura da lei islâmica, com execuções públicas. A Federação Russa é o menor dos males para os tchetchenos, e é por isso que a maioria da população votou em candidatos a favor da manutenção da república dentro da federação.

Os EUA, a União Européia e a Turquia, porém, visando as riquezas petrolíferas do mar Cáspio e a importância estratégica do Cáucaso (ponte entre o Oriente Médio e a Europa), apóiam os radicais tchetchenos e dão asilo a seus líderes, não porque eles tenham interesses iguais, mas simplesmente porque ambos querem debilitar a Rússia e privá-la desta região. Os países ocidentais pensam que, se os russos deixarem o Cáucaso, terroristas sanguinários como Shamil Basayev (que não hesita em seqüestrar hospitais e escolas) se tornaria um estadista sensato ou pelo menos um cidadão obediente à lei, e em reconhecimento pelo apoio ocidental, os extremistas se uniriam à OTAN, aceitariam a instalação de um governo títere e fariam tudo o que os EUA, Grã-Bretanha, França e Turquia lhe pedirem. Erro crasso. Se os russos saírem da Tchetchênia e de outras repúblicas do Cáucaso, aceitando sua independência plena, ocorrerá o mesmo que no Afeganistão: seguir-se-ão longas guerras tribais, até que um grupo mais forte (e mais radical) conseguirá impor-se pela força, e livres de seus antigos inimigos (os russos), voltar-se-ão aos novos: os EUA e a Europa.

Os radicais tchetchenos e de outros povos do Cáucaso não aceitarão sua dominação por parte dos países ocidentais. O motivo que os leva a odiar a Rússia é o mesmo que os fará odiar os EUA e a União Européia: eles não querem democracia, eles não querem um governo laico, eles não querem uma economia capitalista - eles querem uma teocracia radical e militante, e um governo que lhes permita praticar livremente seqüestros, tráfico de drogas e de armas. A "aliança" entre os países ocidentais e os radicais tchetchenos baseia-se apenas num interesse passageiro: ambos querem tirar os russos do Cáucaso.

Uma vez atingido, a aliança ruirá, e o Ocidente terá criado mais um monstro que eles não poderão controlar - inclusive para grande prejuízo de si mesmos. Até quando insistirão em seguir com uma política tão irracional, que não lhes traz nenhum verdadeiro ganho? Carlo MOIANA Pravda.ru Brasil

 
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