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Moldávia e posição da Rússia

07.03.2005 | Fonte de informações:

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George Bush, ao intervir em Bratislava, apelou aos cidadãos da Moldávia "a dar um passo para a liberdade nas próximas eleições". Desenvolvendo esta ideia do presidente, o secretário de Imprensa do Departamento de Estado dos EUA, Richard Boucher, exprimiu a esperança de que "o decorrer das próximas eleições confirme o apego da Moldávia aos valores euro-atlânticos". Estas declarações mostram o desejo dos EUA, depois da mudança de poder em Tbilissi e Kiev, de ver a Moldávia dar ao Ocidente mais uma revolução.

Infelizmente, o mais provável é que a Moldávia os venha a decepcionar.

As eleições parlamentares no próximo domingo (que são, no fundo, presidenciais uma vez que o presidente é eleito pelo Parlamento) deverão ser vencidas pelo Partido Comunista, liderado pelo actual presidente, Vladimir Voronin. As sondagens dão aos comunistas - que mais se parecem de facto com social-liberais - cerca de 40 por cento dos votos. Seguro da sua vitória, Vladimir Voronin praticamente não faz campanha eleitoral.

O presidente deslocou-se ostensivamente à Ucrânia para se encontrar com Viktor Yuschenko e convidou o presidente georgiano, Mikhail Saakachvili, a visitá-lo. Os activistas da organização juvenil georgiana Kmara, que encabeçaram as manifestações em Tbilissi e Kiev, apressaram-se a ir a Chisinau para acompanhar as eleições.

O adversário de Voronin, Urikian, presidente da Câmara Municipal de Chisinau, respondeu com a adopção de interessantes símbolos de campanha: o amarelo passou a ser a sua côr de campanha, representando o milho com o qual é confeccionado um prato tradicional.

No entanto, nas suas intervenções, Urikian evita a linguagem revolucionária. "Nós somos a favor da conquista do poder por métodos democráticos e não por um ano, ou por dois, mas para sempre", insiste ele. É um objectivo bastante ambicioso, tendo em conta que o autarca é alvo de 26 processos penais. Mas esta circunstância não o impede de acusar o regime de Voronin de ser corrupto, de pressionar a oposição e de planear a falsificação das eleições.

No entanto, parece que o principal "rebelde" da política moldava é Yuri Rochka, líder do Partido Popular Democrata-Cristão. Ele representa as forças que desencadearam em 1992 o conflito sangrento na margem esquerda do Dniestre, cuja população é maioritariamente de origem russa. Os acontecimentos trágicos de então levaram ao surgimento da autoproclamada República do Pridnestróvie. A regularização deste conflito está actualmente a ser efectuada, na qualidade de mediadores, pela Rússia, Ucrânia e OSCE.

Rochka, um nacionalista radical, não se importa de usar as cores da revolução ucraniana. Ele costuma vestir roupas côr de laranja, fazer-se fotografar ao lado de Yuschenko e tem pretensões de ser líder dos estudantes moldavos. A sua tese é: "Nós temos uma ditadura dos comunistas e, como tal, há também condições para a revolução". As sondagens dão-lhe 15 por cento dos votos, mas tal eleitorado não é fácil de fazer sair à rua.

Aliás, tal observação pode ser feita em igual medida aos adeptos de Voronin e Urikian. Já o poeta Aleksandr Pushkin escrevia no século XIX estar surpreendido pela forma como "o povo moldavo treme perante os poderes instituídos". Agora esta característica da psicologia nacional é reforçada pela grave situação económica. É muito pouco provável que os moldavos saiam à rua, que bloqueiem o Parlamento ou a residência do Presidente - a população está demasiado preocupada com a sua sobrevivência quotidiana. Não esqueçamos que a reforma mínima na Moldávia é de 20 dólares.

É por isso que entre os programas políticos dos vários candidatos às próximas eleições não há uma grande diferença. Todos eles querem abraçar a Grande Europa e, ao mesmo tempo, manter a amizade com a Rússia. Verdade seja dita, ultimamente tem havido alguns problemas no que respeita a esta amizade. Mais do que isso, as relações estão quase ao rubro. Chisinau suspendeu o diálogo com Tiraspol desde o Verão passado, decretou o bloqueio económico do Pridnestrovie, impede o acesso a esta região dos mediadores ucranianos, russos e da OSCE, não autorizou aos observadores dos países da CEI o acompanhamento das eleições e, finalmente, há dias deportou um grupo de cidadãos russos, activistas dos Direitos Humanos, acusando-os "de ingerência ilegítima na campanha eleitoral".

O Parlamento russo respondeu de forma dura. Os deputados ameaçaram introduzir sanções económicas e políticas contra a Moldávia, nomeadamente obrigando-a a pagar as importações de recursos energéticos russos aos preços mundiais e boicotando as importações de vinhos e tabaco moldavos. Trata-se não só de sanções mas de "alteração das relações económicas de acordo com as realidades actuais", refere o embaixador da Rússia na Moldávia, Nikolai Riabov. A lógica do diplomata é a seguinte: já que a Moldávia se recusou a convidar os observadores da CEI, ela demonstra desta forma a falta de respeito para com as normas desta organização. Consequentemente ela não tem qualquer direito de reclamar as facilidades que são concedidas só aos membros da Comunidade (regime de isenção de vistos, baixos preços do gás importado, facilidades alfandegárias na exportação dos seus vinhos. "Moscovo não deve humilhar os seus colegas moldavos com estas facilidades "imperiais", ironiza o deputado Nikolai Riabov.

Para além deste conflito, há contradições ainda mais profundas. No ano passado, o presidente Vladimir Voronin fez fracassar de forma bastante excêntrica, para não dizer traiçoeira, a assinatura do chamado "Memorando de Kozak", documento que na véspera havia sido rubricado pelo próprio Voronin e pelo líder do Pridnestróvie, Igor Smirnov. O acordo proporcionava uma oportunidade real de alcançar a regularização política global do conflito, incluindo a retirada da margem esquerda do Dniestre o que resta do dissolvido 14º exército russo. Moscovo tem a certeza que Voronin cedeu à pressão estrangeira. Muitos analistas referem que a partir desta ocasião a orientação do principal comunista moldavo mudou radicalmente para o lado da União Europeia e da NATO.

De qualquer maneira, a Rússia desta vez não tem o "seu candidato" nas eleições moldavas. Mas tem os seus interesses e obrigações.

Assim, para Moscovo não é indiferente como se irão desenvolver os acontecimentos em torno do Pridnestróvie, onde residem 191.562 pessoas de origem russa. Não se justifica que estas pessoas se vejam perante o perigo de uma nova carnificina, carnificina que os nacionalistas locais, ao que parece, não se importariam de desencadear. É precisamente por isso que a Rússia está presente no Pridnestróvie como membro da operação de paz conjunta prevista pelos acordos de 1992, que puseram fim à luta fratricida no Dniestre.

Para além disso, no Pridnestróvie ainda existem armazéns com munições e equipamentos militares do 14º exército. A sua retirada foi suspensa devido à falta de confiança entre Chisinau e Tiraspol na sequência do fracasso da assinatura do "Memorando de Kozak". Por outras palavras, todos estes problemas entrelaçados afectam os interesses vitais da Rússia e ela não está disposta a ficar à margem da sua resolução.

No que respeita às eleições parlamentares, a Rússia tem uma posição clara: não há qualquer preferência por nenhum dos partidos políticos. Moscovo está pronta a desenvolver as relações de parceria seja qual for a composição do Parlamento e seja qual for o presidente em que os eleitores depositem confiança

Vladimir Simonov observador RIA "Novosti"

 
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