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Economia russa face a um ano de liberalismo

04.01.2005 | Fonte de informações:

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Num complicado mundo de ajustamentos orçamentais da Rússia isso significará, segundo o ministro adjunto do primeiro-ministro, Aleksandr Jukov, o aumento da remuneração mínima do trabalho e muitas outras previdências de impacto social. Instrução difícil de cumprir para muitas unidades da Federação e quase impossível para as regiões deficitárias. Seja como for, o resultado final deverá ser o seguinte: primeiro, o salário dos trabalhadores da função pública de renda tradicionalmente baixa, ou seja, professores escolares, policias, pessoal de clínicas públicas, etc., deverá aumentar.

Segundo, os aumentos salariais da função pública deverão amortecer, em certa medida, o impacto dos choques esperados para 2005: o aumento dos gastos com a manutenção das habitações, a alta de preços nos transportes públicos, etc.. A Rússia avança a ritmos acelerados para o autofinanciamento dos sectores em causa.

Terceiro, as pessoas deverão ter mais dinheiro para investir no consumo. Por um lado, a Rússia pode permitir-se este luxo: com as previsões da taxa de crescimento económico em 2005 na faixa de 5,8% a 6%, tais encargos não prejudicarão o orçamento. Por outro lado, o "excesso da liquidez" fomentará a inflação que já está nos dois dígitos, tendo passado das "medidas sensatas", como afirmou, há dias, o presidente da União de Industriais e Empresários da Rússia, Arkadi Volski.

No entanto, sem a inflação, a economia russa ficará presa na armadilha da valorização do rublo e desvalorização do dólar. Ao longo de 2004, as preferências do consumidor nacional estiveram principalmente concentradas nos bens importados da chamada "zona do dólar". A balança comercial, com os actuais preços de petróleo, está livre de perigo, o que não pode ser dito sobre o produtor nacional que respondeu a esta ameaça com a desaceleração da produção nas mais diversas áreas.

A julgar pelos "30%" citados pelo vice-primeiro-ministro e outros números apresentados pelos ministérios nos seus relatórios anuais, a resposta ao presente desafio será a monetização da economia, ou seja, o alargamento do mercado de consumo interno mediante, de preferência, estímulos monetários do produtor nacional e, como consequência, o aumento da inflação. Como reconhecem hoje os economistas de renome internacional, o mercado de consumo é a principal força motora da economia, passando assim para o segundo plano nas receitas económicas outros instrumentos de desenvolvimento, anteriormente muito defendidos, como a orientação para as exportações. Recorde-se que, há quatro ou cinco anos, o governo do Japão tentou tirar do ponto morto, também no final do ano, a economia estagnada do país, distribuindo entre a população cupões de até mil dólares por pessoa com vista a estimular o consumo. Com efeito, fazendo compras, o consumidor estimula o produtor e assim por diante, a máquina ganha velocidade e começa a funcionar como motor perpétuo. O resultado está à vista: a economia japonesa tornou-se mais ágil e mais célere.

O meu colega do "Washington Post" Robert Samuelson falou, há dias, da mesma coisa, tendo em vista a economia americana. Para ele, estão-se a esgotar as forças, e sobretudo uma forte procura interna do consumidor americano, que têm tecido a prosperidade americana por décadas.

Samuelson cita o balanço económico anual que não pode deixar de causar inveja à Rússia. Por exemplo, o rendimento per capita de 40 mil dólares por ano registado nos EUA é dez vezes superior ao número recorde atingido este ano pela Rússia. Por outro lado, Samuelson adverte de que os americanos não podem mais viver a crédito, pois a sua dívida está a crescer mais rapidamente do que os seus rendimentos, que as acções não podem render mais do que rendem e que o bem-estar do Estado fica cada vez mais caro.

No entanto, a economia mundial está a sofrer mudanças com a chegada da China, Índia e dos ex-países soviéticos - consola Samuelson. Milhões de pessoas naqueles países levantam-se da pobreza, proporcionando assim aos EUA uma nova oportunidade: as "exportações e (a produção) poderão tornar-se em grande factor do crescimento económico dos EUA".

Tudo bem, ninguém é contra a prosperidade dos EUA, mas o papel da Rússia neste processo será mesmo significativo se a próxima série de reformas do Presidente Putin a realizar no ano que vem for bem sucedida. No entanto, aqui existem muitos problemas de que falaram ministros e economistas nas suas aparições públicas habituais do final do ano. Deles constam um grande hiato entre regiões prósperas como Moscovo e a Região de Moscovo (onde a economia real cresceu, segundo o Presidente da Câmara Municipal de Moscovo, Yuri Lujkov, a uma taxa de 8,7%, e alguns outros sectores registaram até 20%) e as repúblicas autónomas do Cáucaso e outras regiões desfavorecidas.

Além disso, o Governo receia, com razão, a reforma, prevista para o próximo ano, dos sectores de ensino e de saúde pública que deixarão de ser financiados directamente com recursos públicos; o aumento do custo da manutenção das habitações e muitas outras coisas. De modo geral, as ideias parecem sensatas, mas a sua concretização poderá causar descontentamento de muitas pessoas, pelo menos nos primeiros um ou dois anos. Vladimir Putin tem diante dos seus olhos o exemplo do seu colega alemão, Gerhard Schroder, que está a realizar reformas semelhantes e a ser duramente criticado.

A Rússia, entretanto, é um país específico. Os eleitores russos lembram horrorizados as reformas catastróficas dos primeiros governos de Boris Yeltsin. A impopularidade de oligarcas russos como Khodorkovski é uma das consequências disso. Se analisarmos as visões políticas e morais de numerosos eleitores de Vladimir Putin, identificaremos que têm por base os "valores antigos" que significavam, na época, a estabilidade e a ordem. Mas ninguém explicou aos eleitores que, a coberto da imagem conservadora, a equipa de Putin está a realizar na Rússia reformas de dimensão inédita. Tenhamos esperança de que 2005 fique livre de choques políticos e venha a ser ano-chave para as reformas russas.

Dmitri Kossirev analista político RIAN

 
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