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Situação política na Federação Russa

03.02.2003 | Fonte de informações:

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Embora ainda falte quase um ano até às eleições parlamentares na Rússia, as primeiras "salvas" da luta eleitoral já se fizeram ouvir, tendo estas sido lançadas pela "União das Forças de Direita" (UFD), liderada pelo antigo primeiro-ministro adjunto da Rússia e o antigo governador da Região de Nijni Novgorod (região do Volga), Boris Nemtsov.

Este político determinado, auxiliado pelos seus correligionários mais próximos, nomeadamente pela vice-presidente da Duma de Estado (Câmara Baixa do Parlamento russo), Irina Khakamada, fizerem uma proposta ao partido liberal "Iabloko", de constituir um bloco eleitoral com o intuito de se transformar, desta maneira, numa força política de peso, em condições de lutar pela obtenção dum número significativo de lugares no Parlamento.

Contudo, o líder do "Iabloko", Grigori Iavlinski, político de renome que já tem experiência de participação nas eleições presidenciais, rejeitou a pés juntos a proposta da UFD.

Qual é o objectivo da UFD? Segundo a lógica de Boris Nemtsov, os dois partidos gozam do apoio dos grandes empresários russos, incluindo de quase de todos os oligarcas, que se pronunciam persistentemente pela união das forças de direita a fim de constituir uma forte bancada no Parlamento. A UFD sugeriu que o líder do "Iabloko" figurasse na segunda posição na lista eleitoral do bloco, ocupando Boris Nemtsov a primeira e Irina Khakamada a terceira. Por outro lado, a UFD propôs que Iavlinski se apresentasse como o "único candidato democrático" nas eleições presidenciais de 2004.

Grigori Iavlinski, porém, declarou que não podia criar quaisquer blocos com as forças de direita que, na sua opinião, "são responsáveis pela privatização criminosa e pela organização de crises financeiras no interesse de um grupo limitado de indivíduos". Iavlinski até indicou os nomes das pessoas culpadas, isto é, Anatoli Tchubais, ex-ministro no Governo de Gaidar, que, nos princípios dos anos noventa foi o promotor das privatizações na Rússia, e que, actualmente, é presidente da empresa pública EES Rossii" (Electricidade da Rússia), o antigo primeiro-ministro Egor Gaidar e Serguei Kirienko. Quando este último desempenhava as funções de primeiro-ministro, deu-se na Rússia, em Agosto de 1998, uma grave crise financeira, quando o país deixou de pagar as suas dívidas externas.

Na Rússia, onde a elite política apenas está a aprender as bases da confrontação civilizada, a posição de Iavlinski tornou-se alvo de fortes críticas. O líder do "Iabloko" foi acusado de ser extremamente "interesseiro" e pouco ou nada preocupado com o futuro do país.

Pergunte-se, porém, qual a razão de Iavlinski se unir com a UFD? A recusa do líder do "Iabloko" tem fundamentos sérios. É muito pouco provável que na Rússia seja popular Anatoli Tchubais, o homem das privatizações consideradas, na Rússia, como uma grande burla e um simples roubo do património público. Será que goza de popularidade entre os russos Boris Nemtsov, que começou a sua carreia política nos tempos de Yeltsin sem obter quaisquer resultados na qualidade de primeiro-ministro adjunto?

Antigamente, as forças de direita eram apoiados por 10 por cento dos eleitores. Actualmente, segundo dados do Centro Nacional para o Estudo da Opinião Pública, o número dos seus apoiantes baixou para 5 por cento. Tudo indica que este fraco apoio por parte do eleitorado explique o desejo da UFD de constituir um bloco eleitoral com o "Iabloko".

Os doze anos decorridos desde o desaparecimento da URSS é um prazo curto do ponto de vista histórico, sendo, porém, suficiente para as pessoas terem podido ver a sua qualidade de vida melhorada de facto, e não apenas nas declarações dos políticos. A sociedade russa sobreviveu à brusca liberalização dos preços realizada pelo governo de Egor Gaidar, nos princípios dos anos noventa. Participou, cheia de curiosidade, na privatização com "vautchers", sem se dar conta o estava por trás desta "invenção genial".

Até a crise financeira de Agosto de 1998, durante o Governo de Serguei Kireenko, não provocou grandes protestos. As pessoas sofriam mas acreditavam que se tratava de dificuldades inevitáveis durante a passagem duma economia socialista centralizada para a economia de mercado. Contudo, qualquer paciência tem os seus limites, sobretudo quando as mudanças positivas quase não se notam. A desigualdade social na Rússia é chocante. Os ricos andam de automóveis topo de gama, mandam os seus filhos para as melhores escolas estrangeiras e constróem para si moradias luxuosas. Os outros andam de transportes colectivos sempre cheios, não tem dinheiro para comprar medicamentos e olham com avidez para as guloseimas expostas nas montras dos supermercados.

Na Rússia, já há muitas empresas industriais privatizadas. Contudo, os russos, mal conseguem juntam algum dinheiro, vão compram os electrodomésticos de fabrico estrangeiro, para não falar já dos automóveis. Por outro lado, petróleo e gás natural são os produtos de exportação russa mais procurados no mercado internacional. Aliás, como nos tempos antigos. A população associa estes "êxitos" com a acção das forças de direita.

Boris Nemtsov e os seus correligionários têm plena consciência desta situação. Neste contexto, procuram unir-se com o "Iabloko" a fim de obter entre 19 a 20 por cento de lugares no Parlamento, para poder fazer frente aos comunistas e às outras bancadas.

Esta posição é bastante lógica. Grigori Iavlinski continua ser recordado como um economista jovem e talentosos que, durante a "perestroika" de Gorbatchev" lançou o célebre programa "500 dias", destinado a reformar a economia soviética e a passar para a economia de mercado. Naquela época, havia pouca gente que acreditasse no sucesso imediato desse programa ambicioso. No entanto, era uma ideia romântica, que inspirou muitas pessoas. Iavlinski tornou-se muito popular na Rússia. O seu partido possui um eleitorado permanente constituído por intelectuais, médicos e professores, ou seja, pelas camadas mais afectadas pelas reformas de mercado. O consentimento de Iavlinski de constituir um bloco eleitoral com a UFD iria pôr fim às simpatias deste eleitorado.

Para Iavlinski um bloco eleitoral com a UFD não faz nenhum sentido. Além disto, não se pode afirmar que o "Iabloko" é um partido de direita, embora goze do apoio de Mikhail Khodorkovski, um dos oligarcas mais influentes do país, o presidente do Conselho de Administração do gigante de petróleo "IUKOS".

Segundo os cálculos de Boris Nemtsov, a coligação "UFD-"Iabloko" poderia ser apoiada por 15 ou 20 por cento dos eleitores, obtendo 100 lugares no novo Parlamento. Seria um óptimo resultado. No entanto, segundo outros dados, a coligação só viria a obter 10 por cento dos votos.

Enquanto existir um limite mínimo nacional de 5 por cento de votos válidos para estar representado no parlamento, a UFD pode estar descansada. Nas eleições parlamentares deste ano obterá sempre o mínimo exigido. Contudo, em 2007, o "plafond" subirá para 7 por cento, sendo então muito difícil para a UFD chegar ao Parlamento. Sobretudo, se a vida dos russos não melhorar significativamente. Tudo indica que o apelo à unidade feito pela UFD assume um carácter estratégico, embora a experiência confirme que a maioria dos casamentos por interesse não trazem geralmente grande felicidade.

© RIAN

 
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