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Crise no Egito, petróleo e revolução

31.01.2011 | Fonte de informações:

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Wladmir Coelho


O Egito possui 18,2 bilhões em reservas provadas de petróleo
existindo a expectativa de comprovação para mais 2 bilhões segundo
informações do Ministério do Petróleo revelando estes números a
pequena influência do país neste setor da economia quando comparado,
por exemplo, as reservas gigantescas da Líbia de 56 bilhões de
barris.

Entretanto, tratando-se de petróleo, não podemos desprezar o valor estratégico do controle de qualquer volume de reservas ocupando o Egito a condição de importante fornecedor para Israel país vital para o controle estadunidense no Oriente Médio e, por conseqüência, de sua segurança energética.


       O Egito, desde o acordo de paz assinado em 1979, tornou-se obrigado a fornecer petróleo para Israel existindo, dentre os motivos que levaram as últimas manifestações contra o ditador  Mubarack, a denuncia de condições vantajosas para o comprador nesta negociação.

 

 O transporte de petróleo para a Europa também depende da estabilidade
política do Egito possuindo este país o controle do Canal de Suez cujo
fechamento poderia aumentar em 10 mil quilômetros a viagem dos
petroleiros.  Imaginem as consequências do aumento no valor do
transporte e conseqüente elevação dos preços dos combustíveis no velho
continente atualmente mergulhado em profunda crise econômica.

 Assim para  o capital dos Estados Unidos e União Européia a
manutenção de um governo simpático torna-se imperativo desta forma as
manifestações contra o ditador Osni Mubarack deveriam, na ótica
destes interesses, resultar no máximo em substituição de nomes
mantendo o modelo econômico.


       Neste ponto, a manutenção do modelo econômico, encontraremos pronto o
discurso ideológico liberal através de suas agências de classificação
afirmando e provando através das estatísticas de sempre as
"maravilhas" da desregulamentação da economia enquanto a população
enfrenta uma forte alta nos alimentos, desemprego, baixos salários e
cortes no orçamento. Como sabemos todos estes itens, somados a
exigência de liberdade política, tornaram-se os causadores dos
protestos populares.


       Este sofrimento da população egípcia mostra-se em contraste com os
indicadores econômicos apresentando o Egito  6% de crescimento em 2010
levantando a empolgação do sistema financeiro internacional que passou
a exigir a admissão do país africano no grupo conhecido por BRIC.
Neste clima de empolgação financeira a Fitch Ratings, importante
agência de classificação de risco, através do seu diretor para o
Oriente Médio e África Richard Fox anunciou, em 13 de janeiro deste
ano de 2011, a promoção do Egito em seus índices justificando que: "A
economia do Egito mostrou-se resistente a crise global e está agora no
modo de recuperação" e continua em seu otimismo: "As reservas [do
Egito] estão crescendo e apresentam um pequeno déficit em conta
corrente", mas esta estabilidade poderia sofrer perturbações
considerando-se a possibilidade de eleições este ano afirmando: "As
eleições sugerem um aumento das incertezas políticas". Espantoso, mas
verdadeiro. Os interesses financeiros não combinam com mudanças de
governo a estabilidade dos grupos econômicos internacionais depende de
governos autoritários e/ou submissos ao capital . Incrível !


       No Egito, infelizmente, o desemprego, fome  desconsideraram os
encantados índices das agências e levaram o povo às ruas do Cairo
ligando de forma obvia estes problemas a figura do ditador e neste
ponto procuram os grupos financeiros, União Européia e Estados Unidos
conduzir o problema reduzido as exigências  a mera substituição da
nefasta figura de Osni Mubarack.


       Como parte desta manipulação o termo democracia passa a ser restrito
a condição de realizações periódicas de eleições excluindo-se o debate
em torno da evidente falência do modelo desregulamentador e suas
exigências quanto da desnacionalização e reprimarização econômica. No
Egito Osni Mubarack radicalizou o processo desregulamentador iniciado
por Anuar Sadat enterrando o modelo nacionalista de Estado Empresário
instituido por Gamal Nasser nos anos 50.        

A figura de Nasser, de forma evidente, acrescenta uma tradição nacionalista e antiimperialista servindo de combustível para as reivindicações populares e nota-se,nas imagens dos protestos, a presença de muitas fotografias do líder nacionalista.  Todavia durante os trinta anos de ditadura o conceito de democracia ensinado nas escolas e difundido por muitas ONGs locais encontra-se influenciado pela doutrina do Project on Middle East Democracy (POMED) instituição financiada com recursos do governo dos Estados Unidos e no Egito predomina, do ponto de vista populacional, jovens nascidos depois da  morte de Nasser em 1970 desconhecendo, portanto, alternativas de modelos políticos e econômicos além do apresentado através dos ensinamentos importados dos EUA.


       Neste quadro apresenta-se em vantagem a figura de Mohamed ElBaradei
simbolizando o modelo de democracia do POMED, ou seja, um líder
oposicionista moderado defensor de reformas pontuais no modelo
econômico ( leia-se introduzir políticas sociais compensatórias)
possuindo, principalmente, condições de garantir a segurança de Israel
em natural associação aos interesses dos EUA principalmente nos
assuntos relativos ao enfraquecimento do Irã.


       Baradei, considerado moderno demais durante o governo Bush, encaixa-
se perfeitamente na proposta do governo Obama para o norte da África e
Oriente Médio podendo representar o "novo" considerando-se a sua
posição quanto a invasão do Iraque negando-se a reconhecer a
existência de armas de destruição em massa preocupado, atualmente, em
encontrar os meios para desmontar o projeto nuclear do Irã. Quanto ao
petróleo Baradei busca os meios de criar uma agência internacional de
regulação energética fazendo coro aos defensores da governança mundial
via interesses dos oligopólios.


       Curiosamente assistimos a crise neoliberalismo, entretanto não
apresentou-se de forma organizada internacionalmente uma proposta para
atender e mobilizar os interesses da população trabalhadora e
caminhamos, pelo menos neste momento, ao consenso em torno das medidas
compensatórias permitindo a sobrevivência deste moribundo modelo.

 

 
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