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O Evangelho segundo Bush

30.05.2005 | Fonte de informações:

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Ele sempre procura mostrar isso em suas ações: afirma que, após sua conversão, deixou de beber (era um alcóolatra reconhecido e confesso, até os 40 anos); não permite que a nova esposa do Príncipe Charles, Camilla Parker-Bowles, entre na Casa Branca, por ser uma mulher divorciada e a responsável pela ruína do casamento dele com Diana Spencer; criou um programa para estimular a abstinência sexual até o casamento; manda dinheiro para outros países, como ajuda para tratamento contra AIDS, apenas se se comprometerem a não usar estes recursos no tratamento a prostitutas (o Brasil recentemente rejeitou a ajuda norte-americana, por opor-se a esta restrição); com o diretor da FCC (a Comissão que regula as concessões a rádios e televisões) e o procurador-geral, impõe pesadas multas aos meios que transmitam palavras de baixo calão ou imagens com conteúdo sexual; e chegou até mesmo a afirmar que Deus lhe diz que ações deve tomar.

Porém, o cristianismo militante de Bush é bastante estranho: considera pecaminoso e imperdoável tudo aquilo que se refere a drogas, álcool e sexo fora do casamento. Iniciou um movimento para transformar os EUA num reino dos santos, sem homossexuais, prostitutas, filmes pornôs, cerveja, maconha e palavras como “fuck”. Porém, massacres, torturas e mentiras lhe parecem perfeitamente aceitáveis e mesmo justas, e não sente a menor lástima em cometê-las. Isto, aliás, é uma das estranhas distorsões que apareceram na religiosidade dos estadounidenses, descendentes dos puritanos ingleses. E, na verdade, mostra o quão pouco cristão é Bush.

Jesus Cristo era realmente contra o alcoolismo, o adultério e a licenciosidade sexual. Mas pelo que se apreende da leitura do Novo Testamento, estes pecados eram para ele de pouca importância, pois estava sempre disposto a perdoar rapidamente aqueles que os cometiam. A virtude suprema do cristianismo autêntico é o amor absoluto a Deus e a todos os homens, sem restrição, inclusive aos inimigos. O pecado supremo é a ausência de caridade e compaixão, daí a afirmação de Dostoyevski, grande escritor cristão: “O inferno é não amar.”

A partir do que se vê das ações de Bush, caridade e compaixão são sentimentos que simplesmente não existem para ele: não hesitou em iniciar uma guerra por vendetta familiar (resolver a querela entre Saddam Hussein e Bush pai) e interesses econômicos de grandes corporações, aliadas ao seu governo. Tirou milhares de vidas de iraquianos, estadunidenses e alguns poucos aliados, enviados a uma guerra absurda e desnecessária. Bush é incapaz de enxergar qualquer coisa fora do seu restrito círculo familiar e corporativo, e portanto não pode sentir compaixão por ninguém. E como bem afirmou o apóstolo João: “Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor.” Quem não tem caridade, simplesmente não é cristão.

Outra incongruência entre o cristianismo autêntico e as ações de Bush é o apoio incondicional que este dá aos grandes poderes econômicos que financiaram sua campanha, apóiam seu governo e influenciam sua política externa agressiva e imperialista. Jesus Cristo sempre estava junto aos pobres, e afirmou, em palavras muito conhecidas: “é difícil para um rico entrar no Reino dos Céus! Eu vos repito: é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus.”

Bush, na verdade, se parece mais a um fariseu, seita também muito criticada por Jesus: sempre está falando sobre boas ações, moralidade, santidade, pureza, mas tudo isso é pura hipocrisia, pois suas ações são exatamente o contrário. Tudo que ele quer é ser visto como um homem justo e santo, e tirar proveito pessoal com isso. Se as prostitutas, os ladrões, os alcóolatras e os adúlteros eram facilmente perdoados por Cristo, o mesmo não se pode dizer dos fariseus. Jesus lhes disse: “Em verdade vos digo: os publicanos e as meretrizes vos precedem no Reino de Deus.”

O metodista Bush, por mais que reze e pregue, não tem nada de cristão. Ele é um fariseu, ou mesmo um falso profeta, que usa as palavras de Cristo para justificar seu egoísmo e suas iniqüidades. Infelizmente, é uma característa muito humana a capacidade de corromper as coisas mais sublimes, e Jesus já a conhecia, pois sabia que muitos deturpariam suas palavras e ensinamentos: “Cuidai que ninguém vos seduza. Muitos virão em meu nome, dizendo: Sou eu o Cristo. E seduzirão a muitos.” Mas pelas suas obras os conhecemos: e por tudo o que Bush tem feito, desde as primeiras eleições que ele participou, em 2000, sabemos que de cristão ele não tem nada.

Carlo MOIANA Pravda.Ru Buenos Aires

 
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