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Comunista indiano debate relação partidos/movimentos sociais

30.01.2004 | Fonte de informações:

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Nela, Karat discorre sobre um tema que pertence hoje a todos os continentes; e no final faz uma interessante (e altamente elogiosa) avaliação sobre os partidos de esquerda na América Latina...

Ao falar sobre partidos políticos e movimentos sociais, devemos primeiro notar que existem diferentes tipos de partidos políticos e de movimentos sociais. Há partidos que representam justamente as classes dominantes e os interesses da ordem estabelecida, assim como existem movimentos sociais que desempenham um papel social retrógrado ou divisionista. E há partidos políticos que objetivam transformações de fundo sociais e econômicas, assim como há movimentos sociais que articulam e combatem pelos interesses dos oprimidos e marginalizados da sociedade.

O que mostra a história do século 20

Tratamos aqui destes partidos e movimentos, que batalham por transformações sócio-econômicas para obter justiça social, democracia e equidade. E nestes casos toda a experiência demonstra que estes dois segmentos distintos jogam papéis separados, que podem ser complementares ou seqüenciais.

A história do século 20 mostra que os partidos políticos de massas, democráticos e de esquerda jogaram o papel-chave na obtenção de benefícios sócio-econômicos para o povo trabalhador. É a mudança política, é o êxito da luta política que proporciona ganhos sociais e econômicos. Assim foi com o voto universal, as medidas de seguridade social, a educação universal, a proteção aos enfermos e desempregados ou a jornada de oito horas de trabalho. Ao passo que atualmente a mudança regressiva e a entrega dos benefícios sociais foram realizados por agentes políticos através de deslocamentos políticos, enquanto o levantamento do problema, o esclarecimento sobre a alternativa e até a mobilização da opinião pública freqüentemente foram iniciados através de movimentos e organizações sociais.

Estamos falando da relação entre partidos políticos e movimentos sociais. No momento atual isto significaria reconhecer o que existe de comum entre eles e o que os diferencia. Falando de partidos de esquerda, seu primeiro objetivo é organizar e mobilizar em apoio à realização de seu programa. Em muitos casos isto implica em mobilização eleitoral como parte de um programa de ação. Os partidos de esquerda devem ser portanto programaticamente orientados, o que significa abordar um amplo leque de alternativas e mobilizar diferentes segmentos do povo. Dentro deste espectro de esquerda, há partidos de orientação marxista, que se atêm à estratégia de classe como ponto de vista básico.

Presentemente, na Índia, os processos conjugados da liberalização e do comunalismo têm sido usados pelas classes dominantes para manter seu poder e seu sistema de classe. Isto tem significado maior intervenção imperialista e maior apoio a certos processos políticos e econômicos em curso na sociedade indiana. A experiência da última década e meia é que existe uma ofensiva de direita que sustenta tanto o movimento comunitarista-sectário como as reformas neoliberais. Isto teve um efeito devastador sobre o povo trabalhador e os segmentos socialmente oprimidos. A esquerda foi submetida a uma ofensiva na medida em que se opôs política e ideologicamente a ambas as tendências.

Os novos movimentos sociais, tal como os seus predecessores, têm que responder ao impacto da globalização conduzida pelo imperialismo e suas conseqüências sócio-econômicas. Mesmo quando tais movimentos estão focados em questões específicas tais como alimentação, água, conservação dos recursos comunitários ou a emancipação das mulheres ou dos "dalits" (os párias, discriminados no sistema de castas), precisam responder e combater os ataques à subsistência, aos direitos e aos recursos de diferentes comunidades e grupos.

Existe portanto uma uma convergência de interesses e atividades, dentro dos quadros de uma luta contra a globalização imperialista e as classes e o regime que internamente facilitam a ação destrutiva daquela, usando políticas reacionárias e divisionistas com base em religiões, castas e várias formas de social-chauvinismo. Quando nos reunimos e discutimos esta cooperação entre partidos e movimentos, estamos debatendo esta realização conjunta.

Existe outro imperativo político e teórico para trabalharmos por um relacionamento entre partidos de esquerda e movimentos sociais radicais. Dado o poder invasivo do imperialismo norte-americano hoje, seu percurso globalizador determina as esferas econômica, política, social e cultural. A luta não pode se confinar ou concentrar apenas no político ou no econômico. O elemento social também é vital e precisa ser incorporado no combate.

Um fenômeno da globalização imperialista é que seu impacto produz efeitos assimétricos e é socialmente desagregador. Isto promove identidades que atomizam ao invés de reforçar as solidariedades coletivas. Em uma tal situação, os partidos de esquerda, com sua prioridade para objetivos políticos, não estão necessariamente apetrechados nem são os melhores veículos para chamar a si permanentemente as lutas sociais e culturais. Os partidos de esquerda ou marxistas se enfraqueceriam se abraçassem estas políticas de identidade.

Ao mesmo tempo, é preciso atrair os segmentos sociais fragmentados, onde estão as vítimas das políticas econômicas de direita e das políticas de identidade sectária, para o movimento por justiça social e para o movimento democrático conjunto. Isto pode ser realizado pelos movimentos sociais radicais que possuam uma visão de conectar o que é específico e local com um movimento democrático e político mais amplo.

Com o fito de produzir esta cooperação numa ação factível e com uma plataforma comum, é preciso identificar alguns obstáculos e problemas. Estes podem ser assim classificados:

a) O papel do Estado

Os partidos políticos de esquerda estão lutando para garantir que o Estado permaneça em condições de garantir as mínimas necessidades dos cidadãos e desempenhar um papel redistributivo, de justiça e de regulação dos capitais tanto internacionais como domésticos. Uma parte das ONGs e movimentos sociais tende a negar este papel do Estado, com um enfoque anti-estatista. O Banco Mundial e grandes empresas promovem o desenvolvimento nos países do Terceiro Mundo com uma filosofia de afastar o Estado de suas responsabilidades para com o progresso e o bem-estar. Na índia esta questão tem sido cada vez mais resolvida por meio da prática.

b) A alienação da política

Existe ampla desconfiança da política e dos políticos, especialmente nas classes médias da Índia — de onde se origina uma boa parte dos ativistas dos movimentos sociais. Esta desconfiança se estende aos partidos de esquerda, o que é em parte devido a discordâncias políticas e filosóficas. Na Índia, a esquerda tem predominantemente um, caráter marxista. Suas concepções programáticas, baseadas numa visão de classe, e seus conceitos organizativos são vistos com suspeição e hostilidade. O argumento não reside no programa ou na organização em si, pois muitos movimentos sociais se voltaram para variados programas e coalizões, sem se basearem apenas na espontaneidade de baixo para cima. A questão reside mais fundo, na incapacidade de enxergar que o antipoliticismo é precisamente aquilo que as forças da globalização que eles combatem gostariam de vê-los adotar.

c) As atividades sócio-políticas baseadas no exterior

Tem havido um antigo debate na Índia sobre o papel de trabalhos voluntários baseados no exterior, tendo em vista políticas de desenvolvimento ou de "empoderamento". Como o imperialismo, o Banco Mundial e os governos ocidentais iniciaram este processo, desde o fim dos anos setenta e o início dos oitenta? O debate ajudou a esclarecer muitas questões. O aspecto positivo é que existe, ao lado do setor das ONGs que atuam dentro dos moldes da filosofia fundamental do Banco Mundial e do governo indiano, um novo setor que emergiu e desaprova aquela linha. São eles que trabalham em alguns dias novos movimentos sociais em diferentes segmentos populares. As ONGs com base no exterior e na área do desenvolvimento-"empoderamento" são na verdade facilitadoras de reformas neoliberais e da estratégia imperialista. Presentemente, mais de 40 bilhões de rúpias são carreadas a cada ano para as ONGs indianas, para um vasto espectro de atividades. Os esforços de ação unificada hão de ajudar a produzir uma diferenciação maior entre o desenvolvimento da sociedade civil organizada e o conceito do Banco Mundial sobre ONGs.

d) Problemas nos partidos de esquerda

Os partidos de esquerda, por sua parte, ainda não captaram algumas das novas realidades e desafios. Sua luta por políticas alternativas, sua concepção de uma plataforma de esquerda e democrática para desafiar o imperialismo concentram-se principalmente nas lutas econômicas de todo dia e nas batalhas político-eleitorais. Existe uma insuficiência, seja na conceituação, seja nas lutas nas esferas social e cultural. A esquerda também não foi capaz de lidar a contento com as complexidades das tendências tecnológicas e o impacto social da nova economia. Estas lacunas, além de outras limitações organizativas, tornam difícil para a esquerda responder a tempo às questões colocadas pelos movimentos sociais.

Os partidos de esquerda na América Latina deram importantes passos na construção de plataformas que abarcam partidos, movimentos e grupos, com base no combate às políticas neoliberais e ao imperialismo. O Fórum de São Paulo, que começou há mais de uma década, foi uma importante referência. Seguiu-se o Fórum Social Mundial de Porto Alegre.

Na Índia, os partidos políticos de esquerda são de certa forma afortunados por não terem sofrido nenhuma erosão significativa na sua base de massas depois das profundas mudanças na cena mundial com o colapso da União Soviética. Aqueles que se proclamam comunistas somam hoje mais de 1,5 milhão, em vários partidos. Existe uma esquerda mais ampla, que envolve mais alguns milhões de aderentes.

A última década foi difícil para a esquerda indiana, pois esta esteve engajada principalmente numa ação em frente. Mas, quando olhamos em torno, esta esquerda é a única esquerda que existe. E se enxergarmos mais além, existem pequenos mas ativos movimentos sociais desafiando os ataques à existência dos pobres, dos povos tribais, combatendo a opressão de casta e de gênero. Podemos encontrar um campo de entendimento.

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