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Assembleia Constituinte, Guerra Econômica e Midiática: Entrevista com Whitney Webb

28.07.2017 | Fonte de informações:

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Assembleia Constituinte, Guerra Econômica e Midiática: Entrevista com Whitney Webb

Analista do sítio norte-americano Mint Press fala da Assembleia Constituinte, a ser votada na Venezuela no próximo dia 30 como medida de Caracas para enfrentar a guerra econômica provocada pelo eixo Miami-Cidade do México-Bogotá-Madri, e a crescente violência no país causada pela oposição a fim de gerar caos.

A jornalista norte-americana analisa também o boicote econômico dos Estados Unidos e a guerra midiática contra a Venezuela: tudo isso, de acordo com Whitney, semelhante às ocorridas no passado na América Latina, arquitetadas e financiadas exatamente pela CIA para derrubar governos progressistas. Atualmente na Venezuela, assim nas mais diversas partes do mundo atualmente a fim de produzir a nova forma de o regime de Washington aplicar golpes: a denominada Revolução Colorida.

A seguir, a íntegra da entrevista com Whitney Webb.

Edu Montesanti: Qual a importância da próxima Assembléia Nacional Constituinte da Venezuela? A oposição afirma que é antidemocrática: como você responde a isso?

Whitney Webb: A Assembléia Nacional Constituinte (ANC), sempre controversa, foi inicialmente proposta pelo governo venezuelano com o objetivo de reduzir a violência nas ruas, bem como o entrave entre a Assembléia Nacional controlada pela oposição, e as outras esferas do governo que apoiam Maduro.

Enquanto a ANC poderia atuar em diferentes circunstâncias, o principal bloco de oposição recusou-se a apresentar candidatos o que, essencialmente, mina todo o processo e permitiu que a mídia ocidental distorcesse o ANC como prova de "despotismo", já que nenhum dos principais candidatos do bloco de oposição está incluído.

Mesmo que o voto da ANC seja uma eleição normal sob qualquer outro critério, a recusa da oposição principal a participar realmente prejudica seus principais objetivos e, portanto, o processo como um todo.

O que o governo venezuelano tem aparentemente negligenciado aqui, é que o principal bloco de oposição decidiu que é do seu melhor interesse gerar o maior caos possível no país, levando-os a se recusar a resolver a crise para o melhoramento de todos os venezuelanos.

Este grupo, amplamente financiado pelos Estados Unidos ao longo de décadas, está ansioso para assumir o poder e também é provável que siga a agenda norte-americana na Venezuela, que deseje uma mudança radical do regime - e não uma solução pacífica para o processo atual.

Embora os objetivos do ANC sejam louváveis, pode provocar mais problemas que ajuda a corrigir, e pode ser usada de forma oportunista pela oposição e pelos EUA para piorar ainda mais a crise, na esperança de expulsar o atual governo.

Confira: Assembleia Constituinte Ilustrada


Quais os grandes desafios enfrentados pela Venezuela hoje, e quais as melhores maneiras de se superar esses desafios?

Bem, o maior desafio que a Venezuela enfrenta atualmente é econômico. No entanto, ao contrário da narrativa ocidental, este não é o resultado orgânico da má gestão dos fundos do governo venezuelano.

Esta narrativa não leva em conta, por exemplo, o papel das sanções dos Estados Unidos e a manipulação artificial dos preços do petróleo aos mínimos históricos - uma "política" incubada conjuntamente pelos Estados Unidos e os sauditas, principalmente para atingir a Rússia. No entanto, outros produtores de petróleo fora dos Estados do Golfo, como Venezuela e Equador, foram extremamente atingidos por essa manipulação de preços.

Além disso, as empresas pertencentes à oligarquia venezuelana anti-chavistas foram pegas gerando intencionalmente escassez onde lhes seja possível, com o objetivo final de inflar a sublevação.

Esta tática foi utilizada em toda a América Latina no passado para atingir os governos de esquerda, principalmente contra o governo de Salvador Allende no Chile no início da década de 1970, antes de sua violenta derrubada.

O precedente histórico desta tática, bem como a evidência atual de que o mesmo está em andamento na Venezuela por anos, prova sem dúvida que o governo da Venezuela não pode ser o único responsável pela crise que a nação experimenta hoje.

O segundo maior desafio que enfrenta a Venezuela é a manipulação da mídia ocidental sobre as percepções no exterior, o que impede que pessoas nos Estados Unidos e em outros lugares associem a falsa narrativa ocidental sobre a Venezuela com as similares utilizadas ​​no passado, em países como Iraque, Líbia e Síria.

Maduro é chamado de ditador, apesar de ser um líder democraticamente eleito. Os manifestantes da oposição geralmente são chamados de pacíficos, apesar de ter sido documentados linchando suspeitos de serem chavistas, e até queimando alguns deles vivos.

Os manifestantes da oposição também são retratados como representantes de todos os venezuelanos, embora a maioria deles seja encontrada exclusivamente nas áreas mais ricas de Caracas, onde a oligarquia tem mantido o poder há muito tempo.

Esses desafios não podem ser facilmente superados.

Na parte econômica, o que toda a Venezuela pode fazer de maneira efetiva é desenvolver economias locais, auto sustentadas, acabar com a dependência das importações e trabalhar para construir uma economia muito menos dependente do petróleo.

Quanto à manipulação da mídia ocidental, o desmantelamento de narrativas similares usadas na Síria são um bom exemplo de como enfrentar esse desafio particular. Isso foi, em grande parte, realizado através da circulação de vídeos e evidências que contrariaram a narrativa ocidental, através da mídia social e entre a mídia alternativa ocidental. Isso ajudou a criar dissidência nos EUA para uma invasão dos Estados Unidos à Síria, por exemplo. No entanto, a mídia alternativa tem sido lenta ao examinar a situação na Venezuela com o mesmo olhar crítico.


Enfrentando uma oposição tão violenta com sua principal defensora, isto é, aos Estados Unidos, e diante da histórica guerra mediática, o que tem possibilitado à Revolução Bolivariana na Venezuela sobreviver até hoje, quase 19 anos depois que Hugo Chávez assumiu o poder

Claramente, isso tem sido possível graças ao povo venezuelano que elegeu Chávez presidente, em primeiro lugar, e que continuou apoiando a Revolução Bolivariana nos anos subsequentes.

A oposição não é representante de todos os venezuelanos, e vive amplamente concentrada nas classes socioeconômicas superiores. Assim, o governo chavista ainda goza de apoio entre outras classes e grupos, embora o peso atual da crise tenha reduzido o apoio onde se encontrava quando Chávez ainda estava vivo.

No entanto, se não houvesse apoio popular ao governo provavelmente já teria havido um golpe de Estado ou uma "revolução colorida" provavelmente apoiada pelos Estados Unidos. Mas ainda não aconteceu apesar da gravidade da situação econômica.

Por essa razão, os Estados Unidos e a oposição venezuelana têm procurado dar segmento ao estrangulamento da economia e à distorção da percepção estrangeira da sucessão de eventos na Venezuela, já que o próprio povo da Venezuela provou que a maioria deles não pode ser convencida a aceitar um retorno a um governo oligárquico dominado pelos interesses dos Estados Unidos - o que existia antes da ascensão de Chávez ao poder.


Como você vê o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçando o povo venezuelano e impondo sanções econômicas ao governo, se este prosseguir com a Assembléia Constituinte?

Em primeiro lugar, na verdade não vejo a hostilidade dos Estados Unidos como orquestrada principalmente por Trump. Trump certamente é um personagem disposto, mas os interesses dos Estados Unidos, há muito, buscam a derrubada dos chavistas. 

No gabinete de Trump, não é o presidente mas seu secretário de Estado, Rex Tillerson, quem há muito tempo usou suas armas para derrubar o atual governo da Venezuela. Isso, é claro, remonta ao seu tempo como diretos da ExxonMobil.

No entanto, a maior parte da ação tomada pelo governo dos Estados Unidos contra a Venezuela materializou-se, em grande parte, no Congresso, com senadores como Marco Rubio apresentando uma legislação para aprovar o repasse de milhões de dólares a mais para a oposição venezuelana, e outros, como Ted Cruz, fazendo súplicas "sinceras" em vídeo para que os Estados Unidos se engajem em "resolver" uma crise que eles próprios ajudaram a criar.

A Assembléia Constituinte já foi criada como escusa para aumentar o envolvimento dos Estados Unidos na Venezuela. Isso pode ser visto pelas formas como os meios de comunicação ocidentais e seus simpatizantes a retrataram.

No entanto, independentemente de haver uma Assembléia Constituinte ou não, a ação dos Estados Unidos visando à Venezuela teria acontecido de qualquer maneira, uma vez que a crise deverá piorar nos próximos meses devido às reservas de divisas do governo venezuelano, bem como à "Operação América Unida" liderada pelos militares dos Estados Unidos, programada para acontecer não muito longe da Venezuela em apenas alguns meses.

Novas sanções contra a Venezuela são prováveis. O aumento do "auxílio" para os grupos de oposição também deverá materializar-se, já que os projetos de lei neste sentido já foram apresentadas no Congresso dos Estados Unidos.

Além disso, é difícil dizer, mas os Estados Unidos provavelmente observarão os acontecimentos no país de maneira oportunista, buscando se apoderar de qualquer um que se manifeste "favorável" em se pressionar ainda mais o governo da Venezuela.

Podemos também ver uma campanha liderada pelos Estados Unidos que finge preocupação com mortes civis e "direitos humanos", assim ocorreu na Síria nos últimos anos para justificar uma intervenção humanitária dos Estados Unidos. 

No entanto, essas medidas mais extremas exigirão ainda mais manipulação da percepção estrangeira dos acontecimentos na Venezuela, bem como uma piora da crise atual.

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Edu Montesanti é autor de Mentiras e Crimes da "Guerra ao Terror" (2012). Escreve para a Revista Caros AmigosPravda BrasilPravda Report (Rússia), Telesur English (Venezuela) e Global Research (Canadá). É tradutor dos sítios de Abuelas de Plaza de Mayo (Argentina) e Revolutionary Association of the Women of Afghanistan

 

 
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