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ANDIJAN - DOIS MESES DEPOIS

27.07.2005 | Fonte de informações:

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Andijan, a terceira maior cidade do Uzbequistão, a cidade natal de Babur (n. t. - grande monarca e conquistador turco-persa do século XVI), situada 450 metros acima do nível do mar, é hoje conhecida no mundo por outras razões. É que na noite de 13 de Maio de 2005, sangrentos confrontos ocorreram naquela que á chamada "pérola do Vale de Fergana". Os meios de comunicação social do mundo inteiro cobriram este acontecimentos trágicos com diferentes pontos de vista, jornalistas e políticos interpretaram diversamente as notícias. Alguns deles culparam as autoridades, outros a pobreza e a corrupção entre dirigentes, outros culparam terroristas, etc.

Penso que a verdade não pode ser eternamente escondida. Mais tarde ou mais cedo ouviremos a verdade acerca desses acontecimentos. Ontem (n.t. - 13 de Julho), um grupo de 19 jornalistas estrangeiros e 11 diplomatas de 8 países, incluindo a Rússia, a China, a Índia e outros foram convidados pelo governo do Uzbequistão para visitarem e verem com os seus próprios olhos o local da tragédia de Andijan e para obterem informação em primeira mão. Uma gravação de vídeo mostrada aos jornalistas e diplomatas estrangeiros gelou o coração de todos e foi muito convincente.

Cumpriram-se ontem dois meses desde que aconteceu a tragédia de Andijan. Mas os pais estão ainda de luto pela perda dos seus filhos. Uma mulher que casara há dois anos é agora uma viúva. Um irmão mais velho de uma família que ajudara o seu irmão mais novo a aceder ao ensino superior e à função pública perdeu-o nos confrontos com militantes. O jovem acabaria por vir a morrer. O sofrimento e o luto entraram em todas as casas, e todos colocam uma questão: quem beneficiou com este conflito? Certamente que todos acabaram por perder algo e a província de Andijan, com 2,346,000 habitantes, perdeu muito nesta tragédia.

O correspondente do Pravda teve oportunidade de visitar os locais dos trágicos acontecimentos e de encontrar-se com habitantes de Andijan – as testemunhas da tragédia, familiares das vítimas civis e os cidadãos uzbeques que regressaram do Quirguizistão. Com o grupo de 11 jornalistas, também visitei 11 locais diferentes, incluindo o mercado e familiarizei-me com a situação actual na cidade e nos seus subúrbios. Encontrarão aqui um relato fidedigno e politicamente neutro desta visita

A visita começou de manhã cedo. A rua Nakshbandi foi o primeiro local por nós visitado. Deve ter-se em conta que este foi o primeiro local onde um grupo de pessoas não identificadas se apoderaram ilegalmente de armas. Aqui se situa um posto da polícia. 5 agentes foram mortos neste ataque. O oficial de serviço, Anvar Ahmedov, disse-me que 50 a 60 militantes atacaram o posto da polícia. O novo comandante do batalhão, Shuhrat Muhammadiyev, mostrou-me as fotos dos que foram mortos. Depois de as armas terem sido roubadas, e de o sangrento massacre ter terminado, o grupo dividiu-se em dois e atacaram uma unidade militar. Deve ter-se em conta que o posto da polícia, a unidade militar e a prisão estão situadas perto umas das outras num raio de 1-2 km.

A unidade militar situa-se na rua Ergash Ashurov. Os meus interlocutores - o capitão Batyrjan Satvaldiyev e o major Ilhamjan Rashidov testemunharam os acontecimentos dessa noite, quando os militantes invadiram a unidade militar nº. 45605 roubaram armas da sala 7. Segundo o presidente da Câmara (n.t. - ou perfeito) de Andijan, alguns dos assaltantes eram estrangeiros, provenientes de países vizinhos.

DE seguida, os militantes atacaram uma prisão local. Por razões desconhecidas, a prisão situa-se dentro de um mahallya (n.t. - bairro habitado por um clã muçulmano), e nos 13 anos da independência da Uzbequistão, o município ainda não concretizou a ideia de transferir a cadeia para um local mais adequado. Para além de reclusos comuns, eram ali mantidos criminosos especialmente perigosos. Segundo o sub-director da prisão, o tenente-coronel Rahimov, um grupo de 50-60 militantes penetrou no terreno da prisão e começaram aos disparos. Depois o grupo dividiu-se em dois. Um desses grupos libertou mulheres, o outro homens. Um dos assaltantes gritou " fujam senão serão mortos". Fugiram 527 reclusos num total de 737. Passavam por cima dos cadáveres dos guardas mortos. Entre os reclusos fugitivos estavam Sunnatulla Sharipov, Igor Myskov, Akmaljan Salijanov, Pavel Syrjanov e Igor Kim, que acabariam por regressar para a prisão. Um recluso chamado Atham Tajibayev disse: "pretendiam repetir o cenário quirguize (n.t. - onde uma revolta nas ruas derrubou o chefe de Estado), era óbvio que estavam a actuar seguindo um plano bem preparado". De seguida, a multidão dirigiu-se para o edifício do governo regional e uma parte atacou o departamento local do Serviço Nacional de Segurança. Durante os confrontos incendiaram o Teatro Babur, construído em 1955, e o edifício do governo regional.

Durante a visita a Andijan, encontrei-me com pessoas que tinham regressado do Quirguizistão (n.t. - onde se refugiaram muitos participantes nos acontecimentos de Maio). Entre elas, um jovem uzbeque, Davlat Alimov, de 18 anos, e Amin Azimov, de 47anos. Que estavam arrependidos do que tinham feito. O presidente da província de Andijan apresentou dados estatísticos sobre o número de habitantes de Andijan e dos grupos étnicos aí residentes (2,346,000 pesssoas, de 102 grupos étnicos). Existem na região (...) 833 comissões de mahallya e 18 mesquitas. Todas as perguntas obtiveram respostas muito breves. Pelo contrário, o procurador Dehkanov apresentou dados exactos e afirmou que durante a tragédia foram mortas 187 pessoas, incluindo 94 terroristas, e apreendidas 334 armas. Foram declarados procurados 29 homens, 12 dos quais obtiveram refúgio no Quirguizistão. Um movimento islâmico do Turquemenistão e militantes do movimento islâmico uzbeque Akram organizaram os acontecimentos. (...)

A gravação de vídeo foi realizada pelos terroristas e gravou os acontecimentos em tempo real. O filme nega todas as acusações veiculadas pelos órgãos de comunicação social ocidentais. O filme descreve o espancamento de agentes da polícia pela multidão, o incêndio de teatros, a exibição das armas roubadas acompanhada por gritos de "Allah Akbar" (n.t. - Deus em grande em árabe), a invasão da administração local e a produção de explosivos. Só as autoridades sabem quando é que este vídeo será apresentado ao público. Mas uma coisa é clara: este filme é uma pesada estalada para o Ocidente. A gravação de vídeo testemunha que os acontecimentos de Andijan não ocorreram por acaso, foram previamente preparados. Os perpetradores dos acontecimentos eram militantes bem treinados, o que demonstra que as acusações proferidas no Ocidente contra o Uzbequistão não têm fundamento. è uma boa altura para o ocidente descer dos céus e encarar a verdade. Hoje Andijan vive uma vida normal. Os mercados, as lojas e instituições estão a funcionar normalmente. Podem confirmá-lo os diplomatas de 8 países visitaram Andijan sem guardas nem interlocutores seleccionados. Será que o Ocidente pretende repetir os erros de 2001? Porque será que o Ocidente não quer ver que a ameaça que a Ásia central está a enfrentar pode virar-se contra ele amanhã? Irão os acontecimentos de Londres constituir uma lição para o Ocidente?

Sem dúvida que o Uzbequistão necessita de reformas em certos sectores e províncias. Este país tem de reconhecer os seus erros e insuficiências, para que as perdas morais, físicas e económicas causadas pela tragédia de Andijan nunca mais aconteçam.

Aloke SHEKHAR Andijan, Uzbequistão

Tradução: Luís CARVALHO Para o jornal PRAVDA.Ru

 
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