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Discurso do presidente Lula em Nova Délhi

27.01.2004 | Fonte de informações:

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Senhor presidente,

Minhas primeiras palavras são de agradecimento pela fraterna hospitalidade com que minha delegação, inclusive meus caros companheiros do Mercosul, minha mulher e eu estamos sendo recebidos pelo povo e pelo governo da Índia.

É um privilégio participar como convidado de honra do Dia da República e das festividades cívicas que comemoram a Independência desta nação amiga. Relembro, aqui, os líderes dessa histórica conquista, que inspiraram povos e gerações. Quero, em especial, reverenciar aquele que foi, sem dúvida, uma das maiores figuras da história contemporânea, Gandhi, cuja memória tive hoje a oportunidade de honrar, mostrou que um povo pode defender seus direitos, sem violência, com a força de suas convicções.

Outros líderes deste país deixaram sua marca nas relações entre os povos e nos ensinaram a admirar esta grande nação que soube trilhar seu próprio caminho, guiada pela coexistência de tantas culturas e pela consciência social. Mais do que qualquer outra nação, a Índia sintetiza o ideal da unidade da diversidade.

Uma democracia pujante, unindo etnias, culturas e línguas diferentes. Um país que, para enfrentar o espectro da fome permanente, uniu capacitação tecnológica e vontade política. Uma nação que alia sabedoria milenar com a formação de seus jovens, criando um pólo dinâmico de desenvolvimento tecnológico mundialmente reconhecido. É este o país que ganha destaque na política externa de meu governo.

Vim à Índia confirmar esse compromisso e forjar uma parceria privilegiada, uma parceria que desejamos seja modelar para outras nações em desenvolvimento. Nossos governos estão empenhados na construção de sociedades que ofereçam oportunidades iguais para seus cidadãos viverem com dignidade, em um ambiente de justiça e tolerância. O livro de Vossa Excelência, intitulado "Índia 2020, Uma Visão para o Novo Milênio", é dedicado a uma menina cuja aspiração é "viver numa Índia desenvolvida".

Os meninos e as meninas do Brasil também querem construir um país desenvolvido, capaz de vencer a fome e a pobreza. Este é o principal compromisso do meu governo.

Nossos países estão determinados a tratar dos desafios sociais, não como objeto de meras ações compensatórias, mas como elementos centrais do próprio modelo de crescimento econômico com justiça social. Executamos políticas econômicas maduras, modernizando a infra-estrutura, atraindo investimentos, combatendo o desperdício e a corrupção, aprimorando as instituições. Brasil e Índia estão assumindo o papel que lhes cabe na construção de uma ordem internacional democrática e justa.

Na Organização Mundial do Comércio, estamos juntos congregando países grandes e pequenos, com estruturas produtivas diferenciadas. O G-20, que formamos, articula posições fundamentais para nosso desenvolvimento. Lutamos juntos e continuamos unidos para flexibilizar o regime de patentes para medicamentos, dando prioridade ao combate do HIV/AIDS e outras doenças que afligem amplos setores de nossas populações. Colocamos a vida das pessoas à frente do lucro por vezes abusivo de certas empresas.

A Presidência da Índia no Grupo de Países Megadiversos e Afins dinamizará a atuação conjunta pela repartição justa e eqüitativa dos benefícios resultantes de nossa biodiversidade. A preservação da riqueza ambiental deve basear-se nos princípios do desenvolvimento sustentável. Há oportunidades de cooperação importante neste campo. Queremos expandir essas parcerias e desenhar novos paradigmas de desenvolvimento, a partir da intensificação do diálogo Sul-Sul.

Um momento importante dos processos foi o lançamento em Brasília, em junho de 2003, do Fórum de Diálogo Índia, Brasil e África do Sul, o IBAS, que logo ficou conhecido como o G-3 e atraiu a atenção de políticos e analistas dos mais variados quadrantes.

Juntos, lançamos durante a Assembléia Geral das Nações Unidas, iniciativa global de combate à fome e à pobreza. Com o mesmo objetivo, estarei participando, em Genebra, de diálogo com o Secretário Geral da ONU, Kofi Annan, e o presidente Jacques Chirac, da França, para mobilizar os líderes mundiais, sobretudo os dos países ricos, a engajarem-se nesse esforço global. Mais, Índia, Brasil e África do Sul tem um papel de liderança nesta luta, ao qual não podem abdicar. Temos que atuar juntamente com outras nações para catalisarmos as energias do mundo em desenvolvimento para o combate à fome.

Senhor Presidente,

O mundo que acirra desigualdades sociais e econômicas é também um mundo de fortes turbulências políticas, de ameaça das armas de destruição em massa e do terrorismo. Necessitamos uma ordem mundial regida pelo direito internacional e por um sistema multilateral equilibrado e justo. Índia e Brasil dispõem das qualificações necessárias para contribuir para a manutenção da paz e da estabilidade.

Na América do Sul, estamos fortalecendo o Mercosul e ajudamos a construir uma zona de integração, desenvolvimento e paz abrangendo todo o continente sul-americano. Na Ásia, o peso político e econômico da Índia é incontestável. Saudamos o progresso no diálogo com o Paquistão e a crescente cooperação com outros países da Ásia Meridional. É uma esperança de paz para a região, que reforçará a estabilidade no mundo.

Senhor Presidente,

A voz dos países em desenvolvimento tem de ser cada vez mais ouvida. O mundo mudou nos últimos 69 anos, desde que a ONU foi criada sobre os escombros da Segunda Guerra Mundial. Reiteramos a necessidade de fortalecer as Nações Unidas e, em particular, o Conselho de Segurança, para torná-lo mais representativo e eficaz.

Por seu peso político e econômico, pela consistência de sua ação diplomática, Brasil e Índia são países que necessariamente tem que estar incluídos, em qualquer processo de reforma do Conselho de Segurança. Não é mais concebível que o órgão encarregado da Paz e da Segurança no mundo, cujo papel devemos reforçar, não tenha entre seus membros permanentes, países que representam os três continentes do mundo em desenvolvimento. As crises por que passamos nos últimos meses e anos tornam a reforma da ONU uma tarefa urgente. Saudamos a corajosa iniciativa do Secretário-Geral da ONU, Kofi Annan, de criar uma Comissão de Alto Nível com este objetivo.

Senhor Presidente,

Um ano após meu discurso de posse, em que expressei a prioridade da Índia em nossa política externa, vejo que nossas relações ganham densidade. Os contatos que tenho mantido nesta visita têm permitido aprofundar o diálogo e abrir novos horizontes para o aproveitamento conjunto de nossas potencialidades. Em nenhum outro campo essa cooperação é mais urgente e necessária do que no combate à fome e à extrema pobreza.

A distribuição eqüitativa de renda e de riqueza deve ser a alavanca - e não mera conseqüência do desenvolvimento. Vamos responder a esse desafio, de forma imediata com políticas emergenciais. Criamos também condições econômicas e sociais para que todos possam ter uma vida produtiva e digna. A Índia tem muito a ensinar ao Brasil na sua luta para assegurar condições mínimas de vida a um sexto da população mundial.

Avançamos nos entendimentos para a exploração das potencialidades que o engenho científico e a capacidade técnica de nossos povos abrem para o desenvolvimento. O exemplo dessas possibilidades são as tratativas sobre os Usos Pacíficos do Espaço Exterior, inclusive a possibilidade de lançamento de satélites brasileiros por veículos indianos.

Mais de uma vez tenho afirmado que os países em desenvolvimento não podem ficar esperando por benesses e concessões dos mais ricos. O acordo comercial entre o Mercosul e a Índia multiplicará as oportunidades de comércio. Oferecerá acesso privilegiado às potencialidades de um bloco econômico - a quarta economia do mundo - que caminha na direção de uma zona de livre comércio em toda América do Sul.

Este é um exemplo concreto e extremamente promissor - do que os países em desenvolvimento podem fazer juntos para mudar a geografia comercial do planeta.

Não para substituir as relações com os países desenvolvidos, mas para complementá-las.

Senhor Presidente,

Em meu discurso perante a Assembléia Geral das Nações Unidas, no ano passado, lembrei a lição de Gandhi: "A violência, quando parece produzir o bem, é um bem temporário; enquanto o mal que faz é permanente". Brasil e Índia estão trabalhando para um bem maior, duradouro, assentado no compromisso de responder aos desafios no início do século 21: combater a fome, promover o desenvolvimento e assegurar a paz.

Estamos consolidando uma parceria privilegiada - diria mesmo estratégica, entre nossos dois países, que integre nossas economias e aproxime nossos povos. Convido todos a erguerem suas taças e me acompanharem em um brinde à prosperidade e ao bem-estar do povo da Índia, ao contínuo desenvolvimento das relações de amizade entre nossos povos e à saúde e felicidade pessoal do presidente Abdul Kalam.

Muito obrigado.

 
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