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É o petróleo, estúpido!

26.06.2014 | Fonte de informações:

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Imaginem o presidente Obama, falando sobre o Iraque[1] diretamente da Sala de Imprensa da Casa Branca, dia 19, 5ª-feira passada, com ar de cervo surpreendido de cara para os faróis do caminhão - e não é difícil adivinhar de que caminhão e de que faróis se tratava. Pode-se dizer que se tratava e trata-se de Benghazi super-inchada de esteroides.

Se o assassinato de um embaixador dos EUA, de um oficial do Serviço Diplomático e de dois empregados de empresas de segurança contratadas pela CIA geraram quase dois anos de continuadas críticas enfurecidas vindas dos Republicanos e potencial dano ao 'legado' do presidente... imaginem o que farão um Iraque em cacos e um estado terrorista que se estende por todo "o Levante".[2] Nem chega a surpreender, então, que um presidente regularmente descrito como "relutante" tenha mesmo assim marchado resolutamente ante a imprensa, e ali se pôs em marcha, em câmera lenta, bem lenta, de volta para dentro do Iraque e rumo ao desastre.


Foi momento de contradições impressionantes. Obama deu jeito, por exemplo, de alertar contra o perigo de "superampliação da missão" [or."mission creep" [3]], apesar de tudo o que ele tem feito e dito não passar, precisamente, de "superampliação da missão".

No início da semana, Obama comunicou ao Congresso que 275 soldados[4] seriam mandados para o Iraque, a maioria para defender a embaixada-gigante dos EUA em Bagdá, que já foi o símbolo de quase ¾ de bilhão de dólares de húbris imperial e hoje não passa de elefante-branco exemplar. Mais 100 soldados vão também para lá, para apoio.

E na 5ª-feira o presidente acrescentou mais 300 "conselheiros militares" escolhidos nas forças de Operações Especiais e evidentemente com a missão de preencher os corredores de "novos centros de operação em Bagdá e no norte do Iraque, para partilhar inteligência e coordenar o planejamento para dar combate à ameaça terrorista". (Se você já alcançou certa idade, a expressão "conselheiros militares" faz soar sinos de alerta que falam vietnamês. De fato, já se pode pressentir a fuzilaria.) Obama também falou vagamente sobre posicionar "ativos militares adicionais dos EUA na região" - dentre os quais o porta-aviões USS George H.W. Bush, acompanhado de um cruzador e um destroier armados com mísseis teleguiados, que já partiram.[5] E vejam bem: essa é só a parte pública,[6] da qual todos podemos ser informados, de seja lá qual for a 'estratégia' já em andamento. Ao mesmo tempo em que o presidente falava de estar "preparado para empreender ação militar focada e precisa" no Iraque, pelo menos um "alto funcionário do governo", cujo nome não se conhece, já está inaugurando a possibilidade de ataques aéreos também contra a Síria.[7] A frase sórdida com a qual o tal alto funcionário fez o que fez foi:  "Não restringiremos a potencial ação dos EUA a um específico espaço geográfico".

Em outras palavras, exceto pelo item "milhares e milhares de soldados & coturnos em solo", a tal mesa[8] sobre a qual sempre se mantêm "todas as opções" já foi visivelmente arrastada para a Sala de Guerra no Levante, em Washington. 

É desenvolvimento importante para presidente que tanto se vangloria de ter-nos arrancado do Iraque (mesmo que a saída de 'lá' tenha sido arquitetada pelo governo Bush;[9] quando funcionários de Obama tentaram negociar a possibilidade de deixar soldados 'lá', foram impedidos pelo governo do Iraque). Paralelamente aos movimentos militares, o presidente e sua equipe de segurança nacional, refletindo através de algum espelho escuro a "agenda democrática" da era Bush, também já parecem ter pintado os dedinhos com tinta roxa.[10] Foram vistos pressionando políticos iranianos para derrubarem o primeiro-ministro Maliki e indicarem um governo de unidade - que guerreará a guerra que os EUA desejam. (Para aumentar o conteúdo farcical [de "farsa", é claro (NTs)] do momento, um dos nomes lembrados para a posição de Maliki, caso Maliki venha a ser 'regime-mudado', é Ahmed Chalabi,[11] queridinho dos funcionários de Bush e preferido DELES, para o mesmo posto.)

Mas não há como a intervenção dos EUA não ser vista como movimento de apoio aos xiitas num conjunto incipiente de guerras civis, como até o general aposentado e ex-diretor da CIA David Petraeus alertou semana passada.[12] De fato, nas pesquisas de opinião, os norte-americanos rejeitam decididamente qualquer tipo de intervenção militar,[13] tanto quanto qualquer movimento na era pós-11/9 só deve fazer lembrar lição única e simples: Não façam!

Mas Obama e seus principais funcionários evidentemente não conseguem não fazer. A maré montante de críticas já deve estar pré-ecoando, desde já, na cabeça deles - já antecipadas pelas vezes sem conta em que a imprensa-empresa dedica-se a entrevistar o senador John McCain e publica coorte sem fim de colunas com 'pareceres' de comentaristas,[14] do ex-vice-presidente Dick Cheney[15] a L.Paul Bremmer III (cujo último emprego conhecido foi "pró-cônsul")[16], e outros da multidão de 'especialistas' que inventaram o desastre chamado Iraque e para quem errar sobre o Iraque é feito que merece(ria) condecoração.

Estamos claramente nos estágios iniciais das apostas na intervenção. Os movimentos iniciais podem ser até ser saudados como auspiciosos,[17] mas todo o cuidado é pouco quanto aos efeitos desestabilizantes de longo prazo, em região já caótica. Washington delira que pode(ria) controlar situações assim tão altamente combustíveis. De fato, jamais as controlou no passado e tampouco controlará dessa vez, o que significa que há à frente horrores ainda não vistos. (E esperem só até que, num desses centros de operações conjuntas, ou onde for, o primeiro soldado iraquiano, como fizeram os soldados afegãos,[18] saque a arma e atire contra um daqueles "conselheiros" ocupantes.)

Só falta, agora, o toque final da versão Obama dessa "superampliação da missão". Falo do gesto-assinatura do governo Obama em seus conflitos pelo Oriente Médio Expandido (e, cada dia mais, também pela África). Se prestar atenção, você já consegue ouvir a música-tema da era-Obama, surgindo ao fundo: "Que entrem os drones!"

Importante é que, diga o que disser ou diga, o presidente Obama jamais pronuncia a palavra "petróleo". Ninguém jamais, nunca, fala de petróleo. Bush também não falou, quando invadiu e ocupou o Iraque. Se só se considera a 'informação' distribuída pelos veículos da imprensa-empresa, ninguém jamais sequer suspeitará que o Iraque flutua sobre o maior e mais acessível manancial de combustível fóssil que há no planeta! Não 'dá no jornal' nem 'dá na TV' - mas "petróleo" é o assunto que jamais, nem por um instante, sai da cabeça 'deles'.

Hoje, felizmente, o sociólogo Michael Schwartz, há muito tempo colaborador regular de TomDispatch, volta, depois de longa ausência, para nos fazer lembrar o único fato absolutamente inapagável, da 'questão iraquiana' do qual ninguém fala, mas que ninguém pode esquecer ou perder de vista, nem por um segundo.

 

Insurgência e guerra, num mar de petróleo
24/6/2014, Michael Schwartz, TomDispatch
http://www.tomdispatch.com/post/175860/tomgram%3A_michael_schwartz%2C_the_new_oil_wars_in_iraq/


Apresentação
Tom Engelhardt, TomDispatch
http://www.tomdispatch.com/

 

 
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