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Globalização ou Proteccionismo?

25.09.2004 | Fonte de informações:

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Se a globalização tem a ver com criar oportunidades iguais, distribuir a riqueza ou pelo menos criar as condições para a riqueza ser distribuída, então não passa duma quimera. Se a globalização tem a ver com reduzir a “linha do fundo”, tirar emprego de áreas onde existia e criar escravatura em zonas onde era desconhecida, mantendo os salários em baixa, negando o direito ao desenvolvimento, é isso que se vê hoje.

Então é isso a globalização. Um mecanismo bem forjado, protegido pelas suas instituições, mantendo os que têm mais ricos e os que não têm mais pobres. Um belo exemplo destas instituições é a Organização Mundial do Comércio, que supostamente cria os alicerces para livres e iguais condições comerciais para todos os jogadores no mercado internacional.

Livres? Como?

Quando os países mais ricos (que enriqueceram a custo de saquear os bens dos mais pobres) impõem tarifas de importação para negar acesso livre aos seus mercados, quando atribuem subsídios aos seus produtores para lhes dar uma vantagem desigual, para que possam colocar seus produtos no mercado a preços fictícios, onde está o mercado livre, onde estão as condições iguais?

E mais. Se alguém ousa negar o acesso ou intrusão nos seus mercados das instituições controladas por Washington, arrisca uma tentativa de golpe de estado (Venezuela) ou dum acto de chacina (Iraque).

A globalização, dizem, é uma inter-ligação de culturas numa diversidade maravilhosa de estímulos. O que se vê hoje é um mundo que quer ser multi-polar, mas que tem um único e teimoso polícia a tentar impor-se, tentando impor uma abordagem unipolar à gestão das crises, num mundo dividido cada vez mais por conflito e intolerância.

A globalização, neste modelo, trouxe a Nossa planeta (se não é já só dos norte-americanos) mais perto dum conflito de civilizações deste a segunda guerra mundial. A globalização, neste modelo, criou um espaço cada vez maior entre os que têm e os que não têm e a globalização, neste modelo, faz com que o acidente chamado “local de nascimento” conta, e muito, ditando as hipóteses do cidadão no futuro.

Se tem direito a ter professores na sala de aula, se tem direito a votar, se tem direito a ter água potável em casa, se tem direito a um computador, se tem direito a comer, se tem direito a viajar livremente, se tem direito a entrar num país por causa duma folha de papel, ou se será acusado e ser um intruso, ou uma prostituta, por causa dum carimbo. Globalização, qual quê?

A globalização neste modelo criou um mundo que obedece o princípio “quanto mais escura a pele, pior a pessoa”. Chegou, assim, ao ponto mais baixo possível na tabela da civilização humana.

Bonitas são as palavras e as promessas, cosméticas são os programas de apoio. Apesar da muita boa vontade de muita gente, falta sempre e sem qualquer excepção o financiamento adequado para os programas de apoio humanitário da ONU. Não surpreende porque o polícia mundial (cujas forças militares nem conseguem dominar uma mão-cheia de heróis da Resistência no Iraque) já desrespeitou esta Organização até ao ponto de a chamar uma “Liga das Nações”, culpando assim a ONU da incapacidade do organismo existente na altura da escalada antes da segunda guerra mundial.

Mas a verdade nua e crua é o seguinte: até 2050, mais do que 90% da população do mundo estará vivendo em Países Menos Desenvolvidos. A globalização neste modelo actual providencia um mundo inteiramente desequilibrado, onde uma parte substancial dos cidadãos não tem comida suficiente para colocar na mesa de jantar, onde o fornecimento de água potável não é um direito adquirido ao nascimento.

Assim, a globalização, neste modelo, cria umas ilhas de riqueza e um mar de populações totalmente dependentes de apoio estrangeiro humanitário ou económico. Este modelo de globalização não tem a ver com uma comunidade de irmãos a entre-ajudarem-se.

Este modelo de globalização tem a ver, sim, com uma colonização unilateral dos recursos do mundo, em nome da globalização.

Por isso é uma usurpação da palavra nobre, é um insulto à excelente ideia de formarmos duma vez para sempre uma comunidade de nações em base de igualdade, utilizando o debate, o diálogo, a diplomacia, a democracia como preceitos comuns. George W. Bush, o vaqueiro que recebe mensagens do seu Deus e do seu Dick (Cheney), conseguiu contrariar a vontade da comunidade internacional a esse respeito.

Porém, o mundo não é e nunca foi, unipolar e quem quisesse impor esta falsidade, pagou um preço alto. Os Romanos e gregos tinham experiências mais felizes porque conseguiram criar um multipolarismo a partir do unipolarismo. Tchingis Khan, Napoleon, Hitler e Bush são exemplos dos fracassos do unipolarismo que não conseguiu ultrapassar essa barreira.

Actualmente, temos cada vez mais nações que são incapazes de produzirem comida suficiente para se alimentarem. Nem estamos a falar de computadores, de câmaras digitais, de ligações de banda larga. Estamos a falar “sobrevivência”. A globalização neste modelo desceu a isso. Um fracasso.

Enquanto houver países dependentes em apoio alimentar, este modelo de globalização vai talhar a vitória dos falhados. Um país que tem o estatuto de nação soube defender-se e criar uma entidade geo-política única. Um país que não consegue alimentar a sua população levanta sérias suspeitas de que algo aconteceu de errado.

O errado era, e é, a intrusão dos que têm (por causa de terem saqueado os recursos dos que tinham mas já não têm). O errado é o modelo de globalização que obedece as regras mais proto-históricas de desenvolvimento: Colonização, Imperialismo. Criar dependência. “Eu pago a sua comida e a do seu povo se você passar o controlo do seu país para mim, mas pelo amor de Deus não digas nada a ninguém (lembras-te daquela noite com a Sharlene?)…olhe, tome aqui um envelope com três milhões de dólares”. “Obrigado, patrão”. “E votas para mim no Conselho de Segurança?” “Sim, senhor”.

A globalização é uma palavra bonita. Tem a ver com o sorriso do esquimó que caça a primeira foca, tem a ver com a concentração do rapaz índio no Amazonas que coloca sua mão no buraco da árvore para ver se está lá uma aranha, tem a ver com a moça angolana que aprende a fazer o funje pela primeira vez, tem a ver com o rapaz português que joga a Sueca com o amigo e ganha ao seu pai e seu tio, e que partilham estas experiências com alegria, com gáudio, com um grande sorriso, com os seus contactos por aí fora. A globalização é aquilo que os cidadãos globais querem fazer dela. Será que queremos ver um bando de assassinos e gatunos que se enriquecem a custo dos recursos dos outros? Ou será que queremos ver uma globalização que merece o estatuto da palavra, nomeadamente um mundo igualitário, onde o direito de ter, nada tem a ver com o acidente de nascimento?

Para isso temos de consciencializar-nos que os recursos do planeta são um bem global e temos de ajudar os irmãos que têm menos hoje, a ver se amanhã têm mais.

Isso é a globalização que a população do mundo quer. É tão bonito o sorriso humano. Por isso não vamos denegrir a palavra, vamos dar uma mais-valia ao conceito. E por isso, evidentemente, temos de escolher em quem votamos com mais cuidado.

Timothy BANCROFT-HINCHEY PRAVDA.Ru

 
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