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COMO FAZER INIMIGOS E DOMINAR O MUNDO

22.09.2003 | Fonte de informações:

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Muitos dos defensores da hegemonia estadounidense afirmam que é bom para o resto do mundo ser liderado pelos Estados Unidos porque, diferentemente de outras potências, os EUA são uma superpotência benigna que, ao invés de explorar e escravizar os demais países, leva-lhes a paz, a liberdade e a prosperidade. Esta é a imagem que o governo de George W. Bush quer passar, porque é a que justifica as ações militares de seu país sem o aval da comunidade internacional.

Longe de ser verdade, esta justificativa é uma mentira descarada: pois como já afirmei em outro artigo meu, os EUA semearam e apoiaram ditaduras repressoras e brutais em todos os continentes. O domínio dos Estados Unidos sobre o resto do mundo jamais poderia ser pacífico, por dois motivos -- o primeiro é bastante óbvio: é inaceitável que um único país, qualquer que seja, decida o que é bom ou mau para o resto do planeta, sem se importar com os interesses e opiniões destes; e o segundo é que, para sustentar e justificar seu poder sobre o resto do mundo, os EUA invariavelmente necessitam criar inimigos. Diferentemente do famoso livro norte-americano de auto-ajuda, que ensina "Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas", a política externa desse país aprendeu quão importante é possuir inimigos e inventar pretensas ameaças globais.

Depois do fim da segunda guerra mundial, os Estados Unidos emergem como o país mais poderoso do mundo: a maior marinha e força aérea, o único país dotado de armas nucleares, e com as economias européias arrasadas pela guerra, os norte-americanos concentram sozinhos metade de todas as riquezas do mundo. Diferentemente do final da primeira guerra mundial, quando os Estados Unidos se retiraram do panorama mundial e se recusaram a ter participação ativa em questões globais, desta vez o então presidente Harry Truman decidiu que seu país deveria ser uma potência global e ter papel preponderante em todas as questões políticas, econômicas e militares do mundo.

Mas com a derrota da Alemanha nazista, era preciso encontrar outra ameaça que justificasse a presença das forças norte-americanas no mundo, que convencesse seus eleitores e contribuintes que era absolutamente necessário manter tropas em outros países prontas para uma terceira guerra mundial, construir mais aviões bombardeiros de longo alcance e mais bombas atômicas. Era preciso criar um novo inimigo. O único país que na época podia fazer frente aos EUA era o outro grande vencedor da segunda guerra mundial, a União Soviética. A URSS era então um país arrasado por uma invasão brutal, perdeu 27 milhões de vidas, teve várias de suas cidades destruídas, suas indústrias e infraestrutura foram varridas do mapa, e desmobilizou quase todo seu exército com o final da guerra porque simplesmente não tinha condições econômicas de mantê-lo e necessitava de mão-de-obra para trabalhar na reconstrução.

A máquina de propaganda estadounidense mostrou-se notável: fez com que a maioria da população de seu país e das nações aliadas acreditasse que este país enfraquecido, embora vencedor, era uma ameaça mundial e que, depois de derrotada a Alemanha, não tardaria em lançar-se sobre o resto da Europa para impor o comunismo.

É bem conhecido que, desde a década de 30, a União Soviética abandonou toda pretensão de incentivar a revolução mundial e, contrariando os marxistas mais ortodoxos, decidiu construir o socialismo em um só país. Desde Stalin até Gorbachev, os soviéticos acreditaram que o socialismo suplantaria o capitalismo não através de revoluções ou conquistas armadas, mas pela sua superioridade econômica. Não é propósito deste artigo explicar o fracasso econômico soviético, mas apenas mostrar que, longe de pretender conquistar militarmente o mundo, a URSS não queria impor o socialismo a outros países além daqueles onde a revolução já havia triunfado (como China, Vietnã do Norte, Iugoslávia e, posteriormente, Cuba) ou aqueles que, após a derrota de Hitler, ficaram sob sua influência (Alemanha Oriental, Polônia, Tchecoslováquia, Hungria, Bulgária, Albânia e Romênia).

Os Estados Unidos conseguiram convencer grande parte do mundo acerca do "perigo vermelho", que a URSS era o "império do mal" e que, se não fosse contida e ameaçada, inevitavelmente se lançaria sobre o resto do mundo. A guerra fria, iniciada e mantida principalmente pelos Estados Unidos, foi a justificativa que este país inaugurou para manter sua presença política e militar no mundo, convencendo os contribuintes a aceitar que seu dinheiro fosse gasto na manutenção de imensas forças aquarteladas em vários países, e os cidadãos dos países aliados a aceitar a presença militar e a liderança norte-americanas.

O inesperado fim da União Soviética, em 1991, deixou os Estados Unidos perdidos: quem seria agora o grande inimigo, a ameaça que justificaria a existência de seu imenso poderio bélico? O presidente Bill Clinton (que governou de 1992 a 2000) bem que tentou construir uma nova ordem e superar o clima de guerra fria, reduzindo grandemente os gastos com as forças armadas. A volta dos republicanos ao poder, em 2001, com George W. Bush, e os ataques terroristas de setembro do mesmo ano, fizeram a política estadounidense regredir: se não há mais um país poderoso e agressivo capaz de ameaçar os Estados Unidos, existe o terrorismo internacional. E quem não está do lado dos EUA, como disse Bush com grande sinceridade, está contra eles.

O terrorismo foi a nova ameaça "made in USA" para justificar aos seus cidadãos e ao resto do mundo a necessidade imperativa da liderança norte-americana sobre o resto do mundo. Todos os interesses econômicos, estratégicos e políticos dos EUA podem ser agora mascarados sob o véu da "campanha de libertação para acabar com um regime tirânico que apóia o terrorismo internacional". O ataque ao Afeganistão, logo após os atentados terroristas sofridos pelos EUA, ainda tinha alguma justificativa, pois o Taleban era realmente um regime de um fanatismo assustador, e apoiava Osama bin Laden, terrorista notório desde a campanha soviética neste país, na década de 80 (embora então apoiado pelos EUA, seguindo a estranha lógica da guerra fria: "O inimigo de meu inimigo é meu amigo"). Mas convencer a opinião pública norte-americana de que o Iraque era uma ameaça foi uma outra conquista da propaganda dos EUA: como acreditar que um pequeno país de terceiro mundo, arrasado por duas guerras (contra o Irã, de 1980 a 1988, e a primeira guerra do Golfo, em 1991) e depauperado por 12 anos de embargo econômico mundial, poderia ter avançados programas de armas químicas, biológicas e nucleares, e mísseis capazes de lançar estas armas a qualquer lugar do mundo em 45 minutos? Exceto Tony Blair, primeiro-ministro britânico, e alguns países menores da Europa, ninguém levou a sério tais embustes.

Passando por cima da opinião pública mundial, Bush e seus poucos aliados invadiram o Iraque, e tiraram Saddam Hussein do poder com uma facilidade e rapidez que eles próprios não esperavam. Mas não acharam nenhuma arma química, biológica ou nuclear, nem mesmo evidência de que o Iraque estivesse trabalhando nelas. Agora Bush distorce o passado de maneira orwelliana: "A guerra contra o Iraque nunca foi por causa de armas de destruição em massa"; "Nunca afirmamos que o Iraque possuísse armas químicas, biológicas e nucleares"; "Nunca dissemos que Saddam Hussein mantivesse vínculos com a Al-Qaeda ou outras organizações terroristas". Enfim, só falta admitir, com toda honestidade: "Invadimos o Iraque porque queríamos seu petróleo e tê-lo sob nossa influência política, econômica e estratégica."

Como pode ser benigna uma potência que precisa de inimigos para manter sua imensa máquina de guerra, que não pode justificar seu poderio sem eles, e que, caso não os encontre, inventará algum para a opinião pública? Os Estados Unidos são uma das maiores ameaças mundiais, e para alcançar uma paz estável e duradoura, o resto do mundo precisa se unir, diplomática, política e economicamente, sem o uso da força militar (uma guerra entre um país forte e os EUA teria conseqüências apocalípticas, pois inevitavelmente envolveria armas nucleares), contra a hegemonia, o unilateralismo e o monopólio norte-americano. Um mundo multipolar, ao contrário do que pensam as principais figuras do governo Bush, é a melhor solução para a paz, a prosperidade e a igualdade entre todos os países. Carlo MOIANA Pravda.Ru MG Brasil

 
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