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Bolívia

22.03.2005 | Fonte de informações:

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De 6 ao 17 de março Carlos Mesa esteve derramando margaridas ao dizer ‘eu fico’ ou ‘não me fico’ na presidência de Bolívia. Ao final, decidiu seguir no cargo. Suas manobras, conquanto, fizeram-lhe parecer estável, pois permitiram o fim dos bloqueios e certa estabilização política. Março se iniciou como um mês quente no qual os sindicatos e a cidade do Alto (a quarta do país) iniciaram marchas e bloqueios de rotas demandando a expropriação da Aguas del Illimani (uma empresa privada francesa dona da água potável de La Paz e O Alto) e o que as multinacionais que explorem os hidrocarbonetos bolivianos (o principal recurso do país) abolicem 50% das regalías. Na véspera da segunda-feira, 7/03, quando os sindicatos camponeses decretaram o bloqueio à escala nacional, ele apresentou sua renúncia à consideração. Dois dias depois, na terça-feira, 8/03, decidiu retirá-la quando o parlamento e os principais partidos tradicionais decidiram assinar um pacto. Uma semana mais depois, na terça-feira, 15/03, voltou a dizer que demoraria 5 meses para convocar eleições parlamentares, constituintes e presidenciais. Depois que o parlamento aprovou uma lei de hidrocarbonetos (híbrida, que combina as propostas da direita e a esquerda) e que este recusou como inconstitucional a proposta de adiantar as eleições, Mesa decidiu assegurar que se manteria no cadeirão presidencial. Estas constantes oscilações podem dar a impressão que ele demonstrava insegurança ou imaturidade. No fundo é o reflexo da própria situação boliviana. Mesa chegou à presidência por acidente. No 6 de Agosto de 2002 ele assumiu a vice-presidencia, depois de Gonzalo Sánchez de Lozada, quem tinha conseguido menos do quarto dos votos válidos (em torno da oitava parte dos inscritos), mas quem recebeu a presidência devido ao fato de que os partidos restantes de centro e de direita lhe apoiáram em vez de cederem apoio ao sindicalista cocalero Evo Morales. Sánchez foi o homem que em Setembro de1985, criou o novo modelo econômico monetarista boliviano, seguindo a escola de Chicago. Com ele se iniciou o congelamento salarial, a demissão da maioria dos mineiros e operários fabris, além da privatização das empresas estatais (que chegaram a representar o 70% da economia). Em outubro de 2003 uma rebelião popular foi sufocada por Sánchez. Depois da morte de mais de 60 pessoas, seu governo se desaprumou e ele renunciou, passando a batuta ao seu vice. Mesa, que tinha chegado tão alto acompanhando ao arquiteto do neo-liberalismo boliviano, devia estabilizar o país procurando consertar com Morales, quem se proclamava o arqui-inimigo do dito modelo. Durante 17 meses a aliança entre Mesa e Morales conseguiu dissuadir mais de 800 conflitos. O primeiro se valia do segundo para conter o protesto social. O segundo conseguia algumas concessões bem como a possibilidade de manter um governo que evolua ao país, para que no ano de 2007 ele termine na presidência tendo mostrado aos inversionistas que ele poderia estabilizar Bolívia seguindo o caminho de Lula, Lagos e Tabaré. A dita aliança foi quebrada devido a pressões de ambos extremos. O empresariado de Santa Cruz exige ordem e garantias e utiliza o protesto popular autonomista como mecanismo de pressão. As multinacionais petroleiras batalham por melhores condições para investir. De outro lado, Morales estava perdendo peso nos sindicatos a favor de correntes mais radicais que chamavam a romper com Mesa e exigem a nacionalização do água potável de La Paz e do gás. Ante o conflito social Mesa teve duas alternativas. A primeira era reconstruir uma ‘megacoalizão’ de centro-direita para impor seus planos decretando como estados de emergência (tal como o fizeram todos seus predecessores nas últimas duas décadas: MNR, MIR, DNA, UCS e NFR). O risco de tal política é que Mesa perderia muito de sua popularidade (ele se projeta com o aval de 2 em cada 3 bolivianos), poderia sentar-se nas bayonetas e cair prisioneiros dos partidos tradicionais que ele questiona. Enquanto, a sua vez, poderia conseguir jogar lenha à fogueira e acabar produzindo uma reação popular como a que depôs ao seu antecessor. A segunda saída era procurar que os bloqueios se suspendessem sem gastar bala, mas utilizando uma série de manobras e chantagens. Ao ameaçar retirar-se colocou o Movimento Ao Socialismo (MAS) numa difícil situação. Alguns de seus antigos parlamentares tinham apoiado o ‘Bloco Patriótico’ (oficialismo) sob o argumento de que a esquerda muitas vezes tombou governos ‘progressivos’ para acabar fazendo com que estes sejam substituídos por outros mais ‘retrógrados’. O MAS acreditava que se Mesa caísse, quem o substituiria seria alguém pior. Morales chegou a dizer que se o presidente do senado chegasse à presidência não duraria nem 24 horas, pois os sindicatos lhe acusam de ‘narco’ e de ter apoiado a repressão de Sánchez. Morales calculava que se iam a eleições prematuras não as ganhariam pois teriam alienado as classes médias e dos empresários ‘progressistas’ que procuravam ganhar. De outro lado, nenhum dos partidos da centro-direita se sentem fortes. Todos eles estão em crise e sem uma figura presidencial carismática. Novas eleições não lhes dariam mais votos e quem pudesse substituir a Mesa (o presidente do Senado ou Deputados) não seriam populares, nem trariam uma coligação estável. A direita acusa a Morales de revolucionário, mas ele é sobretudo um evolucionista quem não quer um levante, senão manter a ordem jurídica. Por isso é que ele não quis eleições antecipadas e para também não desencadear um disturbio social. Não quis aproveitar o esvaziamento para lançar uma ‘tomada do poder a la Lenine’. Morales quis manter a Mesa como a melhor forma de fazer com que tenha um presidente que aceite algumas de suas demandas e lhe prepare o terreno para ser ele o novo presidente. A centro-direita igualmente lhe prefere a ele ante a Morales ou o caos. As FFAA não podem dar um golpe devido ao seu descrédito e à conjuntura internacional. Aliado ao temor de sua saída é que Mesa conseguiu dissuadir os bloqueios. E seguirá sendo o presidente que governa sem partidos e sem apoio dos outros poderes, mas cuja base é sua popularidade e o fato de estar constantemente equilibrando-se entre as pressões de um ou outro lado. Este cenário poderia mudar. Mesa repetiu várias das táticas de Siles Suazo (presidente em 1956-60 e 1982-85). Siles usou uma greve de fome contra os sindicatos para desbaratar ondas de greves e depois partir à Central Obreira Boliviana. Os sindicatos sustentam terem dado a Mesa um quarto intermédio, mas também o presidente poderia acabar mudando suas táticas para fortalecer-se e ver o momento mais oportuno para lançar uma contra-ofensiva ao movimento sindical, acostumado a fazer bloqueios e greves radicais. Isaac Bigio Analista internacional www.bigio.org

 
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