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Por que os EUA tiveram de ir conversar com a Rússia

21.05.2015 | Fonte de informações:

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Aí, uma mulher entra na sala e... Várias piadas começam assim. No nosso caso, a autocoroada Rainha do Nulandistão Victoria "F*da-se a UE" entra na sala em Moscou, para falar com os vice-ministros de Relações Exteriores da Rússia Sergei Ryabkov e Grigory Karasin.

Piada? Oh, não; aconteceu bem assim. Por quê?


Comecemos com as reações oficiais. Karasin qualificou as conversações de "frutíferas", mas disse que Moscou não aprova que Washington seja integrada às negociações no formato-Normandia (Rússia, Ucrânia, Alemanha e França) sobre a Ucrânia. Não, depois da incansável demonização não só do Kremlin, mas de toda a Rússia, desde o golpe de Maidan.

Ryabkov, por sua vez, fez saber que o estado atual das relações EUA-Rússia persiste... corrosivo.

É crucial não esquecer que a Rainha do Nulandistão só foi a Moscou depois de se reunir com o vassalo-de-carteirinha de Washington, presidente Poroshenko, e o primeiro-ministro que ela mesma selecionou, o tal "Yats"; isso tudo, antes de acompanhar o secretário de Estado John Kerry na visita em trajes de gala que o Departamento de Estado fez a Sochi dia 12 de maio.

O acordo Minsk-2 - produto genuíno das negociações pelo formato Normandia - envolveu diretamente Berlin e Paris, as quais afinal viram pintada no muro a realpolitik e foram obrigadas a divergir da abordagem antagonista monomaníaca de Washington. 

Dentro da União Europeia, permanece o caos em tudo que tenha a ver com a questão das sanções. Os países Bálticos e a Polônia repisam a linha histérica de "os russos estão chegando" da Guerra Fria 2.0, enquanto os adultos estão representados em Bruxelas por Itália, Grécia, Espanha e Hungria.

Assim sendo, Alemanha e França já têm problemas suficientes para manter em ordem a tumultuada casa da União Europeia. Ao mesmo tempo, Berlin e Paris sabem que nada que o governo de Obama autodescrito como "Não Faça Merda Coisa Estúpida" invente levará Moscou a abandonar as suas muito precisas linhas vermelhas.

Atenção àquelas linhas vermelhas

É crucialmente importante observar que a Crimeia já não parece estar sobre a mesa: é fato consumado. Mas há aqueles "instrutores militares" norte-americanos que foram despachados para o oeste da Ucrânia só para uma "missão de seis meses" (anotação histórica e lembrete: a guerra do Vietnã começou exatamente assim). Para Moscou, qualquer prorrogação dessa "missão" é linha vermelha absoluta. 

E há também a linha vermelha máxima: a expansão da OTAN a qual permanece inabalada nos Bálticos, na Polônia, na Romênia e na Bulgária. E não ficará por aí; a expansão é parte da obsessão da OTAN com firmar uma nova Cortina de Ferro, dos Bálticos ao Mar Negro. 

Assim sendo, além das conversações, o próximo passo é ver se o governo Obama consegue realmente suspender o processo de armar Kiev.

A Ucrânia, para todos os objetivos práticos, é estado falhado massivamente endividado convertido já em colônia do FMI. A União Europeia não quer a Ucrânia - mas a OTAN quer. Para Moscou, o show de horrores só terá fim quando a Ucrânia, com ou sem as repúblicas populares de Donetsk e Lugansk, tornar-se neutra, sem ser parte da ameaça estratégica que é a OTAN.  

Como examinei em "EUA acordam para a Nova Ordem (da Seda) Mundial", a possibilidade de que a guinada estratégica do governo Obama, que parte para conversar, em vez de amaldiçoar/demonizar/ameaçar, pode significar que os verdadeiros Masters of the Universe finalmente teriam compreendido que há boa probabilidade de a emergente Nova Ordem (da Seda) Mundial deixá-los para trás.

O presidente Putin percebeu que estava em rota de grande confronto com os EUA já desde o desmembramento da Iugoslávia, da aventura na Geórgia e ante o avanço sem fim da OTAN, sempre violando as promessas ocas nas quais Gorbachev acreditou.

A diferença é que agora - e o Pentágono sabe disso - Moscou acumulou cerca de 10 mil armas nucleares táticas. Na eventualidade - apocalíptica - de uma guerra entre Rússia e OTAN, sonho molhado de muitos neoconservadores nos EUA, essas armas nucleares táticas poriam fora de combate todas as pistas de pouso e decolagem de aeronaves comerciais e militares de todos os países da OTAN, em vinte minutos. O que deixaria a OTAN sem pistas para operações aéreas combinadas.

Além do mais, há também o sistema s-500 de mísseis de defesa, que pode proteger a Rússia contra qualquer forma de retaliação com mísseis nucleares enviados pelo Pentágono/OTAN. Nenhuma arma ofensiva dos EUA, incluídos os bombardeiros Stealth, pode penetrar o escudo do S-500. E o Pentágono também sabe disso.

Estratégia? Que estratégia?

A estratégia de tipo Dr. Zbig "Grande Tabuleiro de Xadrez" Brzezinski sempre foi atrair a Rússia para outro Afeganistão na Ucrânia, o que levaria ao colapso da economia russa; e o grande prêmio seria a tomada, pelo ocidente, de todo e petróleo e todo o gás natural da Rússia, e, por extensão, da Ásia Central. Os ucranianos seriam bucha de canhão, como foram os afegãos desde a Jihad árabe-afegã dos anos 1980s.

Mas o governo Obama confiou demais nas próprias cartas, e a realpolitik está mostrando que a parceria estratégica Rússia-China só faz aprofundar-se e firmar-se cada vez mais, por toda a massa de terra eurasiana: a Eurásia, como empório comercial massivo em organização, de Pequim a Berlim, ou de Xangai a São Petersburgo e além, rumo a Rotterdam e Duisburg.

Sem a obsessão excepcionalista de algumas facções ativas dentro do Departamento de Estado, nenhum dos elementos dessa Guerra Fria 2.0 estaria operante, porque a Rússia é aliado natural dos EUA em vários fronts. Só isso basta para que se veja em que estado anda o "pensamento estratégico" do governo dos EUA.

Moscou, contudo, não se deixará apanhar desprevenida na atual ofensiva de mal disfarçada tentativa de seduzir, porque a inteligência russa sabe que tudo isso pode estar apenas encobrindo uma tática à moda do "Grande Tabuleiro de Xadrez" em duas etapas, enquanto o ocidente se reorganiza para ataque posterior, massivo.

Na verdade, nada de fato mudou, exceto o fato de que a doutrina original dissuasiva da era da Guerra Fria, de "Destruição Mutuamente Garantida, DeMG [orig.  MAD, Mutually Assured Destruction], foi superada.

Hoje, os EUA ainda tem capacidade para Rápido Ataque Global, RAG [orig. PGS, Prompt Global Strike]. A Ucrânia não passa de detalhe. O jogo só mudará realmente, de fato, quando a Rússia tiver vedado todo o próprio território, com os sistemas S-500s à prova de RAG/PGS. Acontecerá antes do que se pensa. E é por isso que os verdadeiros Masters of the Universe - através de seus emissários - sentiram-se forçados a sentar para conversar. ****

19/5/2015, Pepe Escobar, Sputnik News
http://sputniknews.com/columnists/20150519/1022322068.html#ixzz3ac3S7bNF

 

 
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