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Isto é um crime monstruoso

21.04.2010 | Fonte de informações:

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Editorial de Juan Gossaín em RCN Rádio, 16 de abril de 2010

Confesso que não termino de sair da minha perplexidade e meu espanto a cada nova revelação que a investigação, agora nas mãos da Fiscalia Geral, faz sobre o tema que o povo colombiano conhece como chuzadas (“furadas”), o tema dos grampos telefônicos do DAS (Departamento Administrativo de Segurança), e que na verdade não é mais do que um ato de espionagem e violação da privacidade das pessoas. Não saio do meu espanto!

A cada dia o assunto é pior, mais nojento e mais grave. Meu admirado companheiro Antonio José Caballero, com sua incansável ação de jornalista conseguiu cópia dos documentos que as autoridades da Fiscalia encontraram em buscas nos escritórios do DAS, especialmente onde estavam os equipamentos de interceptação, de espionagem. Os documentos que Caballero obteve são monstruosos. Quem ordenou, estimulou, patrocinou, calou ou encobriu, é o que a justiça tenta esclarecer.

Os documentos falam por si só. Terrível e dolorosa ironia que na parte superior esquerda de cada folha obtida nas buscas, aparece o escudo da Colômbia com a legenda “Liberdade e ordem”. Seria para rir, mas essas coisas dão vontade de chorar. “Liberdade e ordem”, imagina, “Liberdade”, sobretudo.

Vou me permitir ler alguns desses documentos textualmente, porque falam por si só. “Operações: Amazonas, Transmilenio, Bahía: Estratégia: desprestígio nos meios de comunicação, enquetes, chat. Ruas: distribuição de panfletos, grafites, cartazes, livros. Criação de páginas web, comunicados, denúncias, montagens”. Depois diz: “Sabotagem: terrorismo, explosivo, incendiário, serviço público, tecnológico. Pressão: ameaças e chantagem.” “Desinformar a população que se encontra a favor dos detratores do governo. Gerar divisão no interior dos movimentos de oposição. Impedir a materialização de cenários convocados pela oposição. Transbordo ideológico”.

Mais documentos: Junho de 2005. Amazonas – nome de uma das operações –. Objetivo geral: promover ações em benefício do Estado para as eleições de 2006. Alvos: partidos políticos opositores ao Estado: Frente Social e Política, Carlos Gaviria Díaz: gerar vínculos com FARC. Partido Liberal Colombiano, Piedad Córdoba: gerar vínculos com as Autodefesas Unidas da Colômbia. Horacio Serpa Uribe: gerar vínculos com o ELN. Polo Democrático Independente, Gustavo Petro: gerar vínculos com as FARC. Antonio Navarro: gerar vínculos com o M-19 e o narcotráfico. Wilson Borja: gerar vínculos com infidelidade sentimental. Samuel Moreno: demonstrar relação com estelionatos financeiros.

Depois a outra operação, Transmilenio: Objetivo geral: neutralizar as ações desestabilizadoras das ONGs na Colômbia e o mundo. Objetivo específico: estabelecer vínculo com organizações terroristas buscando processo judicial. Estratégias: sabotagem e pressão. Ação: serviços públicos, caminhões de distribuição, ameaças, guerra jurídica. Operação Halloween. Objetivo: conscientizar a população sobre a realidade da ideologia comunista. Estratégias: desprestígio. Ação: publicação de livro com 10.000 exemplares. Projeções: internet, 4 mil exemplares, criação de página web. Operação Arauca: Objetivo: estabelecer vínculos entre C.K. Jar e ELN. Estratégia: sabotagem. Ação: intercâmbio de mensagem com chefe do ELN, que será encontrado em busca (planta de falsos documentos).

... Seguem mais documentos

E o último dos documentos obtidos diz: “Operação estrangeiros. Objetivos: neutralizar a operação de cidadãos estrangeiros que atentam contra a segurança do Estado. Estratégias: investigações operativas, desprestígio e pressão. Ação: deportação, comunicados e denúncias”. Isto é uma mostra das 166 páginas apreendidas pela Fiscalia nas buscas no DAS.

Minhas opiniões comprometem a mim e quero dizer o seguinte: isto não é “furada”, isto é a mais horrorosa e nojenta espionagem do mundo, com atentados terroristas, como eles dizem, inclusive atacando caminhões que distribuem livros, com desprestígio das pessoas, com ataques a suas famílias. Isso não são “furadas”, senhores, é muitíssimo mais grave que isso. Isto é um plano de um organismo do Estado para acabar com o país, é apenas isso o que ai está. Quem disse ao DAS, que governo e Estado são a mesma coisa.

Por exemplo, ai diz: “Estabelecer vínculos com delinquentes de parte dos opositores do Estado”. Não. Em uma democracia as pessoas têm direito a se opor ao governo, seja lá qual for o governo. Quem disse ao DAS que há delito de opinião ou delito de dissentir do governo. Quem disse que a gente pode ir ao colégio das crianças a perseguir os filhos dos opositores. Quem disse que a gente pode ir dormir neste país e não amanhecer na sua cama porque à meia noite sem processo, sem justiça, sem provas, sem ordem judicial, aparecem para prender você na sua casa. Quem disse isso.

Estamos pedindo à Fiscalia, à Corte Suprema e a todo o sistema judicial, não somente que nos digam quem fez isso, quem ordenou fazer isso, quem aprovou fazer isso, quem sabendo que o DAS estava fazendo isso se tornou encobridor disso e não denunciou às autoridades. Não somente pedimos, mas exigimos.

Os colombianos temos direito a saber quem converteu o país em um Estado de policiais e terroristas de Estado, quem tentou converter isto em uma nação de espiões, quem foi que concebeu o macabro plano de converter opositores reais ou imaginários como se fossem delinquentes, quem está por trás disso. Três detetives do DAS? Não me faça rir, homem.

Queremos e necessitamos e exigimos que isto chegue até suas últimas consequencias, caia quem cair. Vejam, o câncer não se cura com aspirina, diz o povo, isto precisa é de uma alta cirurgia, isto não se cura com analgésicos. Queremos saber se o DAS é uma instituição respeitável do Estado ou uma cova de bandidos. Isto é feito apenas por bandidos, perseguir aos demais, por bombas para fazer crer que foi a oposição, como eles a chamam, perseguir adversários, tentar manipular as eleições, como está nos documentos do DAS.

Eu não sei se o país tenha, como eu, a indignação que estou sentindo, mas como se estivesse clamando no deserto peço, exijo, como cidadão colombiano, porque é meu direito, que me digam quem fez isso. Quem fez, quem planejou, quem concebeu, quem escreveu, quem efetivou, quem aprovou, qual funcionário do Estado, quem quer que seja, não denunciou ou não fez nada por impedir. Isso queremos saber.

Repito com São João Evangelista quando ele tinha apenas 24 anos: “Conhecer a verdade, porque apenas a verdade nos fará livres”.



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Outra Colômbia é possível!!

 
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