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A Semana Revista

16.10.2004 | Fonte de informações:

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SOCIEDADE QUE TEM A MANIA DAS ETIQUETAS

A globalização será um mito até que consigamos parar de inventar etiquetas para rotular as pessoas e colá-las na testa, separando os que têm, dos que nunca terão

Frases como a Comunidade Mundial, a Comunidade Internacional, a Comunidade das Nações, as Nações Unidas, a Organização Mundial de Comércio, Práticas de Comércio Livre, soam bem mas não passam de tretas no mundo de hoje, que de global e internacional não tem nada.

Quando entrei no consultório da dentista ontem, fui confrontado pela secretária armada com um formulário. “É casado?” foi uma das perguntas. Bem, se fosse nos anos sessenta no Reino Unido, a moça teria tido uma etiqueta com “Miss” (solteira) ou Mrs. (Casada) no colar, juntamente com o nome de solteira ou do marido, para ajudar-me a decidir como iria responder. Hoje em dia, ela não tinha etiqueta nenhuma e foi ela que tentava rotular-me com a classificação.

“O quê é que a senhora entende por casado? Será casado na igreja, e neste caso, qual a igreja e senão, viver em união de facto conta para tratamento dental ou não, e de qualquer forma o quê é que a senhora tem a ver com isso?”

Foi talvez uma resposta dura demais mas a pergunta no formulário a mereceu. Se eu tivesse dito “Não”, teria sido rotulado de homossexual? E daí? Mesmo que fosse, o quê é que a dentista tem a ver com isso? Para ver se vou espalhar AIDS pelo consultório fora? Vivemos numa sociedade que pensa assim:

“Quantos anos é que ela tem? 46? Ela tem crianças? Não? Por quê? Qual é o problema com ela? É casada? Não? Ai, então, deve ser lésbica, não?” São estas as frases não ditas mas pensadas na sociedade da etiqueta quando apresentam aquele formulário.

O Príncipe entre os formulários é o documento chamado passaporte, que rotula você durante toda a vida desde o momento do nascimento até ao dia da sua morte. Dita todo, se você tem o direito, ao nascer, a estudar, a comer todos os dias, a ter água potável, ou se tem de andar 20 kilómetros para ir buscá-la.

Dita se você é livre para viajar, dita se você é livre para trabalhar, casar, ter crianças, receber subsídios sociais, se tem o direito de viver em determinada área, ou se vai ser corrido e escorraçado na fronteira só porque não tem os documentos certos.

Mesmo na fronteira, vai ser rotulado. Vai passar por “nacionais” ou “estrangeiros”. Na maioria dos casos, os nacionais passam facilmente por um controlo de passaportes, todos a sorrir e a olharem de lado para os 579 coitados que têm os passaportes diferentes, com um funcionário a gozar com eles, com 6 outros postos de recepção vazios, o que vai ditar que têm de passar por filas intermináveis ou até em certos casos de serem mal tratados pelas autoridades do país em que querem entrar.

Vejamos no caso de Portugal, onde uma pessoa familiar brasileira foi chamada de “puta” no aeroporto de Portela quando tentou passar uma semana cá em Lisboa a ver a irmã. Como ela, haverá talvez muitas mais.

O documento é uma etiqueta. Dita tudo. Se você teve a sorte de ter nascido num lado da fronteira, terá o direito a todos os benefícios que pode imaginar. Se nasceu porém a dez metros de distância, no outro lado, vai ser tratado como um leproso dum estado paria. Só porque tem o documento errado.

Se nasceu na África ou na América Latina, terá de competir contra subsídios concedidos por governos ocidentais para seus produtores. Se nasceu na África ou na América latina, terá de competir contra tarifas levadas contra seus bens pelos países que proclamam as virtudes da Organização Mundial do Comércio, que prega práticas de Comércio Livre.

Comércio Livre? Com subsídios e tarifas? Onde está a liberdade de concorrência?

Então não vamos falar de globalização e de princípios de igualdade enquanto vivemos num mundo que rotula as pessoas baseado no acidente do sítio de nascimento, e depois controla tudo desde a produção até à linha de fornecimento até ao utente final, sempre protegendo o que tem e penalizando o que nunca terá.

TODA A VERDADE NA HAIA

Apesar das tentativas de silenciar Slobodan Milosevic, seu “julgamento” está a providenciar uma fonte de informações interessantes sobre o que realmente aconteceu nos Balcãs

A Slobodan Milosevic, ex-Presidente da Jugoslávia, foi inexplicavelmente negado o direito de continuar a se defender.

A Slobodan Milosevic, ex-Presidente da Jugoslávia, foi inexplicavelmente negado o direito de continuar a se defender. Foi-lhe imposto um advogado britânico, chamado Steven Kay, que conduz a sua defesa sem qualquer informação do “réu”, nem da sua equipa.

Dos 97 testemunhos que ele contactou, 92 se recusaram a aparecer na Haia se Sr. Milosevic não pode defender-se, de acordo com Zdenko Tomanovic, o conselheiro legal principal do ex-Presidente.

Contudo, um testemunho que concordou em aparecer perante o “tribunal”, deixa OTAN e seu mestre em Washington numa posição extremamente incómoda.

O jornalista alemão, o ex-Major do exército Franz Josef Hutsch, estava em Kosovo entre Setembro de 1998 e Dezembro de 1999. Ele se descreve como “um repórter dentro do KLA” (Kosovo Liberation Army, Exército de Libertação de Kosovo, ou Ushtria Çlirimtare e Kosoves, UÇK).

Franz Josef Hutsch afirma que o clima que ele encontrou na província quando chegou foi “tenso mas não violento” e que a violência que existia foi causada pela UÇK, não os Sérvios. Os Albaneses da UÇK, afirma Hutsch, utilizaram tácticas tipo “atacar e fugir” contra as patrulhas sérvias, e tentavam provocar reacções de ira, “reacções excessivas” da parte das autoridades, muitas vezes encenando os eventos, fazendo que civis estivessem no sítio errado na altura errada, pouco antes dos jornalistas aparecerem.

Acrescentou o testemunho que os albaneses tentavam enganar os Sérvios para que atirassem contra civis, que eram utilizados e abusados para satisfazer os fins da UÇK, sendo esforçados a enfrentar condições climatéricas duras para aparecerem a tremer de frio e com aspecto de miséria perante as câmeras, ou então sendo colocados em áreas de combate para aumentar os danos colaterais.

Os albaneses financiavam as suas operações através do tráfico de droga e da prostituição – as drogas e as mulheres, normalmente as moças albanesas mais bonitas tiradas das suas famílias, seriam cambiados por armas na fronteira.

Quanto aos oficiais, Hutsch afirma que entre 80 a 100 oficiais Mujaheddin Árabes trabalhavam com a UÇK e que todas as unidades foram comandadas por um destes oficiais Mujaheddin, que receberam “vastas somas” de dinheiro da firma MPRI, que treinou estes elementos na Turquia.

E a nacionalidade da firma MPRI? Norte-americana, é claro.

MOÇAMBIQUE DESENVOLVE VACINA CONTRA PALUDISMO

Testes clínicos revelam eficácia

O Centro de Pesquisa de Manhica, Maputo, revelou hoje que testes no produto RTS/AS02A, uma vacina contra o paludismo (malária) mostraram resultados positivos, sendo eficaz e seguro para administrar a humanos.

O Centro de Pesquisa de Manhica, Maputo, revelou hoje que testes no produto RTS/AS02A, uma vacina contra o paludismo (malária) mostraram resultados positivos, sendo eficaz e seguro para administrar a humanos.

Assim o flagelo de Moçambique e de vários países na África poderá ter os dias contados. Em Moçambique cerca de 40% das camas nas unidades pediátricas são ocupadas por doentes com malária, enquanto entre 40 a 60% dos doentes em todas as unidades de saúde padecem desta doença. O potencial é enorme.

O continente africano gaste uns 12 bilhões de USD por ano em programas de prevenção contra a malária, que mata entre um e três milhões de pessoas todos os anos.

Os resultados dos testes foram revelados ontem, 14 de Outubro, numa conferência de imprensa pelo Ministro de Saúde de Moçambique, Francisco Songane.

Os testes foram feitos em 2.022 crianças entre 1 e 4 anos e mostraram uma eficácia de 30% sobre as crianças com casos de malária, com sintomas, uma eficácia de 45% em crianças com casos sem sintomas e uma eficácia de 58% em casos de malária graves.

Os testes demonstram que o produto protege as crianças contra a doença por seis meses, na maioria dos casos.

GlaxoSmithKline e MVI financiaram os testes, que foram aprovados pelo Ministério de Saúde de Moçambique. O produto agora tem de entrar no processo de registo para ser utilizado como vacina internacionalmente.

PORTUGAL 7 RÚSSIA 1

Desaire, sim. Desastre, não

Ninguém pode fingir que o resultado foi bom, porque não foi…mas vamos analisar de cabeça fria o que aconteceu no Estádio José Alvalade em Lisboa e tirar as nossas conclusões. Não é assim tão grave quanto isso.

Ninguém pode fingir que o resultado foi bom, porque não foi…mas vamos analisar de cabeça fria o que aconteceu no Estádio José Alvalade em Lisboa e tirar as nossas conclusões. Não é assim tão grave quanto isso.

De facto, os pupilos de Georgy Yartsev sofreram uma derrota histórica e o futebol da Rússia foi humilhado com este resultado – mas não pelo jogo em si. Quem conhece o futebol sabe muito bem que o resultado não reflecte necessariamente o que acontece no campo.

Primeiro de tudo, não houve uma diferença de seis golos entre a equipa portuguesa e a equipa russa. Também, comparando com o jogo durante o Euro 2004, que Portugal ganhou por 2-0 com a ajuda duma arbitragem péssima, Portugal não melhorou a produção em campo por três vezes e Rússia não foi três vezes pior. O que aconteceu foi que Portugal desfrutou das suas hipóteses de golo sete vezes e a Rússia, só uma vez. No futebol, uma equipa pode jogar melhor durante todo o jogo, criar 20 hipóteses de golo, não marcar nenhum e o adversário, se marcar as três hipóteses que teve, ganha por 3-0. Mas não é três vezes melhor.

Em segundo lugar, é um facto que a equipa russa conteve a equipa portuguesa durante os primeiros 25 minutos de cada parte do jogo, sofrendo 3 golos nos últimos 20 minutos da primeira parte e mais 4 no mesmo período da segunda. Por isso, tiramos a conclusão que durante uma hora do jogo, Rússia e Portugal jogaram em pé de igualdade.

Terceiro, o resultado em si não é assim tão dramático como pareceu à primeira vista, em termos da campanha global, visto que o objectivo não foi ganhar em Lisboa mas sim, qualificar para a fase final da competição FIFA 2006 na Alemanha. Duas equipas vão-se qualificar deste grupo (e até o terceiro tem boa hipótese se marcar muitos pontos e golos), e porque Portugal é favorito a ganhar o grupo, nesta altura perder duas vezes com Portugal não constitui problema algum para a Rússia.

Em princípio, a Rússia pode e deve vencer facilmente e por muitos golos a oposição fraca das outras equipas no grupo (Estónia, Letónia, Liechtenstein, Luxemburgo e Eslováquia), com um só jogo difícil de ganhar, em Bratislava. Não é assim uma tarefa tão impossível.

Em quarto lugar, de vez em quando, levar uma boa tareia até serve de exemplo para os jogadores e para a equipa técnica. Tirando as conclusões do jogo de quarta-feira, há que apontar várias realidades.

1. A equipa russa está cansada porque ao contrário do resto da Europa, não teve o período de descanso no verão – vai descansar no Inverno. As lesões começam a pesar muito no grupo e é difícil encontrar um onze “modelo”;

2. Isso, porém, não é desculpa para um país com tantos jogadores federados e com a população que a Rússia tem. A razão pelo resultado tão avultado é muito simples de corrigir – deu-se muito espaço à equipa portuguesa na média distância. Se o problema de Portugal até quarta-feira tinha sido converter chances em golos, vingaram-se contra a Rússia.

Basicamente, Portugal tem jogadores que podem desestabilizar uma equipa e forjar um resultado dum momento para o outro. Muitas equipas têm um ou dois jogadores que têm essas qualidades; Portugal tem vários. Deco, por exemplo, consegue passar uma bola por um espaço mínimo, quase por magia, e consegue desferir um remate fortíssimo dum ângulo quase impossível.

Cristiano Ronaldo é um pesadelo para qualquer defesa – seus pés foram já descritos como os mais rápidos de sempre na troca da bola. Semeia o pânico num organismo defensivo, criando enormes espaços para os jogadores do meio-campo ocuparem e atacarem a baliza. Deco e Ronaldo são dois exemplos num universo de seis ou sete.

O meio-campo de Portugal serve como força de ataque, porque todos os jogadores sabem rematar de pé ou de cabeça na meia distância (coisa que Scolari trouxe para Portugal, transformando uma equipa que fazia tudo menos finalizar numa equipa que afinal perdeu o medo patológico de marcar).

3. O problema não é fazer o erro – é perceber o erro e alterar a situação para que não seja repetido. Neste caso, Georgy Yartsev se viu no pior pesadelo para um treinador de futebol: seu plano de jogo (“game plan” na gíria de futebol) contava com uma repetição do jogo durante o Euro 2004, o que seria lógico de esperar.

No entanto, na segunda parte da primeira metade do jogo, viu que o jogo não era o mesmo e não teve tempo para rectificar. No entanto, ele não pode ficar completamente intocável na atribuição de críticas.

Qualquer equipa neste nível de futebol deve ser treinado duma maneira mais flexível, que permite grandes alterações durante o jogo para contrariar tendências que são criados pelo adversário. Neste caso, com os jogadores portugueses em dia sim, a formação adequada teria sido o clássico W M, com dois defesas de raiz, dois atacantes, e seis no meio-campo, fechando hermeticamente a área frente ao golo (oito defesas) e expandindo no ataque (oito atacantes), assim privando os portugueses de tanto espaço e facilidade de rematar e criando um ambiente de receio no adversário (se avançasse demasiado, seria castigado).

4. “Nós não temos desculpas. A motivação de vários jogadores foi demasiado baixa – talvez alguns não queiram trabalhar comigo. Peço desculpa por esse pesadelo”. Foi assim que Yartsev encarou o jogo, depois de ter abandonado o campo.

Por muito desagradável que fosse o espectáculo, o capitão fica com o navio até que se afunda. No entanto, o “mea culpa” de Yartsev foi um gesto nobre mas não é só ele que tem a culpa.

Parece que depois do primeiro golo, os jogadores encolheram os ombros, sem dúvida lembrando do jogo durante o EURO, quando a escandalosa expulsão de Sergei Ovchinnikov desestabilizou a equipa.

Os jogadores não são pagos tanto dinheiro por desistirem, especialmente quando estão usando as cores do seu país. Talvez haja outros que queiram vestir a camisola e correr, intervir, e não olhar para o adversário trocar a bola. Talvez haja outros que sabem passar uma bola para outro jogador…com salários destes, deve haver muita gente que quer aprender, pelo menos.

Assim, há muitas razões mas não há desculpas para um resultado tão avultado. O que interessa agora é jogar futebol, porque a equipa russa tem elementos com grande capacidade e habilidade, interessa rectificar o que está mal, dando mais possibilidades de jogo flexível à equipa e chegar à Alemanha, onde esta equipa russa tem todas as capacidades de criar sensação.

Aconteceu o que aconteceu, há muito trabalho para a frente. Mãos à obra, e ganhem aquela Taça, que têm qualidades para isso!!

Timothy BANCROFT-HINCHEY PRAVDA.Ru

 
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