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O atoleiro iraquiano

16.01.2005 | Fonte de informações:

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No Iraque, atualmente, há regiões ou cidades importantes controladas pela resistência às tropas de ocupação? Achcar - Sim, com certeza, há cidades como Faluja e bairros como os controlados pelos apoiadores de Moqtada Al Sadr, em Bagdá, que, pode-se dizer, são zonas que escapam ao controle do grupo de ocupação e dos agentes locais deste grupo de ocupação. Tratam-se, portanto, de bairros ou mesmo de cidades. Mas estas zonas não podem ser confundidas com áreas liberadas, como acontece em guerras de guerrilha numa região rural; são simplesmente cidades ou bairros cercados pelas tropas de ocupação, e que as tropas de ocupação não reprimem inteiramente, pois isto significaria um número muito elevado de mortos. Portanto, não é por fraqueza militar que os Estados Unidos não destroem essas regiões, mas porque o golpe político da conquista seria muito elevado; o custo humano, em vidas humanas, seria muito elevado.

Qual foi a negociação política entre Al-Sadr e os Estados Unidos?

Achcar - O movimento de Moqtada Al Sadr aparece hoje no Iraque como o movimento legal ou, pode-se dizer, como o movimento não clandestino mais radicalmente em oposição à presença das tropas de ocupação. Neste sentido, é um movimento que os Estados Unidos gostariam de poder esmagar ou, pelo menos, de obrigar a negociar um compromisso com eles. A ofensiva contra Al Sadr foi uma tentativa de esmagá-lo, de reduzir este movimento através da força. Al Sadr se refugiou em Najaf e Kufa, que estão entre as principais cidades santas do Islam, reduto dos xiitas, e os Estados Unidos não podiam, por razões políticas, ir até o fim no ataque contra ele. Neste contexto, é que interveio o aiatolá Sistani, impondo a mediação e promovendo o fim do conflito. Pode-se dizer que Al Sadr saiu em boas condições, mas, ao mesmo tempo, o enfrentamento salientou a que ponto, hoje, o principal personagem da situação iraquiana é o aiatolá Sistani. É a ele que os Estados Unidos mais temem, pois Sistani é a autoridade espiritual mais importante para os xiitas iraquianos e é capaz de fazer uso de algo mais perigoso que a violência armada, porque disto os Estados Unidos não têm medo no Iraque, mas sim da mobilização das massas. O aiatolá Sistani, em janeiro último, chamou manifestações de massa para impor eleições diretas no Iraque, com sufrágio universal, contra Paul Bremer, que ocupava a posição de procônsul estadunidense. Houve manifestações gigantescas, com várias centenas de milhares de pessoas, obrigando os Estados Unidos a recuar. Hoje, Sistani é o homem forte na situação iraquiana, Al Sadr está numa corrente minoritária entre os xiitas: radical na oposição à ocupação, mas, ao mesmo tempo, é um integrista; alguém que defende um programa social medieval, reacionário, sobretudo nas questões relativas às mulheres e em vários outros aspectos. É um integrista religioso.

O Iraque pode ser considerado hoje como um novo Vietnã?

Achcar - Isso depende do enfoque que damos a esta questão. Evidentemente, há diferenças imensas entre o que foi o Vietnã e o que é hoje o Iraque. Primeiro, no Iraque não existe uma revolução em andamento, como era o caso no Vietnã; não existe uma guerra popular da envergadura daquela que conheceu o Vietnã e é importante também dizer que as condições geográficas dos dois países são muito diferentes. Então, se quisermos comparar do ponto de vista militar, certamente não é possível. O Vietnã era, militarmente, um desafio muito maior para os Estados Unidos do que é o Iraque. Entretanto, a situação do Iraque pode ser comparada com a do Vietnã no plano político, ou seja, naquilo que chamamos de atoleiro, esta situação em que os Estados Unidos não conseguem ter o controle sobre o país, um país que sombra numa certa forma de caos; um país que os Estados Unidos ocuparam com a intenção de controlá-lo por muito tempo, mas que não conseguem controlar nem mesmo a curto prazo. Há, então, evidentemente, um problema político gigantesco para os Estados Unidos e, neste sentido, podemos falar em um novo Vietnã, se considerarmos que este é o maior problema que os Estados Unidos enfrentam, do ponto de vista imperialista, desde sua saída do Vietnã, em 1973.

A repercussão política seria pior do que o resultado militar?

Achcar - Exatamente. Podemos comparar, nesse caso, com a guerra do Vietnã. Não é possível dizer que os Estados Unidos foram vencidos militarmente no Vietnã, seria uma ilusão acreditar nisso, já que eles podiam, se quisessem, apagar totalmente o Vietnã do mapa do mundo. Mas não fizeram por razões políticas, uma vez que o golpe político, a repercussão, teria sido enorme, e porque o movimento antiguerra nos Estados Unidos já era muito forte. É fato que, numa época, pensaram em inundar o norte do Vietnã rompendo os diques; cogitaram, inclusive, de utilizar armas atômicas. Mas nos dois casos, não foram até o fim. Avaliaram que o golpe político seria excessivamente grande. Pode-se dizer a mesma coisa, numa escala bem mais reduzida, sobre o que ocorre hoje com os Estados Unidos no Iraque: quanto maior é o número de vítimas, mais difícil é para eles permanecerem no país. Eis porque este é um grande problema político para os Estados Unidos, e porque, deste ponto de vista, podemos comparar com o Vietnã.

O senhor vê a guerra do Iraque como uma guerra de libertação nacional?

Achcar - Deste ponto de vista, também, a diferença entre o Iraque e o Vietnã é imensa. No Vietnã, a resistência era um fenômeno unificado, com uma única direção política, ou seja, uma direção representada pelo movimento comunista vietnamita que impulsionava a luta de libertação num sentido, pode-se dizer, progressista; enquanto que no Iraque temos uma situação totalmente diferente: uma resistência à ocupação estadunidense muito heterogênea, na qual encontramos todos os tipos de grupos, inclusive uma parte que é espontânea ou, digamos, local, sem organização central; uma resistência que vai desde a corrente integralista muçulmana reacionária, do ponto de vista de programa social e da concepção do poder político, até correntes nacionalistas, ou seja, correntes basistas, que são os saudosistas de Saddam Hussein. Há, portanto, uma grande diversidade de correntes e que, podemos dizer, está longe do Vietnã do ponto de vista de conteúdo progressista. Se tomarmos as forças hoje dominantes no Iraque, e que estão em oposição aos Estados Unidos, não podemos dizer que sejam progressistas do ponto de vista social ou programático; são forças nacionalistas ou mesmo reacionárias.

O senhor vê a possibilidade dos Estados Unidos se retirarem do Iraque a curto ou médio prazo?

Achcar - Sim. Hoje é possível dizer que desde algo entre seis e dez meses nós temos entrado numa fase de atoleiro, de complicação da situação no Iraque de tal proporção que o recuo dos Estados Unidos aparece como uma possibilidade. No entanto, é preciso atenção. Existe uma outra diferença muito grande entre o Vietnã e o Iraque: o Iraque é muito mais importante para os Estados Unidos do que foi o Vietnã em outros tempos. O Vietnã foi um jogo estratégico durante a Guerra Fria, de medo de um contágio da revolução, mas era, apesar disso, por sua localização e no plano econômico, muito menos importante que a região do Golfo, onde está o Iraque. O Vietnã não era um país importante, do ponto de vista econômico, para os Estados Unidos, enquanto que o Iraque é um grande produtor de petróleo. No Iraque estão 12% das reservas mundiais de petróleo, e numa região onde encontram-se dois-terços da reserva mundial de petróleo. No Iraque, o que está em jogo é algo muito maior. Seria preciso que a situação política e militar se tornasse extremamente difícil e que houvesse, sobretudo, uma forte pressão dos movimentos antiguerra no mundo todo e inclusive no interior dos Estados Unidos. Isto seria o mais importante, para impor a retirada de tropas dos Estados Unidos do Iraque.

Entretanto, parece haver um recuo do movimento antiguerra no mundo inteiro. Qual é a sua opinião?

Achcar - Houve, de fato, depois do início da invasão e da tomada de Bagdá, um recuo do movimento antiguerra e de sua mobilização. Porquê? Há vários fatores que podem explicar isto. Por um lado, houve uma certa desmoralização porque no movimento antiguerra tivemos a ilusão de que seria possível impedir a guerra. Só um movimento antiguerra muito forte dentro dos Estados Unidos teria conseguido impedir que a guerra começasse. Infelizmente, o prazo foi curto demais para que o movimento tivesse força suficiente para isto. Mas, de qualquer maneira, é muito importante o que aconteceu. Comparando com o Vietnã, pela primeira vez, tivemos um movimento de grande amplitude no interior dos Estados Unidos e no mundo antes da guerra. O movimento antiguerra do tempo do Vietnã foi construído ao longo da guerra. Assim, quando a guerra começou, houve uma certa desmoralização. Em seguida, houve a tentativa de uma campanha da mídia internacional e da mídia americana de fazer crer que a população iraquiana apoiava a ocupação de seu país. Foi preciso algum tempo para que essa imagem se modificasse, foi preciso que as pessoas vissem a resistência e, por diferentes aspectos, comprovassem que a população iraquiana não quer esta ocupação. Num segundo momento, acreditou-se que a resistência iraquiana seria mais eficaz do que o movimento contra a guerra. E, por fim, os Estados Unidos estão em período eleitoral, onde tradicionalmente, principalmente nos últimos meses, tudo se volta à campanha eleitoral. Todos estes fatores estiveram presentes. Apesar disso tudo, podemos dizer que o movimento está longe de estar morto. Vimos, recentemente, grandes manifestações em vários países europeus - Itália, Grã-Bretanha e mesmo em Paris - por ocasião da visita de Bush à Europa; vimos a dimensão antiguerra nas manifestações contra a convenção do Partido Republicano. Dentro em pouco, teremos o Fórum Social Europeu, quando certamente haverá uma grande manifestação antiguerra. Agora, com o reinício das aulas nas universidades estadunidenses, pode-se sentir a renovação do movimento antiguerra. Então, deste ponto de vista, continuo otimista sobre a retomada do movimento antiguerra proximamente.

Gilbert Achcar militante marxista, de origem libanesa, radicado na França. Professor de Ciências Políticas na Universidade de Paris-VIII. Dirigiu o dossiê sobre A Hegemonia Norte-americana da revista Actuel Marx (n°3/2000), co-dirigiu a edição do Atlas do Le Monde Diplomatique (2003) e entre suas obras mais importantes se destacam The Clash of Barbarisms (Nova York, 2002) e Eastern Cauldron: Islã, Afghanistan, Palestine and Iraque in a Marxist Mirror (Nova York, 2004). Reproduzimos, aqui, a entrevista exclusiva para a Movimento concedida à jornalista Neca Jahn.

 
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