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Haiti: Quatro anos após o terremoto, nada mudou

15.08.2014 | Fonte de informações:

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A reconstrução após a tragédia que matou 240 mil pessoas em 2010 inexiste. Violência, falta de água e eletricidade tornam a vida nos acampamentos ainda mais difícil. 

Foto:  Microbarracos no acampamento de Icare, onde vivem 500 haitianos que perderam suas casas em 2010 (Jules Jelin Esaü)


por Marsílea Gombata - Carta CapitalDe Porto PríncipeA cada dois dias, Florence Porissaint sai de seu precário barraco no acampamento de Icare, perto de Forte Nacional, em busca de água por Porto Príncipe. A caminhada de 40 minutos rende um balde cheio que suprirá as necessidades da neta e da filha, com quem vive, por pouco mais de um dia. O suplício por qual passa é parte da rotina da Florence e de outros 137 mil haitianos que ainda vivem em acampamentos depois de terem perdido suas casas no terremoto de 2010.

Quatro anos depois da tragédia que deixou 240 mil mortos e 1,5 milhão de desabrigados, a reconstrução do país e da vida daqueles que perderam suas casas é inexistente. A mobilização parece ter ficado na força tarefa inicial para o envio de ajuda humanitária e a remoção dos escombros. Um dos cartões postais do Haiti, o Palácio Presidencial foi demolido à espera de seu reerguimento.

A Catedral Notre Dame continua com sua parte superior destruída. Pelo centro da cidade, casas e edifícios abalados pelo tremor permanecem arruinados, aumentando a sensação de abandono crônico e pobreza que imperam em Porto Príncipe.

"Pensávamos que ficaríamos aqui por um período curto, mas desde o terremoto ninguém do governo dá as caras", conta Florence, que vive em um barraco de 2 metros quadrados com a filha e a neta. "Não temos água, não temos comida. Vivemos como animais".A mesma insegurança abate seus vizinhos. Em Icare, 500 pessoas se apertam em microbarracos construídos com chapas de zinco, plástico e pedaços de madeira.

O espaço tomado pelo esgoto a céu aberto e pelo lixo acumulado na entrada competem com o conquistado por moradores locais que vendem frutas e comida no chão.Precariamente improvisadas, as "casas" chegam a abrigar dez pessoas. Os moradores, que não têm acesso a energia elétrica ou saneamento básico, dificilmente fazem mais de uma refeição por dia. Não são raros os relatos de adultos e crianças que chegaram a ficar, inclusive, uma semana sem comer.O improviso é parte do cotidiano. Para sobreviver e conseguir manter a moradia de 3 metros quadrados em que vive com a mulher e cinco filhos, Lindor Cherisnord, 39 anos, trabalha carregando sacos de arroz ou cimento, o que lhe rende cerca de dois dólares por dia. "É como eu consigo me defender. Aqui não temos ajuda do governo, não nos dão comida nem água", diz ao ressaltar o aumento da violência sexual e de outros crimes como roubo ou latrocínio nas microvielas que separam um barraco do outro. "Talvez seja o destino ficar aqui até morrer".


Portador de uma deficiência que o faz cadeirante, Charles Robiou (foto acima), 34 anos, vive há quatro anos com a mãe, duas irmãs e duas sobrinhas no mesmo local em que vendem frango, manteiga, doces e ervas - tudo sem refrigeração, descoberto e com moscas. Para piorar, o calor cruel sob o telhado de zinco faz os 40 graus do lado de fora parecerem 50. "Montamos a vendinha com o dinheiro que recebemos de uma ONG para ajudar na retirada dos escombros.

Mas aqui não temos dignidade, não há banheiro, não há água. E quando chove, uma água suja sobe e inunda a nossa casa".As casas, com chão de terra, roupas penduradas em varais sobre as camas e portas de chapa de metal se mesclam à paisagem composta por crianças sem roupa, idosos famintos e a pouca comida preparada em estruturas escassas, onde o poder público não circula e as tropas da missão da ONU não patrulham."Não há um dia que seja fácil. E, para agravar as coisas, convivemos diariamente com a violência, no acerto de contas entre rivais e nos estupros", conta Thermidores Terméus, 22 anos, que vive com a mulher Immanuelle, 19 anos, e a bebê Estessy, de 2 anos.


É também nos acampamentos que a rivalidade entre gangues volta a compor a rotina dos haitianos. Sem iluminação pública, ninguém se arrisca a caminhar pelas vielas entre barracos quando anoitece. Assim, homicídios ganham novos terrenos longe dos olhos das forças de segurança.O governo haitiano também se ressente da reconstrução inexistente do país. Dos cerca de 10 bilhões de dólares prometidos para o Haiti em janeiro de 2010, menos de 5% passaram pelas mãos das instituições estatais ou das organizações da sociedade civil haitiana.

Estima-se que metade do dinheiro tenha ficado com organismos internacionais e tenham sido gastos com ajuda humanitária, postos de trabalho de curto prazo, abrigos e remoção de escombros. Um assessor próximo ao presidente Michel Martelly e ao primeiro-ministro Laurent Lamothe lembra que à época todos queriam posar como doadores, mas apenas metade do prometido acabou sendo entregue.

Apesar de aplaudir os dez anos da Minustah no país e rezar para que esses se transformem em 20, ele tece críticas ao próprio Brasil, que não teria conseguido dar um salto para além da segurança pública. "Não fico triste de o Brasil investir em Cuba e em outros países. Só fico triste de não ter investido aqui", diz.

O organismo da ONU que deveria coordenar a reconstrução a longo prazo foi encerrado em 2012.

Hoje, a maior segurança financeira do país vem do Petrocaribe, acordo com a Venezuela que garante ao Haiti 400 milhões de dólares ao ano. Mas mesmo esse esquema é incerto para as próximas décadas.Depois do terremoto que destruiu o pouco das estruturas que restavam do país, o Haiti viu sua realidade piorar ainda mais.

No fim de 2010, foi palco de um surto de cólera que matou 8.300 pessoas e contaminou mais de 650 mil. Em agosto de 2012, a tempestade tropical Isaac causou perdas agrícolas na ordem de 254 milhões de dólares e deixou 1,6 milhão de haitianos em situação de emergência."O Haiti sempre foi um país muito pobre, cheio de surpresas.

Aqui, como eles mesmos dizem, é o 'Vivrel'inesperé' (Viver o inesperado)", lembra o cônsul brasileiro Vitor Hugo Irigaray. Segundo o diplomata, que trabalhou no Haiti pela primeira vez há 25 anos, a falta de infraestrutura é a maldição do país, que sofrerá com a saída das tropas estrangeiras.

"O dia em que tirarem a missão, isso vai virar um caos. Eles não estão preparados, não existe uma força que possa garantir a segurança. E se não há segurança como vamos ter paz?", questiona.

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