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Bagdade se rende. Porquê?

14.04.2003 | Fonte de informações:

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Analistas de todo o mundo estão desorientados tentando perceber como as pessoas, que antes juraram fidelidade a Saddam e estavam prontas a defender a sua cidade, mudaram tão repentinamente. Os que previram que a América iria ter outra guerra do Vietname no Iraque estão desiludidas e outros acusam os Iraquianos de parricídio. Poderá todo o país ser traidor? Actualmente apenas pode ser comentado o que pode ser conhecido de forma objectiva.

Cidadãos de Bagdade exultam

Os relatos chocantes de toda uma nação Iraquiana que adora o presidente dos EUA e os libertadores Americanos foram filmados por várias estações de TV na chamada “Saddam City”, o distrito de menor confiança apesar do seu nome e também o mais pobre na zona sul de Bagdade. A maioria da sua população é shiita, o ramo do islão que tem sido oprimido pela liderança de maioria sunita desde a guerra com o Irão nos anos 80. Os shiitas sofreram bastante com Saddam, tanto fisicamente como moralmente e materialmente. A queda do regime é para eles a libertação. Isto é pelo menos um alívio porque a sua situação não pode ser pior sem Saddam. Têm toda a razão para estar felizes com o que se está passando no Iraque.

As culturas árabes tendem a mostrar as emoções de forma mais expressiva e exagerada e é por esse motivo que vemos esta exultação tão violenta. Além disso Saddam City foi apenas bombardeada parcialmente pelas tropas da coligação porque não havia nada importante nessa zona, apenas casas e pessoas pobres e miseráveis. A pobreza da população é a explicação para o saque que se espalhou pela zona: As pessoas estão retirando velhos frigoríficos, mobília, cortinas e papel dos edifícios administrativos abandonados. Vão usar essas coisas em casa ou simplesmente vendê-las. Quanto às zonas da cidade onde a vida é melhor, são as lojas de comida e armazéns que são saqueados. Os saqueadores não são pessoas que simplesmente estão nesse local, mas criminosos armados que se tornaram mais audaciosos nessas condições de anarquia.

Outras zonas de Bagdade não estão tão contentes com a chegada dos ocupantes. Vamos analisar os relatos do que sucedeu na praça central de Bagdade onde a estátua de Saddam foi derrubada: Só algumas dúzias de cidadãos participaram na infâmia. Os shiitas não estavam presentes porque não era essa a sua zona da cidade. A história que a maioria dos habitantes de Bagdade estavam felicitando os seus libertadores é apenas propaganda espalhada pela liderança política da coligação. Foi muito bem feito, mas continua sendo propaganda.

No entanto isso não significa que os restantes habitantes vão continuar lutando. Eles estão em casa, sim. Aguardando e não participando em cenas humilhantes, felicitando os seus ocupantes. Afinal eles já se conformaram com a chegada das tropas dos EUA e não vão continuar uma resistência sem sentido. Em suma, estão conformadas com a queda de Saddam e possivelmente até se sentirão aliviadas.

Porque Bagdade se rendeu?

Não foi a exultação e o saque que se viu nas ruas de Bagdade mas antes o colapso das defesas da cidade. Bagdade se rendeu, os defensores saíram das suas posições e o regime de Saddam caiu. Só depois a população se atreveu a festejar e saquear. Não podia ter sido de outra forma: O regime de Saddam se baseava no medo constante da repressão e se alguns dos anteriores sinais da autoridade tivessem sido vistos no país, não teria havido protestos nas rus de Bagdade. Apenas manifestações de amor por Saddam.

Consequentemente os habitantes de Bagdade estariam certos de que a cidade se renderia mesmo antes dos tanques lá entrarem. Porque se rendeu a cidade que segundo estimativas da coligação possuía cerca de 30.000 defensores? A disposição moral para a defesa desesperada da cidade, persistentemente mencionada pela liderança Iraquiana, é outro factor que devemos questionar. Alguns analistas dizem que a razão poderá ser a morte de Saddam ou a sua fuga. A resposta ainda não é clara. Uma coisa é obvia: Bagdade não foi tomada pelas forças armada dos EUA, mas antes entregue pelas autoridades Iraquianas.

Porque não organizou a população uma defesa nacional? Primeiro devemos recordar que estamos a lidar com Árabes. Eles são tradicionalmente leais ao seu líder (e demonstram energicamente o seu amor por ele) mas a sua mentalidade não é muito activa do ponto de vista político. É fácil os Árabes se adaptarem à substituição do seu líder e ideologia e aceitam as novas autoridades com a mesma facilidade com que despedem das antigas.

Além disso a população Iraquiana não tinha motivos económicos para querer continuar com Saddam. Saddam Hussein se preocupou com o bem estar do país em geral mas como qualquer líder autoritário não se preocupava muito com o bem estar individual da sua sociedade. Sob as condições do embargo de 12 anos decretado após o ataque ao Kuwait, o nível de vida dos Iraquianos estava em declínio e isso foi por culpa do próprio ditador.

São poucos os que mantêm as suas convicções ideológicas ignorando as suas condições de vida e esse número é ainda inferior à média entre os Árabes. São fieis às suas crenças religiosas mas o estado que Saddam criou no Iraque era, na sua essência, baseado em princípios seculares.

Resumindo, a reacção dos habitantes de Bagdade à saída de Saddam é de fácil explicação. A cidade se teria tornado numa zona de combates cruéis se ele tivesse mantido o poder. Os Iraquianos teriam continuado a lutar ou por medo do ditador ou por devoção aos seus ideais. Mas por qualquer motivo Saddam e o seu grupo desistiram de Bagdade e a população não tinha razões para continuar a defesa da cidade. Tudo é claro. E a culpa não é da população porque são Árabes, eles são assim.

RALITSA ZAITSEVA PRAVDA.Ru KALININGRADO

 
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