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A GUERRA DAS PAPELEIRAS

12.01.2006 | Fonte de informações:

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Durante o governo do ex-presidente Jorge Battle, o Uruguai assinou um acordo com uma empresa espanhola e outra finlandesa para a contrução de duas fábricas de papel na cidade de Fray Bentos, sobre o rio Uruguai, na fronteira com a Argentina. Nos últimos meses, isso acabou gerando um conflito entre Argentina e Uruguai que continua em escalada: a Argentina alega que estas fábricas poluirão o rio e afetará seu território, e insiste que o Uruguai abandone este projeto ou pelo menos o instale em outro lugar. O Uruguai não aceita nenhuma dessas propostas, pois quer honrar o acordo que permite o maior investimento que este país já recebeu.

As conseqüências deste desentendimento estão sendo cada vez piores: primeiramente, houve protestos na cidade argentina de Gualeyguachu, na outra margem do rio onde serão construídas as fábricas, e agora os manifestantes mantém cortada a ponte que liga os dois países e que é a principal rota rodoviária entre Uruguai e Argentina. Depois, o governo da província argentina de Entre Ríos, onde se encontra a cidade de Gualeyguachu, fez reclamações formais contra o governo uruguaio. Depois, os governos nacionais de ambos países passaram a trocar duras acusações.

Esta semana, o ministro de economia uruguaio afirmou que seu país deveria buscar um acordo bilateral de livre-comércio com os EUA, o que é contrário ao estatuto do Mercosul, que afirma que os acordos devem ser feitos em bloco. O ministério de relações exteriores logo afirmou que o Uruguai não busca um acordo com os EUA. Porém, não há dúvidas que há membros importantes do gabinete de Tabaré Vazques que estão insatisfeitos com o Mercosul, o que em um futuro não muito distante pode levar este país a afastar-se do bloco regional e aproximar-se dos EUA.

Esta crise mostra que o Mercosul, embora esteja atravessando sua melhor fase, também tem algumas debilidades. A questão da poluição ambiental nos rios da bacia do Paraná, que banha todos os atuais membros do Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai; a Venezuela ainda não é membro pleno) deveria ter uma legislação específica para todos os países da região. A decisão de construir uma fábrica ou uma usina em qualquer área desta bacia não deveria ser uma questão meramente nacional, pois afeta também os demais países.

Outra debilidade é a falta de atenção de Argentina e Brasil, os dois maiores países, em relação ao Paraguai e ao Uruguai, muito menores, que sentem que seus interesses muitas vezes são colocados em segundo plano. O Uruguai afirma que as fábricas de papel não poluirão os rios, e que os principais poluidores são a Argentina (que, aliás, tem uma usina nuclear em funcionamento e outra em construção na bacia do Paraná) e o Brasil. Dar atenção e buscar soluções aos problemas dos dois países menores do Mercosul é crucial para a sobrevivência do bloco, pois várias vezes Paraguai e Uruguai já ameaçaram buscar outros parceiros comerciais e políticos, em especial os EUA.

A última Cúpula das Américas, realizada em Mar del Plata em novembro, mostrou a força e coesão do Mercosul, cujos membros mantiveram-se unidos e rejeitaram a proposta dos EUA para a Área de Livre-Comércio das Américas (Alca). A entrada da Venezuela no bloco sul-americano, e as convergências ideológicas e econômicas entre quase todos os governantes da região criam um ambiente muito favorável à prosperidade e crescimento do Mercosul. Mas se os interesses de Paraguai e Uruguai não receberem atenção adequada por parte de Argentina e Brasil, é provável que em breve aqueles países comecem a distanciar-se do Mercosul. Carlo MOIANA Pravda.ru Buenos Aires

 
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