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Árabes do Golfo desembainham as espadas longas

09.03.2014 | Fonte de informações:

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Árabes do Golfo desembainham as espadas longas

O mais recente movimento da Arábia Saudita,[1] que incluiu mais grupos em sua lista de "organizações terroristas", pode parecer parte de algum novo pensamento em Riad, para livrar-se de seus velhos laços com grupos extremistas; na realidade, está começando um novo capítulo da política no Oriente Médio. 

Em particular, a inclusão da Fraternidade Muçulmana e do movimento Houthi do Iêmen, na 'lista' de vigilância saudita, é muito visivelmente baseada em considerações políticas, muito mais do que motivada por alguma ameaça de segurança. 

O desafio imposto pela Fraternidade é sobretudo ideológico e político. A atratividade do grupo político transnacional espalha-se entre a classe média letrada saudita, e o regime vê aí um perigo existencial. 

Curiosamente, a Fraternidade está usando o Qatar como base de operações (desde depois do golpe no Egito, ano passado), para disseminar sua mensagem política para outros estados árabes do Golfo. Criaram-se por isso tensões nas relações sauditas-qataris, mas Doha não deu atenção às repetidas demandas, por Riad, para que cercasse os Irmãos. 

Na 4ª-feira passada, em movimento coordenado, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Bahrain retiraram de Doha os seus embaixadores, em protesto contra o apoio do Qatar à Fraternidade Muçulmana. Os qataris manifestaram desapontamento, mas mais nada; e seguiram adiante. 

Mas não há dúvidas de que surgiu uma grave divisão[2] dentro do Conselho de Cooperação do Golfo, que pode vir a revelar-se letal para a própria existência, que já dura 33 anos, do grupamento. 

Entrementes, Omã e Kuwait dissociaram-se do movimento dos sauditas, de retirar os embaixadores. Mas não se veem sinais de que esses dois países estejam interessados em acompanhar o ataque dos sauditas contra os Irmãos. Essa é a mais recente evidência de que a capacidade saudita para comandar as decisões dentro do GCC está corroída. 

As antigas tensões entre sauditas e qataris, que há vêm de há um século, tomaram nova direção, com o advento da Primavera Árabe. O Qatar identifica-se com o programa político da Fraternidade, para a transformação democrática do Oriente Médio. 

Nisso, tem um aliado no atual governo da Turquia do primeiro-ministro Recep Erdogan. Não surpreendentemente, a junta militar que governa o Egito já rebaixou os laços diplomáticos do Cairo com Ankara e Doha - o que não parece ter abalado os dois países, que permanecem convencidos de que estão do lado certo da história. 

Assim também, o movimento Houthi[3] no Iêmen é essencialmente movimento de libertação nacional e é, mais, uma ameaça política, para a Arábia Saudita; as credenciais dos houthis como "grupo terrorista" são difíceis de comprovar. 

Os houthis são conectados a uma plataforma que exige[4] que Riad devolva territórios do Iêmen, fabulosamente ricos em petróleo, que a Arábia Saudita anexou em 1934, e que são contíguos ao território tradicional dos houthis. É claro que a Arábia Saudita não devolverá aqueles fantásticos campos de petróleo. Agora, com o advento da Primavera Árabe no Iêmen, os houthis identificaram-se com as aspirações democráticas do povo. 

De fato, o Qatar apoia os houthis (e o Irã também é simpático ao grupo). A ameaça comum, que liga os Irmãos (que são sunitas) aos Houthis (que são xiitas) é que ambos são movimentos progressistas com extensas e profundas raízes de apoio popular de base, que pregam princípios democráticos e tolerância política; e ambos foram vítimas de repressão pelo estado. 

Pode-se dizer que o que tem de ser olhado de perto e examinado é o passado apoio que a Arábia Saudita deu a grupos salafistas e ao Al Islah no Iêmen afiliado da al-Qaeda. De fato, os houthis efetivamente resistiram contra esses, sim, grupos terroristas. 

Logicamente, a Arábia Saudita aumentará agora a pressão contra o Qatar. Talvez classifique o Qatar como "estado patrocinador de terroristas"? Riad pode esfriar as relações com o Qatar. Mas, seja como for, o Qatar não pode ser facilmente isolado. 

O Qatar é o país mais rico do mundo em termos de riqueza per capita e mantém política externa pragmática, que se alinha com os EUA (e às vezes negocia abertamente com Israel), mas que também cuida de manter boas relações com o Irã e com o Hezbollah no Líbano. O Comando Central dos EUA está baseado no Qatar, o que não impede o Irã de manter contatos com Doha (e vice-versa). 

Com a aproximação da Copa do Mundo da FIFA de 2022, as frustrações sauditas só crescerão. Qatar, como país anfitrião, espera usar o evento para integrar-se ainda mais à comunidade internacional. E mobilizará tudo que o dinheiro possa comprar. 

Também nisso o Qatar agarra-se à modernidade como peixe às águas; em comparação, a Arábia Saudita parece poça de água podre. Mas as ambições do Qatar permanecem como enigma, envoltas em mistério. Como explicar as afinidades do Qatar com a Fraternidade e com os houthis? 

A verdade nua e crua é que ambos, os Irmãos e os Houthis, são perigo existencial aos olhos da família real saudita. Mas o Qatar não é exatamente uma pujante democracia. 

Para entender paradoxos, às vezes é útil remexer na história e recordar, nesse caso, que, em 1913, o fundador do moderno estado saudita, Abdul Aziz, tomou a fatídica decisão de ocupar o Qatar e anexá-lo à província Ahsa da Arábia Saudita; foi necessária imensa pressão, pelo então patrão imperial britânico por dois anos, para dissuadir o saudita de sua intenção, e convencê-lo a, em vez da anexação, fazer o reconhecimento formal das fronteiras do Qatar. 

Mesmo assim, muitos anos depois, já em 1965, Riad usou forças militares para tomar do Qatar o posto de fronteira de al-Khafous. E, claro, o Qatar fez muito barulho para expor o papel dos sauditas como articuladores de um golpe militar abortado, em 1995. Como tantas vezes acontece, há memórias históricas que simplesmente se recusam a morrer e permanecem aninhadas na consciência dos povos.****

 


[1] 7/3/2014, http://www.aawsat.net/2014/03/article55329786

[2] 6/3/2014, http://www.lobelog.com/ambassadorial-recall-signals-deepening-rifts-among-gulf-sheikhs/#more-23345

[3] Valha o que valer, há alguma coisa sobre eles, em http://pt.wikipedia.org/wiki/Houthis [NTs].

[4] 7/4/2014, http://www.presstv.ir/detail/2014/02/07/349604/houthis-stand-ground-against-s-arabia/

 

8/3/2014, MK Bhadrakumar, Indian Punchline
http://blogs.rediff.com/mkbhadrakumar/2014/03/08/galf-arabs-bring-out-the-long-knives/

 

 
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