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Tolerar o intolerável é tornar-se cúmplice

08.08.2006 | Fonte de informações:

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“Tolerar o sofrimento dos outros, tolerar a injustiça de que não somos vítimas, tolerar o horror que nos poupa não é mais tolerância: é egoísmo, é indiferença, ou pior. Tolerar Hitler era ser seu cúmplice, pelo menos por omissão, por abandono, e essa tolerância era já colaboração.” ( Comte-Sponville)

Marta Guerra

Jornalista – DRT 297-RN

É verdade que o mundo tornou-se insensível às tragédias humanas. A distância entre nosso Eu anestesiado pela avalanche de informações, pelo consumismo e pelo comodismo e aquele Outro que sofre exclusão, fome e miséria funciona como um escudo que protege nossa sensibilidade da dor por algo que julgamos fora do nosso alcance resolver. Até certo ponto, isto é um mecanismo de defesa da Vida, porque ela quer viver apesar de tudo o que conspira contra ela. Contudo, há coisas cuja magnitude provoca a penetração para além desse escudo e, se ainda nos resta alguma sensibilidade, exige uma tomada de posição. Porque se o nosso egoísmo nos impede desta tomada de posição, nos impede também de ter dignidade, considerada por Kant como o diferencial dos seres humanos face às outras espécies animais.

A presente situação do Líbano é paradigmática disto. A assimetria de forças e de tecnologia nesta guerra (não digo injusta, porque seria um pleonasmo. Não existem guerras justas) que sob o pretexto de deter o Hezbollah está destruindo toda a infra-estrutura de um pequeno país menor que o Estado de Sergipe e a indiferença do mundo aos efeitos colaterais representados pela morte e pelo êxodo de centenas de civis inocentes, como que legitima a barbárie e o retrocesso da nossa humanidade . O bombardeio do 30 de julho que destruiu um prédio de quatro andares em Canaã que abrigava refugiados na sua maioria mulheres e crianças deve ser este ponto de não retorno para que nos posicionemos ante a barbárie, quando mais não seja, porque se a legitimarmos amanhã poderemos ser suas vítimas.

É fora de dúvida que Israel tem o legítimo direito de defesa. Mas este direito só deve ser exercido dentro de certos limites e sobretudo guardar proporcionalidade com o ataque sofrido. Se o que aquele Estado deseja é a entrega dos dois soldados capturados numa operação militar pelo Hezbollah com o objetivo de troca de prisioneiros, é evidente a desproporcionalidade de destruir todo um país e matar (até agora) mais de 700 civis para conseguir de volta esses dois soldados . Esta desproporcionalidade é por si mesma reveladora de que este pretexto não é o móbile da guerra, mas de que ela está ligada a objetivos maiores, como diz Bush, conectados a outros interesses.

Continuo acreditando que a situação do Oriente Médio só se resolverá SE, e QUANDO, potências estrangeiras alheias ao conflito deixarem de tirar proveito da situação em benefício próprio e às custas de vidas que consideram insignificantes. Em segundo lugar, SE, e QUANDO, todas as partes envolvidas aceitarem um diálogo franco e sobretudo verdadeiro através do qual cada parte reconheça seus erros e aja concretamente de modo a redimi-los. A destruição do Líbano ocorre justamente quando o Hezbollah, o Hamas e o Fatah haviam se mostrado dispostos a reconhecer ao Estado de Israel o seu direito de existir legitimamente, em troca da paz e da demarcação do território palestino como previsto na resolução n° 181 da ONU que em 1948 criou o Estado de Israel, destinando-lhe 56% do território Palestino e reservando 44% desse mesmo território para a criação do Estado Palestino . Estamos em 2006, o Estado Palestino ainda não existe sequer informalmente e pior: a sua área foi reduzida a cerca de 20% da partilha original por força das anexações unilaterais praticadas por Israel. Evidentemente, os próprios palestinos já reconhecem que terão de fazer concessões sobre estes territórios ocupados, mas exigem que isto faça parte de negociações diplomáticas bilaterais e não que seja imposto pela força. É esta a reivindicação do Hamas e do Fatah, e ainda que enquanto pacifistas possamos discordar dos seus métodos não podemos deixar de reconhecer a justiça do seu pleito. Quanto ao Hezbollah, ele reivindica apenas a integridade do território libanês e a sua soberania. É por isso que não existem homens-bomba do Hezbollah nem ações dessa organização contra civis fora do território libanês. Fora do Líbano há apenas incursões militares que objetivam resgatar libaneses feitos prisioneiros ou liberar as fazendas de Chebaa, no sul do país, ainda na posse de Israel.

Vale lembrar que da Resolução 273/49 que acolheu Israel como membro da ONU faz parte o seguinte: “...decide que Israel é um Estado amante da paz, que aceita as obrigações contidas na Carta e está capaz e desejoso de cumprir essas obrigações.” Evidentemente, entre estas obrigações não se encontra a destruição de um país vizinho nem o massacre de seus habitantes. É interessante recordar também que Hitler chamava de terroristas os partisans que resistiam à ocupação nazista da Itália e da França. Embora pintados como terroristas, os combatentes do Hezbollah são na realidade patriotas que defendem seu já exíguo território, cuja culpa é somente a de ser uma das regiões mais férteis e mais bonitas do Oriente Médio. Além disso, o Hezbollah é também um partido político que integra legitimamente a coalizão que governa o Líbano, sendo responsável por ações sociais no sul daquele país como a criação e a manutenção de escolas e de hospitais. É por esta razão que conta com o apoio da população por eles beneficiada, sendo um grave erro de cálculo da inteligência militar supor que culpar o Hezbollah pelo flagelo do Líbano iria fazer a população libanesa voltar-se contra ele.

O filósofo francês Michel Foucault diz que as relações de poder não se estabelecem sem a produção, a acumulação, a circulação e o funcionamento de discursos apresentados como verdadeiros. Diz também que a suposta verdade desses discursos é orientada pela vontade de verdade que distorce a realidade para adequá-la ao fim pretendido. Nessa questão do Oriente Médio isto pode ser observado de modo cristalino, pois são os interesses que orientam a imposição de um novo Oriente Médio segundo um desenho e objetivos traçados em confortáveis gabinetes de empresas e governos estrangeiros que usam as populações e as forças armadas daquela região como peças de um sangrento jogo de xadrez, para ditarem as regras sujas de um jogo no qual sequer aparecem, muito menos se colocam na mira das armas químicas jogadas no Líbano ou dos katiushas atirados sobre Israel. É essa vontade de verdade que transforma patriotas em terroristas e vítimas em culpados, colocando a verdade ao lado da desrazão e da brutalidade e a razão ao lado da fantasia e da maldade.

Esta situação denuncia a patética impotência da ONU frente aos interesses da globalização e exige dos seres humanos que conservam um mínimo de dignidade que se posicionem e façam o que estiver ao seu alcance para denunciar a injustiça desse estado de coisas, exigindo um cessar-fogo imediato e incondicional como condição de possibilidade para qualquer negociação. Porque se não fizermos isto, além de ajudarmos a enfraquecer e deslegitimar a ONU estaremos também sendo cúmplices da barbárie.

Porque, como ensina Comte-Sponville, “Tolerar o sofrimento dos outros, tolerar a injustiça de que não somos vítimas, tolerar o horror que nos poupa não é mais tolerância: é egoísmo, é indiferença, ou pior. Tolerar Hitler era ser seu cúmplice, pelo menos por omissão, por abandono, e essa tolerância era já colaboração.”

Domingo, 30 de julho de 2006, dia do massacre de Canaã

 
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