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Nenhuma delas é cubana!

08.03.2010 | Fonte de informações:

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Marcus Eduardo de Oliveira (*)

Mesmo para os que são desprovidos de qualquer conotação ideológica ou sectarismo político-partidário, ao desembarcar no aeroporto José Martí, Havana, tem-se, forçosamente, uma primeira impressão social de Cuba. Nas proximidades do aeroporto há um grande cartaz com os seguintes dizeres: “Hoje, 200 milhões de crianças vão dormir nas ruas das grandes cidades do mundo. Nenhuma delas é cubana!”.

Em busca da veracidade dessa informação, aquele que se embrenhar na sociedade cubana descobrirá um país corajoso, emblemático e, ao mesmo tempo, carente, sofrível. Assim é Cuba. Um país que, indiscutivelmente, ao longo do século XX, jogou luz no cenário político mundial, ora protagonizando a tomada do poder pela via revolucionária; ora, antes desse acontecimento, servindo de cassino aos magnatas ianques; ora instalando mísseis apontados para os EUA; ora sendo invadida por forças descontentes com o sistema político implantando desde a vitória da revolução. Assim é Cuba, la perla del Caribe, que muitos amam, muitos odeiam, muitos simpatizam e outros tantos hostilizam. Assim é Cuba, de Fidel, Che, Rául, da Revolução, de um povo simples e aguerrido.

Longe de ser um paraíso socialista, Cuba soube se afastar, habilmente, das agruras capitalistas. Seu modelo econômico, mesmo diante das dificuldades obstaculizadas por um embargo econômico que ultrapassa meio século, soube assegurar primeiramente as conquistas sociais; diferentemente de modelos capitalistas que insistem em ignorar o ser humano e centram-se apenas na acumulação de capital. Todavia, nos faltaria espaço aqui para discurtirmos, pormenorizadamente, as diferenças entre esses dois pólos (capitalismo x socialismo). Não é esse o fito deste artigo. O que aqui se pretende é tão somente contextualizar a importância de se resgatar certas prédicas. Uma delas é a de que todos são iguais, e os direitos, por consequinte, são para todos: rico ou pobre, branco ou negro, homem ou mulher, capitalista ou socialista. Outra dessas prédicas refere-se ao fato de que a desigualdade – tanto econômica quanto social -, é sempre algo imposto, forçado, nunca é de caráter natural; afinal, ninguém é pobre por que assim deseja ser.

Reza a “cartilha democrática”, legada pelos gregos desde priscas eras, que as diferenças devem ser atenuadas. Nesse pormenor, vale lembrar que na tragédia grega “Suplicantes”, Eurípedes faz Teseu – lendário rei de Atenas e fundador da democracia -, proclamar que “pobre e rico têm os mesmos direitos. O fraco pode responder ao insulto do forte e o pequeno, caso tenha razão, vencerá o grande”.

De tal forma, os que estão do lado da riqueza e, por isso, tiveram a sorte de escapar da pobreza, cabe considerar tal fato não como prêmio, mas sim como responsabilidade para com aqueles que sofrem os dramas da miséria. O que definitivamente falta entender é que o verdadeiro projeto de vida não pode se basear no “ter”, mas sim no “ser”.

Mesmo sendo considerado um país pobre, no sentido de desenvolvimento econômico, com poucos recursos naturais, é de se enaltecer o tratamento que Cuba dispensa às suas crianças e aos idosos. Assim como é igualmente enobrecedor saber que apenas 2% da população não estão alfabetizadas, visto que desde 1961 a “Campanha Nacional pela Alfabetização” fez triunfar nos rincões cubanos o direito a todo e qualquer cidadão/cidadã de saber ler, escrever e entender as básicas noções do aprendizado.

Diante disso, talvez o ser humano possa refletir que para triunfar na vida, as vezes não é tão importante chegar em primeiro. Para triunfar é necessário simplesmente chegar, levantando-se do chão cada vez que se cai pelo caminho. Ao longo dos últimos 50 anos vários foram os “tombos” tomados por Cuba, mas em todas essas ocasiões, esse país soube se levantar.

Se, de um lado somos sabedores que a força econômica produziu os primeiros escravos, e a escravidão, ao degradar suas vítimas, perpetuou a servidão, sabemos, do outro lado, que para tratar bem as crianças e os idosos não precisa ser rico, basta ter compromisso com a dignidade. Isso Cuba sabe fazer muito bem.

(*) Economista, mestre pela USP e professor do UNIFIEO (Depto. de Comércio Exterior), da FAC-FITO (Depto. de Economia) e da Faculdade de Vinhedo (Depto. de Administração).

Autor dos livros “Conversando sobre Economia” (Ed. Alínea) e

“Provocações Econômicas” (no prelo).

Contato: prof.marcuseduardo@bol.com.br

 
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