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Conflito entre Civilizações ou Tempestade numa Chávena de Chá?

07.02.2006 | Fonte de informações:

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As futuras gerações podem ler o actual capítulo no nosso desenvolvimento com incredulidade. Por um lado, desenhos infantis desnecessariamente provocativos numa altura delicada e por outro, reacções exageradas que ganham muito mais inimigos que amigos, culminaram numa onda de violência gratuita, um aumento em tensões étnicas e religiosas e referências a um conflito entre civilizações.

Mas não é nada disso e qualquer tentativa de misturas a religião nesta receita humana é potencialmente tão perigosa como é errada. Primeiro, a religião muçulmana, Islão, é baseada no Qu´rão, que é um livro de paz e a religião prega relações amistosas entre as pessoas como qualquer outra. Em segundo lugar, se vamos atribuir um motivo religiosa à reacção de alguns muçulmanos, teríamos de confirmar a existência de um motif cristão nos desenhos que apareceram em certas publicações ocidentais.

Estes desenhos foram de facto tão ofensivos como aquele que apareceu em Portugal, com Sua Santidade o Papa João Paulo II com um preservativo no nariz, que despertou um furor entre certos cristãos nesse país – no entanto nenhum deles incendiou edifícios nem pediu a decapitação ou massacre de infiéis.

Se a liberdade da imprensa envolve precisamente o sentido destas palavras, também traz a necessidade de responsabilidade e numa altura em que extremistas se encontram capazes de fazer as suas vozes ouvidas através de actos de violência, numa altura em que o indivíduo começa a ter poderes sobre estados, há que pensar antes de agir. Numa altura em que forças armadas ocidentais cometem atrocidades no Iraque, poder-se-ia Ter feito um comentário mais construtivo do que mostrar Maomé com uma bomba no turbante ou a fazer afirmações que o Céu já não tinha mais virgens.

Quantos Cristãos estariam enfurecidos se uma revista Islâmica publicasse um desenho de Jesus trans-vestido como bailarina a perpetrar o tipo de actos que se viu no campo de concentração dos norte-americanos em Abu Ghraib, quantos Judeus reagiriam contra a publicação de desenhos referindo a câmaras de gás e cinzeiros?

Tais “piadas” deveriam receber o desprezo que merecem e reagir como se fossem sérias sublinha o argumento que eles conseguiram o que queriam, nomeadamente marcar pontos fáceis ao custo de outro grupo étnico ou religião.

Por muito que alguns muçulmanos protestem nas ruas, com certeza há muito mais que encaram esse tipo de evento com um encolher dos ombros, e muitos outros que até se riem. Os que pedem massacres e que incendeiam edifícios são uma pequena porcentagem da grande maioria silenciosa, é preciso ver isso.

No entanto, embora fosse desnecessariamente provocativo publicar esse tipo de desenho, também é verdade que os não-muçulmanos não podem ser reféns por causa da extrema ou falsa sensibilidade daqueles que procuram qualquer faísca para atear a fogueira. Mas incidentes bem piores foram perpetrados por adeptos de futebol bêbados ao longo dos anos.

Mais uma vez, são os extremistas nos dois lados que tentam ganhar a atenção com suas acções e reacções exageradas, enquanto os mídia agem com uma sede estonteante para vender mais exemplares.

Onde estão as histórias acerca dos milhões de pessoas na África Ocidental que perdem o modo de ganhar a vida devido à decisão dos Estados Unidos da América pagar subsídios aos seus produtores de algodão, apesar de pregarem liberdade de comércio?

Para ter um “nós”, é preciso criar um “eles” e se não existe, tem de ser inventado. Será que a Humanidade nesta altura é tão ingénua que ainda é levada tão facilmente por aqueles que só querem enganar?

Timothy BANCROFT-HINCHEY PRAVDA.Ru

 
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