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PROTOCOLO DE KYOTO-RÚSSIA-BUSH-KERRY

06.10.2004 | Fonte de informações:

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Nestes últimos dias a Moscovo oficial só recebia gratidões e felicitações. Personalidades políticas de relevo, ministros, diplomatas e outras figuras de destaque manifestavam à Rússia a sua gratidão pela decisão do Gabinete russo de apoiar o procedimento de ratificação do Protocolo de Kyoto.

É fácil compreender os sentimentos de reconhecimento e gratidão expressados por representantes oficiais da Alemanha, Grã-Bretanha, França, Itália, Japão, Espanha, Nova Zelândia e outros países. A Rússia, tal como os Estados Unidos depois da Administração Bush ter aparecido na Casa Branca, tinha a reputação de adversário aos processos iniciados em Kyoto. E sem o seu consentimento as decisões positivas de 122 países que já ratificaram o documento não podiam ter validade de acordo internacional. Agora - conforme afirmam especialistas em climatologia - as perspectivas da realização da supervisão internacional sobre a emissão de gases estufa começam a adquirir um perfil mais desenhado.

Sem dúvida alguma este perfil passou agora a ser mais visível. Mas julgo que as notas optimistas no coro geral dos defensores do Protocolo de Kyoto são ainda prematuras. É que o posicionamento dos Estados Unidos continua a ser factor substancial para a proliferação do Protocolo. E nos próximos meses as atitudes norte-americanas serão, directa ou indirectamente, determinantes para as decisões já tomadas e por tomar pela liderança russa.

Sucede que o Gabinete russo na sua reunião de 30 de Setembro só declarou as suas intenções reservando três meses para preparar a lista das medidas indispensáveis para a materialização do Protocolo de Kyoto. Só depois de cumpridos estes procedimentos, o Presidente Vladimir Putin poderá encaminhar oficialmente à Duma de Estado (câmara baixa do Parlamento russo) o projecto-lei de ratificação, se bem que as consultas não oficiais possam começar no Parlamento antes, sem aguardar o fim deste processo burocrático.

Neste período terão lugar as eleições presidenciais nos EUA e as atitudes do vencedor em relação ao documento serão conhecidas em Moscovo. Diga-se de passagem, estas atitudes já são sobejamente conhecidas: Bush é contra o Protocolo, Kerry está mais a favor do que contra.

E isto tem repercussões directas sobre o comportamento eventual da Rússia. No país não faltam adversários do processo de Kyoto. Nas últimas audiências parlamentares na Duma de Estado três comissões da Câmara Baixa, encarregadas de preparar o assunto para o exame, manifestaram-se abertamente contra a ratificação. Foi um caso de unanimidade e uníssono comparável só com os protestos colectivos dos parlamentares russos contra o bombardeamento da Jugoslávia pela aviação da NATO em 1999.

Será que o Presidente Vladimir Putin poderá persuadir o Parlamento? Importa ter em conta que para o Presidente russo, é óbvio, a ratificação do Protocolo faz parte dos seus compromissos assumidos perante os líderes da União Europeia. Na Primavera deste ano, depois de longos anos de conversações, a UE deu à Rússia a luz verde para a Organização Mundial do Comércio (OMC) na vertente europeia. Em compensação, a Rússia prometeu fazer avançar o processo de Kyoto.

Vladimir Putin è fiel à palavra dada e com efeito na Rússia este processo moveu-se do ponto morto. E de uma forma paradoxal este processo irá obter no país muitas hipóteses de êxito, caso nas eleições presidenciais de 2 de Novembro de 2004 nos EUA sair triunfando o republicano George Bush.

Será muito mais fácil convencer o lobby parlamentar da indústria nacional que qualifica o Protocolo de Kyoto de "Oswiencim económico" de concluir uma elegante transacção política internacional, cabível na fórmula "Kyoto pela OMC", sendo este lobby seguro em 100 por cento que a ratificação final do Protocolo será bem bloqueada pela administração republicana de George Bush.

Mesmo que venha a instalar-se na Casa Branca o democrata John Kerry, esta viragem, creio, não vai arrefecer a intenção de Vladimir Putin de conseguir a ratificação do Protocolo de Kyoto pela Rússia. Pelo menos porque o Presidente russo é adepto fiel da incorporação do seu país à OMC. Mais ainda, o Chefe de Estado preza-se da sua reputação impecável entre os líderes europeus que o têm como parceiro político seguro e homem que nunca falta à sua palavra.

Contudo, John Kerry apresenta-se como um político que já prometeu que na qualidade de Presidente iria levantar as questões da Chechénia, da liberdade de expressão, dos arsenais nucleares russos, tão desagradáveis para a liderança russa. E se vir a ocupar a Casa Branca irá encorajar aqueles isolacionistas russos que caracterizam o Protocolo de Kyoto como "Oswiencim económico". E então o Presidente Putin terá aplicar os esforços incríveis para arrancar a estes senhores o "sim" para a ratificação. Afinal, não será inviável isso, mas sim dificilmente realizável.

A propósito, no nosso mundo em processo de globalização já não pode ser de outra maneira. Seguramente, um eleitor americano comum - digamos, do Estado de Florida - nem adivinha que no dia 2 de Novembro vai votar tanto pelo Presidente do seu país (Bush ou Kerry), como também, de modo indirecto, pela ratificação próxima do Protocolo de Kyoto pela Rússia.

Yuri Filippov observador político RIA "Novosti"

 
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