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Lições vivas de um passado que agoniza

06.03.2006 | Fonte de informações:

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“Caudilho” é um termo empregado por historiadores que indica, entre outras definições, “chefe de facção política” ou “ditador”. Cá na América Latina, várias destas facções que merecem o referido título continuam vivas e atuantes. Elas possuem amplo poder de barganha e, por isso, conseguem parar o tempo e se manter respeitando regras do século passado, quando todas as outras instituições precisam respeitar regras recentemente combinadas, de maneira coletiva, pela sociedade. Por isso, impunemente e se mantendo livres de qualquer julgamento, podem expor opiniões que não passarão por debates públicos, livres de contestação maior.

Uma destas facções decidiu expor seu sentimento antipovo - próprio do velho caudilhismo que tanto prezam – ao interpretar que o patrocínio de uma empresa petrolífera a uma manifestação popular brasileira, oriundo de um desses países que decidiram romper com o atraso secular, sob o foco da nossa tão profunda unidade latino-americana, era apenas “outra demonstração de egolatria” (sic). Como morador de Vila Isabel e, portanto, admirador da cultura popular, não acho justificável responder ao caudilho-barra-editor deste jornal de grande circulação. O povo não é burro de comprar tão desprezível e insensível tese.

Não preciso também dizer a alguém que se emocionou com sua origem – ao resgatar, na avenida e na TV, a História comum de gente comum – que a PDVSA, a estatal de petróleo venezuelana, não é uma “extensão de sua [Hugo Chávez] conta bancária”, porque igualmente ninguém é tão maniqueísta e simplista assim para ‘comprar’ (grifo comprar) tal ignorância e desprezo pela mínima investigação jornalística. Também não precisamos ser gênios para, mais uma vez, identificar o típico editor de grande imprensa que acha seu leitor um burro. (O próprio escreve: “E quantos componentes da escola e entre os 60 mil que lotavam a Marquês de Sapucaí sabem o que significa "revolução bolivariana"?”)

Cabe, no entanto, deixar no ar a seguinte pergunta: quanto o referido jornal recebe dos maiores bancos e multinacionais do mundo – que chegam a pagar duas páginas inteiras de anúncios semanalmente - para produzir – atenção, sem conexão entre causa e conseqüência, apenas mera afinidade – editoriais com tal teor?

Entristece-me, no entanto, não esta gorda recompensa que a imprensa destrutiva latino-americana recebe dos mais altos representantes do capital especulativo e concentrador de renda. Mesmo os tais “argumentos”, como muitos dos jornalistas populares sabem, agonizam no campo das idéias e estão com seus dias contados.

Mas é exatamente no campo das idéias, dos sonhos, da cultura, que reside a minha própria agonia. Enquanto um movimento crescente de seres humanos vibra e canta com as vitórias do sentimento contra a financeirização da vida; da volta da força dos povos originários contra a sociedade desalmada que crê no Deus-mercado; da humanização das relações humanas e até mesmo institucionais contra o sectarismo e a decadência das práticas e vivências capitalistas; enfim, enquanto tudo isso acontece, com destaque para as vibrantes manifestações populares, autênticas, na Bolívia, na Venezuela e em muitos outros países, temos aqui, entre nossos caudilhos, o elogio do atraso, a preservar figuras históricas que, por bem ou por mal, nos fazem aprender muito sobre nosso passado.

------------------------------------------ Gustavo Barreto é editor da revista Consciência.Net, colaborador do Fazendo Media, Revista Viração e Núcleo Piratininga de Comunicação. Integrante do Movimento Humanista. Original deste artigo: http://www.consciencia.net/2006/0305-gb-caudilho.html ------------------------------------------ Texto citado: “O PATROCÍNIO de Hugo Chávez à Vila Isabel ajudou a escola a fazer um bom desfile. E só. A PDVSA, estatal de petróleo venezuelana, usada por Chávez como extensão de sua conta bancária, não tem um posto sequer no Brasil. A marca, mostrada no Sambódromo, continuará desconhecida do brasileiro. E QUANTOS componentes da escola e entre os 60 mil que lotavam a Marquês de Sapucaí sabem o que significa "revolução bolivariana"? POR ESSAS e outras, o milhão de reais sacado por Chávez para financiar a escola não foi mais do que outra demonstração de egolatria do caudilho. À custa do contribuinte venezuelano”. EGOLATRIA MOMESCA, Editorial do jornal O GLOBO, Primeiro Caderno, página 14, 04/03/2006 [http://oglobo.globo.com/jornal/]

 
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