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Iraque: Verdade, Mentiras e Jogos

05.06.2003 | Fonte de informações:

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A demonologia, a histeria e a hipocrisia fazem lembrar o regime Nazi dos anos 30. Estão presentes todos os ingredientes: primeiro Rumsfeld, depois Powell, depois o Bush, a proclamar que havia “programas nucleares activas” e “programas para desenvolver armas químicas e biológicas” ou “grandes quantidades de armas químicas e biológicas”, tal como aquelas fitas noticiosas acerca do suposto massacre de alemães étnicos pelos checos no Sudetenland, composta por um mestre de histeria em massa, como Goebbels.

O pretexto para a guerra no Iraque era que o “regime execrável” de Saddam Hussein tinha armas de destruição em massa, ADM. ADM não se constitui por alguns obuses vazios e ferrugentos, nem uma pilha de frascos numa prateleira num laboratório, móvel ou fixo. Agentes biológicos ou químicos entram em descomposição com tempo e mesmo os da mais alta qualidade têm uma vida de prateleira de muito menos do que uma década. ADM não é uma meia dúzia de mísseis com a capacidade de alcançar 150 quilómetros. ADM é a capacidade de empregar um sistema que irá causar destruição numa escala massiva, matando centenas de pessoas, num grande centro de população.

Se o regime Ba’ath tinha ou não ADM era um assunto a ser resolvido pelos inspectores da UNMOVIC e se havia ou não um programa nuclear activa, como Rumsfeld et al declararam, era um assunto a ser investigado pela Agência Internacional de Energia Atómica. Seu director Mohammed El Baradei já tinha afirmado que a “evidência” apresentada pelos EUA e Reino Unido sobre o fornecimento de urânio a Bagdade pelo Niger, mais não era do que documentos falsificados. Posteriormente, a Agência declarou que o Iraque não tinha um programa activo nuclear. 1-0.

Em segundo lugar, as equipas de inspecção do Dr. Hans Blix não encontraram um único sinal de evidência de ADM nas suas centenas de visitas com plena cooperação pelas autoridades de Bagdade, apesar da grande pressão exercida pelos EUA, que insinuou que se não havia evidência de ADM, era porque estava a ser escondido, mas Washington sabia onde estava.

Então, onde está? 2-0.

Apesar do facto que as inspecções da ONU estavam a prosseguir bem, e que o Iraque estava a cumprir à letra as suas obrigações, Washington e Londres tentaram empurrar uma segunda resolução no Conselho de Segurança da ONU, utilizando métodos pouco diplomáticos. Por quê é que gastaram tanta energia na tentativa de obter essa resolução? Porque sabiam que sob o direito internacional, era necessário. 3-0.

Finalmente, se é que o Iraque tinha ADM, é pouco provável que Washington, especialmente, teria enviado as suas tropas para lutar nesse país, dado que a regra número um do pentágono num conflito militar é uma escaramuça com pouco ou nenhum perigo para os seus militares, quer que envolve mortes de civis (danos colaterais ou melhor, crimes de guerra) ou não, em que as baixas sofridas, e 80% das dos seus aliados, são fruto da incompetência com que os seus soldados manuseiam os seus sistemas. 4-0.

Agora que Washington teve mais do que tempo suficiente para encontrar as ADM, onde estão? Onde estão estas “quantidades grandes de armas químicas e biológicas”? Onde estão os “programas activas nucleares”? Escondidos no deserto? Como é que se pode esconder um programa activo nuclear no deserto? Ou está tudo a movimentar-se a volta do Iraque em veículos, como disseram pouco depois? O quê, ainda? Ou foi levado para a Síria? Levado para a Síria, um programa activo nuclear, com reactor, combustível e tudo? 5-0.

A verdade é simples: estes sistemas não foram encontrados porque não existem., a não ser nas mentes intelectualmente avançadas de Bush, Rumsfeld e companhia. Tanta pressa tinha Washington em encontrar uma maneira de se instalar na região, tão desesperado era Washington para encontrar uma alternativa ao cada vez mais instável Arábia Saudita, tão pressionado pela mão cheia de firmas que gravitam a volta da Casa Branca e que ditam a política do Departamento de Estado por procuração, que qualquer desculpa foi aproveitada, mesmo a mais absurda, para tirar o regime Ba’ath do poder num ataque monstruoso, bárbaro, assassino e criminoso. 6-0.

Não encontrando o que nunca existiu, porque a história foi uma fabricação desde o início, ou seja, uma mentira descarada do Pentágono, do Departamento de Estado, de Washington e de Londres, agora se fala da África e da SIDA, dos sorrisos na reunião dos G8 e os planos para estimular a economia mundial numa clima de estabilidade, colaboração e amizade.

Que bonito, só que se esqueceu de algo muito importante: milhares de pessoas inocentes foram chacinadas, assassinadas, na pior matança de vida humana desde a guerra no Vietname, numa campanha ilegal sem qualquer pretexto, uma campanha baseada inteiramente em mentiras. Não foi o Saddam Hussein que “enganou o Mundo”, nas palavras de George Bush, foi o próprio presidente dos Estados Unidos e seu amigo Tony Blair, que faz o papel de cachorrinho subserviente com cada vez mais perícia.

Parece, então, que quem dizia a verdade foi Saddam Hussein, fazendo de Bush e Blair mentirosos sem vergonha. Mentiram às suas nações, mentiram à ONU, mentiram ao mundo. Mentiram para estabelecer uma base militar de conveniência para os Estados Unidos da América, para empregar mais uma peça no xadrez que envolve a Rússia, para satisfazer a vaidade e protagonismo dum Primeiro Ministro do Reino Unido, obcecado com o seu lugar na história.

Esse lugar terá sem dúvida, juntamente com George W. Bush. Cabe à história escrever esta página tão triste na civilização humana, nos anais da diplomacia, nos registos do direito internacional.

Timothy BANCROFT-HINCHEY PRAVDA.Ru

 
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