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Após sete anos de invasão, ocupação, tortura e guerra, Estados Unidos iniciam retirada do Iraque

04.09.2010 | Fonte de informações:

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ANTONIO CARLOS LACERDA

Pravda.Ru Internacional

BAGDÁ/IRAQUE - (PRAVDA) – Os Estados Unidos encerraram uma operação de guerra no Iraque, iniciada em 20 de março de 2003, que teve um custo da ordem de US$ 748 Bilhões, arrasou todo o país, deixando um rasto de 4.300 militares mortos, além de 100 mil civis iraquianos, e sem conseguir vencer o terrorismo e o sectarismo local.

A invasão, ocupação e guerra do Iraque foi uma irresponsável herança política deixada pelo ex-presidente americano George W. Bush, que Barack Obama prometeu reparar e acabar, quando da sua campanha presidencial.

Entretanto, como sentinelas, 49.700 militares americanos permanecerão no Iraque para o que Washington chama de missões de treinamento de militares locais, visando o combate aos ataques terroristas que continuam, devido a um governo sem definição, apesar de há cinco meses ter havido eleições.

Obama decretou o fim da Guerra do Iraque após assumir a Presidência dos Estados Unidos e estabeleceu uma agenda de retirada das tropas, além da construção dos alicerces necessários para uma democracia sustentável no país.

Obama garantiu, também, que os 49.700 militares americanos que permaneceram no Iraque serão todos retirados no final de 2011, ficando, então, o país sem sequer um militar americano em seu território.

A invasão do Iraque por tropas americanas se deu devido à suspeita do então presidente George W. Bush de que o ex-ditador iraquiano Saddam Hussein tinha escondidas no seu país armas de destruição biológica e caseira em massa e mantinha ligações com grupos terroristas islâmicos.

Ao final das contas, ao longo desses sete anos de invasão, ocupação, torura e guerra, as armas de destruição nunca form encontradas e as tais ligações de Saddam Hussein com grupos terroristas islâmicos eram uma ilusão.

Por conta desses dois fatos, George W. Bush deveria ser denunciado, julgado e penalizado por uma corte de justiça penal internacional pela prática de dois dos mais hediondos crimes que a mente humana pode conceber em todo o planeta: um, contra a humanidade, pela morte de milhares de pessoas na guerra do Iraque e, outro, de lesa a sua própria pátria, por te-la atirado em uma guerra sem os requesitos básicos e mínimos necessários para fazê-la.

A partir de agora, as atenções do mundo estarão voltadas para a situação no Afeganistão, que será a "Guerra de Obama", e que terá uma forte presença de tropas americanas em 2012.

Analistas de política internacional dizem que os Estados Unidos estão longe de poder ‘cantar vitória’ e enfrentam a incerteza de qual será o legado dos mais de sete anos de guerra.

"É cedo para dizer que as tropas americanas deixam o país num claro caminho para maior segurança e paz e reconciliação, e que o Iraque vai estar mais seguro em cinco ou dez anos", disse um professor de história e analista de Washington.

As tropas americanas no Iraque oscilaram ao longo dos anos, alcançando seu maior volume em 2007, quando tinham 170 mil homens.

Na verdade, a retirada começou no fim de 2008 e passou pela saída das tropas das cidades iraquianas em junho de 2009. Com a retirada, os Estados Unidos dizem iniciar a Operação Novo Amanhecer, com a permanência no território iraquiano de 49.700 militares, para a chamada missão de treinamento, combate à contra-insurgência e proteção dos americanos no Iraque.

Apesar da violência não ter retornado aos extremos da guerra sectária de 2007, as tropas iraquianas ainda enfrentam números que assustam e preocupam. Nos dez últimos dias, vários ataques disparados contra a polícia mataram cerca de 60 pessoas e dez milicianos sunitas foram mortos em emboscadas.

Embora os Estados Unidos tenham despejados cerca de US$ 23 Bilhões nas forças militares iraquianas, elas não atingiram ainda as qualificações e capacitações necessárias para a sua auto-suficiência.

O próprio comandante das Forças Armadas do Iraque, general Babaker Zebari, disse que tropas militares americanas deveriam permanecer no país, pelo menos até 2020.

O Exército é a força iraquiana que está em melhor estado operacional, fato que o leva a assumir tarefas que cabem à polícia, como comandar os postos de checagem que se espalham por Bagdá.

Nos últimos meses, todas as operações militares americanas foram aprovadas e co-executadas pelos iraquianos, entretanto, o serviço de inteligência iraquiano é muito dependente de informações fornecidas pelos americanos para executar suas tarefas. Essa dependência deixa as forças militares iraquianas altamente vulneráveis.

Analistas dizem, contudo, que ainda mais preocupantes são as divisões sectárias e étnicas que transformaram as forças de segurança iraquianas em um batalhão xiita, excluindo sunitas e curdos.

"A filiação a facções é mais forte do que a lealdade ao governo federal. Ainda há dúvidas se eles realmente estão dispostos a se tornar uma força nacional e apolítica", enfatizou o professor de história e analista de Washington.

O ponto mais crítico é o papel dos cerca de 100 mil membros da milícia sunita Sahwa que mudaram de lado ao se aliar aos EUA durante o reforço de 2007 para combater os terroristas da Al Qaeda. Crucial para a virada na guerra, ela ainda é vista com maus olhos pelo governo xiita, que reluta em escalar ex-insurgentes.

Mathew Mingus, da Universidade de Michigan, disse ter ouvido inúmeras reclamações de membros da Sahwa no ano em que passou no Iraque. Segundo ele, "As pessoas destes conselhos recebiam ofertas para postos no governo, mas poucos eram convertidos em forças de segurança. Apesar de ser um desafio, o Iraque seria um local mais seguro se a integração acontecesse."

Apesar de existir risco real de crescimento da violência e desestabilização, para analistas internacionais a retirada das tropas americanas do Iraque era fato inadiável.

O tamanho expressivo da presença militar americana no Iraque não iria causar nenhum impacto real e visível nas causas da violência, e, além disso, poderia impedir os iraquianos de assumir a plena e total responsabilidade por sua segurança, uma questão eminentemente de ordem doméstica do país, jamais um tema internacional.

Para Rachel Schneller, do Instituto Catham House, responsável por pesquisas sobre temas internacionais, os americanos não podem simplesmente ignorar as suas responsabilidades para com os iraquianos e, além disso, acha que os iraquianos devem ser incluídos no programa americano de assistência aos refugiados o mais rápido possível.

Para Mathew Mingus, os Estados Unidos vão ter uma enorme dívida de segurança com o Iraque. "Em algum ponto, os iraquianos vão nos querer lá para fazer missões específicas, e eles têm o direito de pedir isso".

Sobre o Iraque

O Iraque de hoje, que fica na região da antiga Mesopotâmia, fez parte do Império Otomano e foi ocupado pelo Reino Unido durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), e sua independência foi conquistada em 1932, quando se estabeleceu uma monarquia.

Em 1958, através de um golpe militar, a monarquia foi derrubada, estabelecendo-se a república, seguida de um período de instabilidade que presenciou golpes e contragolpes até 2003.

Em 1968, um golpe de Estado levou o partido socialista secular Baath ao poder, e, em 1979, Saddam Hussein tornou-se presidente de um Iraque rico em petróleo, o ‘Ouro Negro’.

Todavia, as disputas de território com o Irã, de 1980 a 1988, e a Guerra do Golfo, de 1990 a 1991, seguidas de sanções internacionais da Organização das Nações Unidas (ONU), devastaram a economia iraquiana, e a população empobreceu.

Em 20 março de 2003, sob a justificativa da existência de um arsenal de armas de destruição em massa, uma força de coalizão liderada pelos Estados Unidos invadiu e ocupou o Iraque por sete anos de guerra e denúncias de torturas de iraquianos por parte de militares americanos.

Saddam Hussein foi deposto, julgado, condenado pelo assassinato de 148 muçulmanos xiitas em na vila de Dujail em 1982 e executado em dezembro de 2006.

Em outubro de 2005, os iraquianos aprovaram uma Constituição em referendo nacional e, em dezembro, elegeram o governo e Parlamento, no primeiro governo constitucional em quase meio século.

A insatisfação sunita com a dominação xiita em governos sucessivos foi um motivo-chave por trás da insurgência que espalhou violência sectária no Iraque em 2006 e 2007.

A violência diária no Iraque diminui nos últimos anos, mas ataques nos últimos meses geram temores de que as tensões sectárias possam explodir novamente, especialmente em um momento de vácuo político.

Após as eleições de 7 de março deste ano, a coalizão predominantemente xiita do primeiro-ministro Nouri al Maliki terminou em segundo lugar, atrás do ex-premiê Iyad Allawi, um xiita secular que foi fortemente apoiado pelos sunitas. O bloco governista pediu, então, a recontagem das cédulas de Bagdá alegando fraude, mas a recontagem terminou sem alterar o resultado das urnas eleitorais.

O resultado duvidoso das eleições aumentou os temores de uma escalada da violência durante o vácuo no poder, enquanto políticos disputam posições nos assentos para formar maioria parlamentar.

Perfil do Iraque

O nome oficial do país é República do Iraque, sua capital é Bagdá, a forma de governo é a democracia parlamentarista, tem 18 governadorias, uma população de 29.682.000 habitantes (49,7% mulheres e 50,3% homens; 66,5% urbanos e 33,5% rurais), sua área territorial é de 438.317 quilômetros quadrados, o Idioma é o árabe (oficial), além do curdo, turcomano, assírio e armênio, a moeda é o novo dinar iraquiano, seus grupos étnicos são árabes (75 a 80%), curdos (15 a 20%), turcomanos, assírios e outros (5%), a religião é praticada por muçulmanos xiitas (60 a 65%), sunitas (32 a 37%), cristãos e outros (3%), o PIB (total de riquezas produzidas) é US$ 97,2 bilhões, a agricultura tem como base o trigo, cevada, arroz, vegetais, frutas secas, algodão, gado, carneiro e frango, a indústria se sustenta, principalmente, no petróleo, químicos, têxteis, couro, materiais de construção, processamento de alimentos, fertilizantes, fabricação e processamento de metais, a renda "per capita" anual é de US$ 3.198, a taxa de desemprego é de 15,3%, a população abaixo da linha da pobreza é de 22,9%, a expectativa de vida ao nascer é de 59 anos, o número de pessoas que acessam a Internet é de 2,7% da população, e o número de refugiados fora do país é de 294.148 iraquianos.

Com relação ao número de mortos que a Guerra do Iraque deixou de saldo, ele foi de 4.419 militares americanos (sem contar 31.897 que foram feridos e sobreviveram), 1.487 funcionários civis contratados pelo governo americano, 443 acadêmicos iraquianos e 142 jornalistas nacionais e internacionais.

Quantos aos custos com a guerra, os valores apontam um volume de US$ 744 bilhões. A produção de petróleo no Iraque antes da guerra era de 2,58 milhões de barris por dia e hoje de 2,30 milhões. A eletricidade antes da guerra em todo o país era de 3.958 megawatts e hoje é de 6.205 megawatts.

Antes da guerra o Iraque tinha 833 mil linhas telefônicas e hoje tem 1,3 milhão. Com relação ao telefones celulares, antes da guerra o Iraque tinha 80 mil e hoje tem 19,5 milhões. No que se refere ao sistema de abastecimento de água, antes da guerra 12,9 milhões de iraquianos tinham acesso a água potável e hoje esse número é de 22 milhões de pessoas.

Quanto à rede de esgoto sanitário, antes da guerra 6,2 milhões de pessoas no Iraque tinham acesso a esgoto e hoje esse número é de 12 milhões de pessoas.

Antes da guerra, o número de iraquianos refugiados em outros países era de 1.021.962 e hoje é de 1,55 milhão. Com relação à imigração, antes da guerra havia 500 mil iraquianos vivendo no exterior e hoje esse número é de 1,7 milhão.

As saídas para o impasse

Passados cinco meses de uma eleição para determinar o caminho rumo à democracia, a população iraquiana ainda não sabe quem será seu primeiro-ministro. Após reiteradas promessas de apoio e rompimentos, as alianças políticas do Iraque não conseguiram superar as diferenças étnicas para formar um governo de coalizão.

Os legisladores já cancelaram duas sessões previstas no Parlamento devido a falta de um acordo sobre os principais postos do gabinete e continuam sem aprovar nenhuma medida até que seja definido o cenário político iraquiano.

Nouri al Maliki, primeiro ministro de plantão, já disse que quer continuar no poder e chegou até a desafiar outras alianças a encontrar um candidato melhor que ele.

Apesar das suspeitas mútuas entre os blocos políticos iraquianos, as previsões e o quadro real do país dizem que não haverá outro nome, e Maliki deve se manter no cargo de primeiro-ministro.

A coalizão de Maliki, o Estado de Direito, ficou em segundo lugar nas eleições, com 89 cadeiras contra 91 da aliança Iraqiya, do ex-primeiro-ministro Iyad Allawi, e a xiita Aliança Nacional Iraquiana conquistou 70 cadeiras do Parlamento.

Sobre o caminho para resolver o impasse político no Iraque tem por base incluir todos os grupos políticos para que todas as comunidades se sintam parte do futuro iraquiano pós retirada das tropas americanas.

Entretanto, de forma velada, os Estados Unidos gostariam de ver uma solução que exclua os sadristas, que são grandes opositores da presença americana no Iraque, além de serem vistos como legisladores e administradores imprevisíveis.

Guerra impopular

Os Estados Unidos conseguiram cumprir parte de uma promessa de campanha do presidente Barack Obama, retirando grande parte de suas tropas do território iraquiano. Entretanto, analistas internacionais não acreditam que a segunda parte da promessa, a retirada dos 49.700 militares americanos que permanecerão para missões de treinamento de militares locais até o final de 2011, não será cumprida.

Diretos humanos

A Guerra do Iraque foi marcada por graves violações de direitos humanos, cujos responsáveis em grande parte permanecem protegidos pelo governo dos Estados Unidos.

Embora alguns casos tenham recebido maior destaque na mídia, como o escândalo na prisão de Abu Ghraib e o uso de tortura e detenções de inocentes em Guantánamo, os mais de sete anos de combate registraram um número recorde de sistemáticos abusos, indicam instituições que monitoram o conflito.

Pesquisadores das duas maiores organizações mundiais de direitos humanos, a Human Rights Watch (HRW) e Anistia Internacional (AI), disseram que o uso de tortura, confissões sob coerção, execuções sem julgamento, mortes de civis, detenções sem acusação formal e estupros foram práticas diárias das tropas americanas e iraquianas.

As duas entidades internacionais de direitos humanos concordam que o governo de Barack Obama manteve as mesmas regras do governo de George W. Bush, recusando investigar as denúncias, além de não permitir que as vítimas processem os militares acusados, alegando riscos à segurança nacional.

De acordo com a Anistia Internacional, os raros julgamentos de oficiais americanos foram em grande parte conduzidos por tribunais militares, fato que não dá credibilidade aos vereditos.

Isso, certamente se deve ao fato de não existir mecanismo ou órgão jurídico penal internacional que tenha realmente pressionado os Estados Unidos para julgar os responsáveis pelos abusos cometidos no Iraque.

Em 2004, a revista americana "The New Yorker" e o programa de TV 60 Minutes noticiaram o vazamento de um relatório militar sobre práticas de tortura cometidas na prisão de Abu Ghraib, que abrigava detidos de guerra no Iraque.

Assinado pelo major-general Antonio M. Taguba, o relatório informava que os detidos eram submetidos a sessões de eletrochoques, abusos sexuais e ferimentos por substâncias químicas, além de serem forçados a práticas de masturbação e sodomia com lanternas e vassouras.

A Convenção de Genebra estipula as bases das leis internacionais sobre direitos humanos e determina que civis só podem ser mantidos prisioneiros de guerra enquanto representarem uma potencial ameaça.

Criado para proteger pessoas que, por motivos de ocupação ou conflito se vêem nas mãos de um país terceiro, a Convenção de Genebra foi sistematicamente violada em muitos de seus artigos pelos Estados Unidos durante os sete anos da Guerra do Iraque.

Há informações de que no Iraque existem 1.269 pessoas no corredor da morte, e que 250 já foram executadas. Entretanto, as entidades de direitos humanos afirmam que esses números são bem maiores e que não se sabe certamente quantos já foram executadas e quantas ainda serão.

Soberania do Iraque

No mesmo dia em que os Estados Unidos retiram todas as tropas de combate do Iraque, encerrando mais de sete anos de guerra, o premiê iraquiano Nouri al Maliki afirmou que o país torna-se independente e soberano, e tem condições de garantir sua própria segurança.

Em discurso dirigido à população iraquiana, al Maliki decretou um novo feriado nacional para o dia 31 de agosto, marcando a data em que o país voltou a ser "independente".

"Iraquianos, temos uma nova data de feriado nacional, o dia em que recuperamos a soberania de nosso país e desenhamos o futuro com nossas próprias mãos. O Iraque hoje é soberano e independente", disse em seu pronunciamento.

Além disso, o líder ressaltou a capacidade das forças iraquianas para manter a segurança no país na nova etapa que começa. "Os tranquilizo sobre a capacidade de nossas forças para assumir a responsabilidade", disse o premiê em fim de mandato, que insistiu no "papel de liderança que terão a partir de hoje os agentes de segurança iraquianos".

O líder iraquiano ressaltou ainda a suposta rapidez das tropas locais para lutar contra uma série de problemas internos, rejeitando as críticas dos que temem que a polícia e o Exército iraquianos não estejam preparados para assumir esta responsabilidade.

"Nossas forças de segurança conseguiram em um tempo recorde, em comparação com a crueldade dos ataques terroristas, grandes vitórias, assim como recuperar a soberania do país, impor sua autoridade e conquistar a estabilidade".

"Se não tivesse sido pelas conquistas reais da segurança o país não teria conseguido chegar até esta etapa, que é a mais importante, a retirada das forças dos EUA", disse.

ANTONIO CARLOS LACERDA é correspondente internacional do Pravda.ru no Brasil.

 
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