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Para ler e pensar

03.08.2018 | Fonte de informações:

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Para ler e pensar

A longa crise em que vive o sistema capitalista no mundo do inteiro desde a última década do século passado, tem levado inúmeros pensadores a voltar a cogitar de uma sociedade socialista como remédio para os males da humanidade.

Istvan Meszaros recuperou aquele famoso dito de Rosa Luxemburgo de há praticamente 100 anos, de que a opção ao socialismo é a barbárie, a qual Meszaros acrescentou ainda um adendo: na melhor das hipóteses.

Slavoj Zizek, Alain Bandiou e Jacques Rancieri, cada um a sua maneira, têm escrito e falado no mundo inteiro, alertando que o capitalismo, financeiro e globalizado, perdeu aquele vigor antigo de destruir o velho para construir o novo e hoje é apenas uma força que destrói a natureza e empregos no mundo inteiro, transformando milhões de pessoas em não-vivos ou semivivos.

Ao lado desses pensadores europeus, nessa análise, se destaca um brasileiro, Jacob Gorender, que infelizmente morreu em 2013, com o seu livro Marxismo sem Utopia, editado em 1999 pela Ática.

No livro, Gorender faz uma revisão de alguns conceitos de Marx, reforçando o papel do acaso nas transformações sociais e defendendo a impossibilidade de extinção do Estado, como propunha o autor do Manifesto Comunista.

Ele analisa o fracasso da experiência soviética a partir de duas variáveis: as dificuldades materiais da União Soviética, oriundas dos erros de sua política de planejamento econômico e a falta de democracia interna do país, onde o chamado "centralismo democrático" substituiu a participação popular em quase todos os seus níveis.

Apesar disso Gorender não é um descrente na possibilidade de reconstruir o ideal socialista a partir dos ensinamentos de Marx e Engels e mesmo das experiências dos mais de 70 anos de vida na União Soviética.

Diz Gorender: "Sendo uma possibilidade, o socialismo não decorrerá de leis históricas inelutáveis. Tão pouco decorrerá de um imperativo ético, como propunha Bernstein, pois será uma possibilidade inscrita objetivamente na história. O objetivo socialista se colocará como opção para as tendências anticapitalistas radicais, que os próprios males do capitalismo suscitarão. Este objetivo se implementará sob a forma e conteúdo muito variados, de acordo com as peculiaridades históricas de cada povo"

Para a consecução desse objetivo revolucionário, Gorender se aproxima de uma das teses fundamentais de Lenin, quando em 1917 dizia que o proletariado não estava ainda preparado para fazer a revolução, que deveria então ser liderada por intelectuais comprometidos com as aspirações dos trabalhadores.

As modificações profundas que ocorreram nas relações de trabalho desde o Manifesto Comunista, levou Gorender a sintetizar como poderá ser este novo mundo socialista:

Permanência da divisão do trabalho entre físico e intelectual, sob a hegemonia de assalariados intelectuais.

Socialismo como objetivo abrangido em uma única fase, deixando de lado a visão utópica de Marx sobre o comunismo.

Permanência do Estado, sob o controle socialista ao invés de sua extinção.

Um sistema de democracia pluralista no socialismo.

A combinação de planejamento e mercado na economia socialista.

Marino Boeira é jornalista, formado em História pela UFRGS

 

 
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