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A nervosa transição da China

01.10.2008 | Fonte de informações:

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Agora, entretanto, o livre mercado está avançando em quase todas as áreas da economia chinesa, dos serviços de utilidade pública ao emprego. O resultado é uma correção de preços na qual o mercado é que estabelece os níveis. Os governos locais estão concebendo novas maneiras de vender ou alugar a assim chamada terra estatal de maneira que lhes renda dinheiro; a água está sendo vendida em algumas partes da China, levando a agudos aumentos de preços; e a escassez de trabalho está começando a ser sentida num mercado que se supunha, até recentemente, oferecer suprimento ilimitado de trabalhadores baratos. Uma nova lei de contratos aprovada em janeiro de 2008 dá aos trabalhadores direitos e benefícios ainda maiores (ver Han Dongfang, "Negociações Coletivas e a Nova Lei de Contratos de Trabalho", China Labour Bulletin, 26 de fevereiro de 2008). Para WalMart, Tesco e afins, isso significa que o preço de suas exportações subirá, mais e mais.

Em suma, a era do "fabricado na China" parece estar chegando ao fim. Será um processo longo; subitamente, porém, fabricar no Vietnã ou no Cambódia, ou mesmo no Laos, aparentemente tornar-se-á mais simples e lucrativo do que na China.

Outra nova era

O politburo bem poderá ver isso como algo com vantagens e desvantagens. O modelo industrial que ele adotou nas últimas três décadas arruinou o ambiente chinês, e exauriu a maior parte dos recursos naturais. Esse modelo também atende cada vez menos às necessidades daqueles que o fazem funcionar; as aspirações de centenas de milhares de trabalhadores migrantes chineses que buscam emprego nas cidades não mais são satisfeitas pela perspectiva de fabricar bonecas Barbie por poucos centavos por hora. Eles se tornaram mais conscientes de seus direitos, mais cônscios do que querem, e menos dispostos a fazer sacrifícios para consegui-lo (ver Alexandra Harney, O Preço China: O Verdadeiro Custo da Vantagem Competitiva Chinesa, Penguin 2008).

Portanto, o politburo só poderá dar-se uns poucos momentos para comemorar os "mais bem-sucedidos jogos de todos os tempos". Precisará, em seguida, movimentar-se para tratar das questões mais prementes de para onde dirigir a economia nos meses e anos à frente. Sua estratégia de investimento estrangeiro está num momento crítico (ver "China torna-se global", 2 de agosto de 2007). Os bancos chineses cada vez mais estão procurando expandir-se no exterior. Por sua vez, há sinais de que a Coca-Cola e outras multinacionais querem adquirir - com garantias totais - haveres e companhias na China.

As cinquenta e uma medalhas de ouro que os esportistas chineses de ambos os sexos ganharam foram um feito extraordinário; o impacto dos jogos na consciência popular chinesa é menos mensurável embora talvez mais importante (ver "China modifica-se: um relato dos Jogos Olímpicos", 20 de agosto de 2008). A liderança chinesa, entretanto, precisará de cada partícula de engenho e inteligência de que dispõe para gerir a confusão em potencial que poderá espreitar a apenas alguns passos adiante. Algo que a enche de horror está para acontecer: ela está começando a viver em tempos muito interessantes, dos quais as gigantescas convulsões dos mercados financeiros do mundo são apenas um aspecto. Hu Jintao e seus colegas poderão um dia olhar para trás com saudade do período quando a única coisa com que tinham que se preocupar era o sucesso dos Jogos Olímpicos. A partir de agora, eles estão em território não mapeado.

Autor da publicação: Murilo Otávio Rodrigues Paes Leme

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