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Reflexões sobre as Olimpíadas

31.08.2004 | Fonte de informações:

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Depois da primeira semana dos Jogos, quando a Rússia não conseguiu ganhar medalhas de ouro tanto por circunstâncias objectivas (natação), como subjectivas (ginástica desportiva), o espírito de desespero e falta de confiança nas próprias forças dominou fortemente as almas da torcida. As pessoas de maior idade experimentaram ainda a vergonha pela selecção: viam outros Jogos Olímpicos em que reinavam só duas potências - a União Soviética e os Estados Unidos.

Durante muitos anos, a confrontação no desporto era o prosseguimento da confrontação na política, ideologia e cultura. Afinal de contas, as vitórias conquistadas nos Jogos Olímpicos significavam para as pessoas a vitória da sua atitude para com o desenvolvimento do desporto de massas, personificando a saúde da nação e o seu prestígio. Os tempos mudaram, mas as vitórias no desporto continuam a significar muito para a imagem internacional dos países que não poupam dinheiro para a preparação para os Jogos.

Em Atenas, a julgar pelos prognósticos de funcionários desportivos, a Rússia "poderia lutar pelo primeiro lugar na lista dos participantes". Mas, infelizmente, estes prognósticos não se justificaram. Foi a primeira semana desastrosa que tornou impossível o primeiro lugar. Mas não se justificou também a segunda previsão - a derrota estrondosa em todas as "frentes" olímpicas. Ficou mais uma vez confirmado um provérbio muito popular no nosso país e pouco compreensível para os estrangeiros de que os russos atrelam devagar, mas andam rapidamente.

Foi na fase final dos Jogos que, para a surpresa dos observadores, entre eles o ex-presidente do Comité Olímpico Internacional, Juan António Samaranch, que se apressou a declarar publicamente sobre a sua desilusão em respeito aos atletas russos, a selecção russa arrancou impetuosamente. Como parecia, se os Jogos continuassem mais um par de dias, ela seria a primeira. Em resultado, os russos ocuparam o segundo lugar na contagem não oficial pelo número total de medalhas (92) cedendo aos Estados Unidos (103) e o terceiro, depois da China, pelas medalhas de ouro.

Deixando do lado certos "equívocos" e "esquisitices" da arbitragem em Atenas como factores subjectivos, devemos reconhecer que o resultado para a Rússia foi justo - nem mau, nem bom. Otto von Bismarck dissera que a Rússia jamais será tão forte como quer, mas também não será tão fraca como os outros querem... Com certeza, esta observação é justa também neste caso.

O desporto russo, incluindo o de altas realizações, reflecte em si a situação geral na Sociedade e na Economia. As metamorfoses do impetuoso período de transição duma formação sócio-política para outra não deixaram de ter o seu impacto no desenvolvimento do desporto. Basta recordar as "feiras de ladra" nos estádios e à volta destes, os supermercados em vez das escolas desportivas infantis, os salários míseros dos técnicos e treinadores, os subsídios ínfimos para os atletas prometedores que os obrigaram a emigrar ao exterior. Por fim, teve a sua repercussão o aparecimento das modalidades desportivas elitárias e lucrativas, como por exemplo o ténis, esquis de montanha, hipismo, deixando no esquecimento e em detrimento as modalidades tradicionais e populares. Pensando bem, o terceiro lugar que coube à Rússia entre as potências mundiais de desporto nesta Olimpíade foi ganho não graças à lógica normal, antes pelo contrário contra esta lógica.

É digno observar aqui que o sistema soviético de preparação e capacitação de atletas não foi esquecido. E duma forma brilhante testemunha iisso a actuação da selecção da China tendo-se classificado no segundo lugar neste certame mundial. Há quatro anos, em Sidney, os atletas chineses ficaram ao todo com 59 medalhas em 12 modalidades. Agora em Atenas tiveram 62 medalhas, mas em 20 modalidades tendo diversificado significativamente o espectro da performance. Este êxito olímpico de Pequim tem a única explicação: o respeito máximo pelos desportos por parte do Estado, o aproveitamento da melhor experiência mundial (e diga-se de passagem, da soviética em grande parte) na preparação dos quadros profissionais. Parece oportuno observar que centenas de técnicos e treinadores soviéticos e agora dezenas que vêm da Rússia treinaram e continuam a treinar os atletas chineses. Diga-se, os Estados Unidos devem também agradecer o técnico russo pelas medalhas que conquistou a equipa norte-americana de ginástica.

A conclusão impõe-se por si: os russos têm que lembrar e abordar pelo prisma criativo o que eles tinham antes e o Estado, por sua parte, não deve poupar dinheiro para incentivar e desenvolver o desporto infantil e amador, pois com o desporto profissional não há problemas - este pode ganhar os seus benefícios.

Nos Jogos Olímpicos de Atenas a torcida russa manifestava as suas simpatias não só pelos atletas nativos: desejava êxitos aos ucranianos, bielorrussos, casaques, georgianos e de outros países da Comunidade de Estados Independentes (CEI) - em outras palavras a todos os atletas que vieram do espaço pós-soviético. A História não suporta o modo conjuntivo, mas se suportasse, a selecção das repúblicas socialistas soviéticas (URSS) e hoje dos países soberanos e independentes iria vencer todos.

Na Grécia, somando os seus resultados pelas medalhas de ouro, estão acima dos norte-americanos em 10 condecorações. E pelo número total de medalhas em 59 condecorações, nem mais nem menos! Conclui-se dai que o fundamento para o desporto construído nos tempos de convivência, de vida sob o mesmo tecto como se costuma dizer, resultou forte e sólido.

Vassili Zubkov observador RIA "Novosti"

 
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