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Conto Premiado: FLORIZA

28.07.2018 | Fonte de informações:

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Conto Premiado: FLORIZA

"Confio na minha incompreensão, que me tem dado vida intensiva e intuitiva, enquanto que a chamada compreensão é tão limitada. O horrível dever é viver até o fim." Clarice Lispector - Sobre o suicídio de Virgínia Woolf

Como todo santo dia chegou em casa às 7 horas. Perto da Voz do Brasil que a mulher ficava escutando na cozinha. No debulhar do tempo quirera, rainha do lar.

Naquele dia não foi diferente o seu chegar pontual. A não ser a ausência do cheiro do feijão-jalo no ar; de geleia de baunilha ou mesmo compota de pêssego. Tampouco o palavrório inútil dos políticos.

Era um não entender o favo do ali, havência. Garrou da sala para a cozinha, visando cumprimentar a mulher que amava tanto. Descobriu-a, sentada à mesa negra, de vidro, rosto sobre os longos braços alvos, molhados.

Chorava copiosamente.

Acudiu contristado. Água com açúcar cristal. Remos pegando na contristada angústia do ver. Perguntas ocas. Despreparo face ao inusitado. Depois, amparo, candura. Abraço demorado. Questão quase súplica. Querendo saber o acontecido. Floriza não sabia um explicar. Dera uma vontade de pôr para fora certo rio ilhado no cárcere privado da engrenagem interior, íntima. Tirá-lo (revelação) de suas entranhas. E vindo junto uma tristeza cega, desaprendida. Sem escolher motivos transparentes. Apenas calha. Vísceras expostas?

Os filhos aportaram. Sobrinhos, netos, genros, vizinhos. E curiosos afeiçoados. Todos repletos de amor por aquela pessoa maravilhosa. Bondosa e serviçal. "Boas pedras" - como diziam os parentes caipiras de Itararé, de onde ela era originária.

Sem explicação. Elo que fosse. Chorava porque não se pode conter a chuva interior que abre sulcos num vir pesado. Não se detém a foz, impedindo-a de despencar seu baque ou romper abrupto. Nem a margem que oprime o rio, deixa de fazê-lo um destilo algoz para qualquer penhasco rude, ou inundações íntimas presas no cais.

Psiquiatria, psicólogos. Análises, exames. Calmantes, viagens, apegos. Nada. Fragmentos e matizes do inexplicável. O triste repetiu-se outras vezes. Pedra-sabão. Nau frágil.

Jonas começou a chegar mais cedo em casa. Cuidando da cara metade que tanto adorava. E a patroa sempre chorando pelos cantos. Ora perto da máquina de costura. Ora perto do espremedor de frutas ou do quarador de roupas no fundo do quintal. Sempre com anéis molhados no rosto. Jonas pediu férias. Foi para casa de campo com ela, depois, perto do mar. Ficou mais doce do que antes. Epiderme, placenta, abrigo, talismã.

Floriza, choro e ranger de dentro.

Não sabia mais o que fazer. Não havia mais o que melhorar naquilo; ou para evitá-lo com promessas ao sal, continuação. Dó maior. Algema na alma de Jonas.

Voltou a trabalhar.

Desacorçoo.

No entanto largou a sardinhada com os companheiros. O jogo com os amigos nas tardes de sol madurando cores no cinzel da vila. Nunca mais a conversa fiada com caipiras de igual ciranda.

Fincou-se mais caseiro. Pensando a mulher Floriza já com meio século de vida a construir o amor com ele. Filhos firmados. Relação sadia, madura e agora aquele choramingar casulos; ostras, entraves. Lua cheia saindo no tardiscar da cidade grande. Feito coisa. Lua cheia de encanto que vinha de Itararé, onde conhecera a mulher prendada. Chegou em casa esperançoso como sempre.

Nem sinal da esposa.

Bulha alguma. Oxigenou seixos no peito. Expectativa quase câncer. Depois, hospitais, leprosários. Instituto Médico Legal. Praças, viadutos. Pensões, albergues noturnos. Rádio Amador, jornais de bairros. Jornais do interior. Televisão horário nobre. Achados e Perdidos. Cartazes em postes. Nada.

Floriza nunca foi encontrada.

Nunca foi achada para desespero de Jonas, que finou mais que flor de abóbora quando um guri fuzarqueiro arrebenta de vez o cipoal ao rés do chão.

Família unida, dinheiro em vão. Subterrâneos. Ferida guardada de exposição o tempo não lixa. O acontecido foi se envernizando pela vontade de esquecer a dor. Não há sensações no esquecimento.

Passaram-se os anos. Jonas, de-primeiro com o coração em pandareco. Depois, com a parentalha, tomo de aceitação. Apesar das noites; do martírio que há no pensar o havido.

Estava começando a perder a querência na cicatriz lazarenta de um alembrar-se incontrolável, quando - de madrugada - (dia desígnio) um telefonema curto e grosso, nervoso, de Porto Seguro, Bahia, nordeste do Brasil.

Um primo distante que ali passava, de supetão, perto de um alojamento de obras, sem querer esbarrou no ver o vulto daquela mendiga conhecida, candonga. Desdentada, cabelos grisalhos, com berebas. Será o impossível? Onde já se viu? - Parecida. Era ela! Deus do céu... - Floriza!

 

Foram em busca.

Em caravana. Amor, mãe, amiga, saudades, quimeras, insofrências. Lembranças guardadas no corote do peito revisitado. Emoções com custo de atar-se. Pérola aos poucos...

Tenros retalhos de sentir: Floriza voltou anjo, companheira, farol. Seda.

Passaram-se os anos.

Tanto amor, ninguém acreditava. A família, com a perda traumática e o enlace do vir, uniu-se ainda mais. Quereres. Visitas. Livros, discos, joias. Rosas, carinhos; luvas de pelica para o fito do amor.

Jonas viu a havência cair no carvão molhado do esquecimento, remoçado e feliz que estava; como araponga liberta do gume de si mesma. Nem se alembrava mais dos detalhes do acontecido. A mulher fizera um tratamento especial. Dera um lustre. Banho de loja. Muletas? Próteses?

Um dia, ao voltar da sauna com chocolate caseiro comprado na bodega da esquina da rua Pássaros & Flores, encontrou Floriza chorando. De novo? Palco-íris. Corre, acode - filhos. Montoeira de parentes. E ninguém conseguia arrancar nada. Sem explicações. Solidão genética na alma? Alma-albatroz.

Ela mesma era pura no dizer o não sabido; instante-trevas. Pediu perdão por aquilo que fazia sem querer. E por fazer sofrer os entes que amava tanto.

Clínica de repouso: lá chorou também. Acupuntura, homeopatia, ginástica, natureza; choro. Não havia nada que desse luz ao que estava acontecendo no coração partido de Floriza.

Cuidaram o mais que puderam. Vigílias, por turnos. Ela continuava chorando. Acordava de madrugada, despia-se, trancava-se no banheiro particular e chorava horas a fio. Depois banhava-se e saía fechada em si. De tromba ainda.

De-primeiro, às escondidas. Depois, pelas penumbras da casa movimentada em vigiados rodízios de turnos. Com o tempo perdeu a vergonha de ser o que era a sua essência. Passou a chorar em público. Os soluços como que rasgavam-lhe o íntimo transido. Dava dó.

Passaram a chorar com Floriza. A casa toda chorava. As alamedas, ciprestes, melros, álamos; pássaros pretos no avesso do alpendre. Pétalas de arame farpado do ser entregue. Não havia filtros explicáveis. Parecia que o mundo inteiro chorava, num desatino de nunca ninguém poder explicar ou suportar feito aço.

Era contagiante a contaminação terreal da sensibilidade de Floriza. Com o passar dos tempos, mal alguém dormia por perto e ela sumia dessa dimensão. Ia num ermo qualquer chorar.

Decompor-se longe do real.

Um dia anoiteceu e não amanheceu. Desta feita deixou uma carta-testamento pedindo que não mais a procurassem. Queria estar só como sempre se sentira. Mesmo rodeada de um mundo de pessoas, não se sentia digna de merecer tanto afeto, verdadeiro ou não.

Era sozinha; sempre sozinha no egoísmo contido do seu Sentir. Não queria que a procurassem mais. Seria uma andarilha, uma peregrina, uma nômade, uma "trecheira" como diziam os sociólogos puristas. Se tinha que ser assim para não chorar mais, assim seria. Tinha assumido ser só: solidária de si. Capenga. Solidão-liturgia.

Pedia respeito com sua dor; com sua estranha maneira de ser. Tinha a sua íntima descoberta do sentido real da existência. Mesmo sabendo que por onde quer que fosse jamais sairia do lugar que estava. Era prisioneira e algoz de si mesma.

Ainda que retalhando os que amava. Ainda assim.

Queria morrer por seus próprios pés. Viver por suas próprias mãos. Se não tinha coragem-calço para romper o fio imperceptível da vida, queria pelo menos construir o resto dos seus dias. Alma-olaria, aceitaria esse fito.

Que, pelo amor de Deus não a matassem!

Que não a sufocassem com quireras de cuidados, arranjos, acontecências de-assim.

Não valeria a pena.

Sentir a dor da existência era não resistir no termo do vivenciar. A vida era o exercício da prostituição dela. Que a deixassem em paz.

Que a deixassem em paz com a sua solidão infinitamente láctea.

 

 

* "Floriza" é um trabalho de ficção premiado no Concurso Paulo Leminski de Contos, promovido pela Unioeste - Universidade do Oeste do Paraná.

 

  Silas Correa Leite - E-mail: poesilas@terra.com.br

 

 

 
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