Pravda.ru

Notícias » Desporto


A "coincidência retórica" do governo bolsonarista e o nazismo brasileiro

23.01.2020 | Fonte de informações:

Pravda.ru

 
A

A "coincidência retórica" do governo bolsonarista e o nazismo brasileiro

 

por Raul Longo(*)

 

Nesse país está se cometendo uma tremenda injustiça com Ricardo Alvim. Que seja um idiota é evidente, pois se não o fosse como poderia ocupar cargo de confiança desse governo? Mas não é idiota por ser nazista. Idiotas são os que só agora se deram conta de haver elegido um governo nazista. Esses são nazistas e nem desconfiam.

 

Os que já haviam se dado conta do que fizeram ao país em 28 de outubro de 2018, foram apenas vítimas das circunstâncias: Lula preso, enxurrada de fake News, condicionamentos por pastores evangélicos, campanhas de mídia, etc... Tantos etcéteras que se sobrepuseram ao barulho do mundo gritando em vários idiomas o "Ele não!". Nunca um candidato à presidência de país algum conseguiu mobilizar tanta gente em todos os continentes, mas como se ter informação do que a mídia brasileira monopolizada omite? Só após a eleição é que se percebeu que desde Adolf Hitler nenhum político mereceu tanta aversão internacional.

 

Nem Nixon nem Bush nem Trump. Bolsonaro está acima de todos e até de Hitler, que só foi tão rejeitado pela humanidade a partir da invasão da Polônia, pois enquanto candidato ao governo da Alemanha era admirado mundo afora.

 

Portanto, se Ricardo Alvim é idiota, não o é por haver plagiado Goebbels ou por usar a música de Wagner que se tornou hino dos nazistas. Pra começar, Richard Wagner morreu em 1883, portanto nunca foi nazista, ainda que em determinada altura da vida se tornasse antissemita, descrevendo os judeus como "ex-canibais, agora treinados para ser agentes de negócios da sociedade".

 

Foi então que compôs a ópera Lohengrin, usada pelo Alvin, considerada pelos estudiosos da obra de Wagner uma de suas exegeses ao antissemitismo, mas, por mais nazista, difícil imaginar que o Alvim tenha algum conhecimento sobre Wagner, além da predileção de Goebbels pela lúgubre Lohengrin. Se fascista de tempos outros, Alvin teria escolhido o Carlos Gomes e plagiaria o Gonçalves Dias, mas os atuais são mais diretos e transilvânicos, seguindo o modismo lançado por José Serra na primeira década, e com magistral interpretação de Michel Temer na temporada de 2016 a 2018, porém superado pela atual montagem da tragicomédia, em versão tão tétrica que nem dá para rir.

 

Retóricas ou não, as coincidências entre Goebbels vão além da iluminação e postura facial para as câmeras, pois certamente o alemão também não sabia que antes de se imbuir de antissemitismos, Wagner integrou o Vaterlandsverein, partido político fundado em março de 1848, por ideais revolucionários, para implantação do socialismo e comunismo na Alemanha. Wagner compôs o braço armado do movimento: a Guarda Comunal Revolucionária. Em Dresden, de armas em punho, ele e Bakunin, o anarquista russo, comandaram as barricadas de resistência ao exército prussiano. Passaram a noite de 4 de maio de 1849 sendo bombardeados. De manhã Bakunin foi preso, e Wagner fugiu com Minna, sua primeira esposa. Se voltasse para Alemanha seria condenado à prisão perpétua como foi Bakunin.

 

Mais tarde Bakunin foi entregue ao tzar para cumprir a mesma pena na Rússia, mas em 1857, por intercedência de sua mãe, conseguiu comutação da pena para deportação. Wagner não pôde pôr os pés na Alemanha durante onze anos.

 

Outra coisa que Alvim não sabe, e provavelmente Goebbels também não soubesse, é que Wagner teve um longo e tórrido relacionamento sexual com seu tutor, Luís II, rei da França. Essa passagem foi registrada pelo homossexual marxista Luchino Visconti, também admirador de Wagner, no filme Ludwig, produzido em 1973.

 

Luís pagou todas as dívidas de Wagner e o manteve com pensão para custear vida luxuosa em mansão próxima ao Castelo de Berg, em Luxemburgo, residência de verão do rei. O caso tornou-se escandaloso e virou crise institucional, sobretudo pelo incômodo dos ideais políticos de Wagner e, em 1885, Luís foi obrigado a banir o amante, já então casado com Cosima, filha de Franz Litz. Mas continuou mantendo o casal em Zurick, Suíça. No ano seguinte o rei não se conteve em sua paixão e numa carta revelou a decisão de renunciar ao trono, abandonar tudo, para viverem em trio conjugal. Cosima e Wagner tiveram de convencer o rei a não cometer tal loucura, lembrando que perderia a fonte da pensão e todos estariam na miséria.

 

Em 1868 Wagner tornou-se amigo de Nietzsche, o que a ignorância nazista interpretou como confirmação do suposto antissemitismo do filósofo, em verdade uma reinterpretação de seus escritos pela irmã Elizabeth Förster-Nietzsche, casada com o racista Bernhard Föster, que tentou criar no Paraguai a colônia Nova Germânia, pela qual pretendia comprovar a "superioridade da raça alemã". O fracasso do projeto levou Föster ao suicídio no guaranítico Paraguai, em 1889.

Naquele mesmo ano, movido por seu caráter impulsivo, que em outras vezes já o acometera de convulsão emocional, Friedrich Nietzsche atira-se sobre um cavalo, para salvar o animal da crueldade de seu dono. Por este episódio, sob o testemunho público, com apoio de autoridades médicas e jurídicas do grupo de racistas que frequentara com o falecido marido, a viúva obteve a interdição e tutela do irmão.

 

Segundo denúncias do próprio Nietzsche, em cartas aos amigos postumamente reunidas sob o título Cartas da Loucura, a irmã administrava-lhe entorpecentes e apropriara-se de suas obras. Apesar de estranhar a degradação do primoroso estilo de escrita do filósofo e poeta, não suspeitavam resultar de outros efeitos que não da loucura alegada por Elizabeth. Somente mais tarde se descobriu que as acusações de Nietzsche eram antigas, e numa carta à mãe, escrita cinco anos antes de sua interdição, reclamou à Franziska Nietzche: "... Este é apenas um exemplo de centenas de casos nos quais a perversidade fatal da minha irmã em direção a mim mostrou-se. Naturalmente sei há tempos que ela não descansará enquanto não me ver morto.  Já faz muitos anos que tenho que me defender de Lisbeth, de fugir dela como um animal que esteja sendo torturado até a morte; eu supliquei que me deixasse em paz, mas ela não parou de me atormentar por um instante sequer."

 

Quando os racistas com que Lisbeth se relacionava assumiram a ideologia nazista, como única detentora das inéditas obras do irmão, transcreveu os originais adaptando-os ao gosto de seus amigos, projetando-se entre o Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei, como irmã do que se adotou como filósofo do nazismo, até se descobrir ter sido exatamente o inverso do que apregoavam através de inúmeras expressões do próprio Nietzche, como em outra de suas cartas: "Meu querido amigo! A última nova é a preocupação em relação ao meu editor. O maldito antissemitismo está arruinando minhas chances de autossuficiência financeira, de alunos, novos amigos, influência, etc. Está me separando de Richard Wagner, e é a causa de um radical rompimento entre mim e minha irmã."

 

O gosto de certos historiadores por superficialismos emocionais criou a ilação de suposta paixão de Nietzsche por Cosima ter motivado o rompimento da amizade com Wagner, mas, além das severas críticas ao antissemitismo do compositor, o filósofo nunca revelou outros sentimentos a respeito de Cosima, além da amizade que o levou à intimidades como reclamar da interferência da irmã, impedindo a evolução de suas relações com Lou Andres-Salomé, única mulher por quem se confessou enamorado.

 

Por fim, quando se deram conta de que foram ludibriados, os nazistas queimaram os livros de Nietzsche em praça pública, mas até então já haviam feito o favor de resgatar suas obras para o mundo, comprovando que isso de nazista idiota não é nenhuma exclusividade do Ricardo Alvim. E a interpretação de Goebbels caboclo não foi a real demonstração da típica idiotice. Idiota mesmo é a desculpa de coincidência retórica e da casualidade da escolha do Lohengrin como fundo musical.

 

Se minimamente inteligente e de algum caráter, Alvim teria assumido ao estilo do "Sou, mas quem não é", desafiando: "Aponte-se quem não seja". Teria o mesmo efeito do "atire a primeira pedra...", pois o que não falta na História política do Brasil é nazista.

 

Comentando o núcleo-duro do nazismo no governo de Getúlio Vargas no livro O Atentado da Rua Torneleros, Cláudio Lacerda Paiva reuniu vários numa única frase: "quem censurava era Lourival Fontes, quem torturava era Filinto Muller, quem instituiu o fascismo foi Francisco Campos, quem deu o golpe foi Dutra e quem apoiava Hitler era Góis Monteiro".

 

Além de integralista, como diretor do Departamento de Imprensa e Propaganda do Estado Novo, o jornalista Lourival Fontes talvez tenha sido o primeiro Goebbels brasileiro. Como Ministro da Educação, Francisco Campos introduziu o nazismo no currículo escolar através das famigeradas aulas de educação cívica. Dutra comandou o massacre de seus colegas de farda na Insurreição da Aliança Nacional Libertadora, que Filinto Müller transformou em Intentona Comunista, apesar de não ter ocorrido a participação de sequer um comunista.

 

Até hoje a imprensa brasileira ainda insiste na tal Intentona que nunca aconteceu, mas serviu de desculpa para o também integralista Müller torturar e matar os poucos integrantes do então proscrito Partido Comunista, além de entregar a judia-russa Olga Benário, grávida de Luís Carlos Prestes, à Gestapo. Ou seja, se Müller foi um fascista integrante da AIB, a imprensa brasileira continua sendo, apesar de monopolizada por oligarquias judaicas como as das famílias Mesquita, Civita, Marinho, Sirotsky, etc.

 

Sempre que citados os Marinho, deve-se ressalvar que o fundador de O Globo, Irineu Marinho, falecido menos de um mês depois de lançado o primeiro número do jornal em 1925, pautou sua existência como ativo militante nacionalista; mas hoje isso de nos anos 30 do século passado tanta gente se afirmar nazifascista aparenta natural, já que muitos acreditavam que Hitler salvaria o mundo de Stálin. Mas, depois de Stálin obrigar a rendição do Reichstag, salvando o mundo de Hitler, a História continuou, e, passadas duas décadas do fim da Segunda Guerra, à exceção de Lourival Fontes, afastado da política depois de cumprir mandato de senador até 1963, vindo a falecer em 1967, e do general Góis Monteiro, que morreu em 1956, todos os demais participaram da implantação do mais longo período nazista da História do Brasil.

 

Francisco Campos foi o autor dos dois primeiros Atos Institucionais da Ditadura Militar e um dos artífices da Constituição de 1967. Tentando voltar à Presidência, depois de seu desastroso governo entre 1946 e 1951, foi Gaspar Dutra quem convocou os oficiais da ativa para o golpe de 1964, chegando a disputar a indicação à Presidência com Castelo Branco.

 

Em 1966 se lançou a 4ª edição do livro do compositor e jornalista David Nasser: Falta Alguém em Nuremberg - Torturas da polícia de Filinto Strubiling Müller, originalmente publicado em 1947, quando Nasser apregoava a importância do livro para se erradicar esta e outras tétricas personagens do cenário político nacional, como Amaury Kruel, o general que crua ou cruelmente vendeu o país por seis malas de dólares, ainda lacrados por tarjas do New York City Bank, conforme testemunho do então Major Erimar Pinheiro, um dos sobreviventes dos mais de 6,5 mil militares nacionalistas perseguidos pela Ditadura dos Militares nazistas, estes com a desculpa de salvar o país dos comunistas, que só foram enfrentar 9 anos depois no Araguaia, quando um efetivo de 5 mil homens, com apoio das Forças Aéreas, em dois anos exterminou mais de 400 sertanejos e cerca de 60 guerrilheiros.

 

Porém nem a 4ª edição do Falta Alguém em Nuremberg impediu Strubiling Müller de presidir a ARENA, pela qual foi senador até em 1973, quando morreu em desastre aéreo. Mas nazistas são como Nosferatu, sempre buscam oportunidade para voltar a assombrar e se multiplicar a cada mordida, e o mais seguro, segundo a literatura de terror, é bala de prata e estaca no peito. Getúlio até renegou o nazi-fascismo, mas já havia dado a mão ao Plínio Salgado, o que até hoje pesa em seu memorial biográfico, como já pesa internacionalmente no histórico das Forças Armadas e da Mídia brasileira. Está pesando sobre o Sistema Judiciário, conforme percebido e confessado pelo ministro Gilmar Mendes, e pesará às Igrejas Evangélicas que já formam exércitos de milicianos e até criaram um evangelismo do tráfico de drogas, armas, órgãos humanos, crianças e escravas sexuais, tudo em nome de um Cristo tirado sabe-se lá de onde.

 

Com todos e tantos nazistas entranhados na vida nacional, a desculpa da "coincidência retórica" do Ricardo Alvim é de gritante estupidez, mas também não deixa de ser enorme injustiça isso de crucifica-lo. Nisso os evangélicos estão sendo efetivamente cristãos, requerendo a mesma impunidade que as instâncias do poder nazista, que manda no país por décadas, sempre dedicou a toda direita brasileira. Afinal são todos iguais ao Deus nazista dos Irmãos Macedo&CIA, ou não?

 

Se o Messias Bolsonaro, que é Messias, pode, como se vê por este link https://video.twimg.com/ext_tw_video/1218339018389192704/pu/vid/640x360/RuJrXwfvRUzvPt2t.mp4, por que o coitado do Alvim não pode? Quem pesquisar pelo Blog do Esmael encontrará o semianalfabeto Ministro da Educação versando a autobiografia do próprio Hitler, Mein Kampf (Minha Luta), publicada em 1933. No original o texto diz: "... Os judeus são o topo do país. Eles são o topo das organizações financeiras; eles são os donos dos jornais; eles são os donos das grandes empresas; eles são os donos dos monopólios...". Abraham Weintraub atualizou para 2019 afirmando: "Eles (a esquerda brasileira) são o topo das organizações financeiras; eles são os donos dos jornais; eles são os donos das grandes empresas; eles são os donos dos monopólios".

 

Tá certo que Weintraub não explicou como é que, sendo tudo isso, em toda a História do Brasil, a esquerda só governou de 1961 a 1964 e de 2003 a 2015, nas duas vezes tendo sido deposta por golpe da direita; mas é "imprecionante", de provocar "paralização" ou "suspenção" de ar, tamanha injustiça maculando o Alvinho, que em 2011 já foi precedido por Fernando Henrique Cardoso, este usando a mais famosa máxima de Goebbels. Apesar de ser a mais famosa frase de Goebbels, um desses nazistinhas de internet que recorre a vários pseudônimos para escamotear sua real identidade, manjadíssima, desde uns estelionatos praticados ainda no governo de Collor de Melo, ridiculamente insiste em conferir a autoria da frase ao Mao Tse Tung, mas, apesar da similaridade de caráter, FHC não é tão idiota e adaptou o "repetir a mentira mil vezes até que se torne a verdade" como "repetir, repetir e repetir, à maneira do publicitário 'Beba Coca-Cola'". Aí até daria para o ex-presidente alegar eventual coincidência retórica. Como o plágio se inseriu no longo artigo O Papel da Oposição, amplamente divulgado e exaltado pelos veículos impressos da época, também se poderá alegar estratégia de marketing para um dos patrocinadores do 'Movimento Difuso' de 2013, que não emplacou em 2014, mas foi intensamente aplicado pela mídia em 2015, através do mantra "Apesar da crise...", abrindo cada informação do bom desempenho de todas as atividades produtivas do país, apesar de trancadas pelo Eduardo Cunha.

 

Enfim, o repetir a mentira da crise econômica milhões de vezes provou que, quando plagiado por FHC, Goebbels funciona, visto que, depois do golpe, a crise realmente virou uma verdade insofismável para o povo, ainda que a mídia nunca mais tenha voltado a tocar no assunto, desde o consumado em 2016. E agora querem se esconder nas sombras do coitado do Alvim, como se há décadas não vivessem um cotidiano de Goebbels, de manhã à manhã, em todas as bancas de jornais e revistas.

 

Para finalizar tanta hipocrisia, o hitlerzinho caboclo pede desculpas às elites da comunidade judaica. Tudo bem que não peça às das demais religiões nem precisaria, pois ninguém ignora que raízes indígenas e afro-descentes estão no programa genocida, com reservas dos índios e dos quilombolas transformadas em campo de extermínio, o que até dá saudade dos velhos fascistas que usavam símbolos nacionais e se saudavam em tupi: "Anauê!" Agora é como prega o cafuzo vice-presidente: acabar com negro, porque é malandro, e com o índio, por ser vagabundo.

 

De qualquer forma o general Mourão demonstrou em si mesmo que nazista não tem raça e será o mesmo nazista, sejam quais forem suas origens étnicas. Mas isso de pedir desculpas à comunidade judaica por parafrasear Goebbels é coisa de quem não tem noção de quais são os grandes nazistas do mundo atual. Se somar todos os palestinos concentrados no campo de extermínio em que também transformaram a Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém Oriental, não faz os 6 milhões que dizem ter sido o total dos mortos pelos antigos nazistas, mas incluindo os que vivem em Israel e Jordânia chega perto. A questão é que, tirante esses, a maioria dos palestinos teve de fugir do país e se espalhou pelo mundo. O perigoso disso, de nazismo, é como foi com os próprios judeus: as vítimas de hoje poderão amanhã retornar como vampiros.

 

A comunidade judaica que se cuide com as coincidências dos nazistas brasileiros. No caso do Alvim, se pode dizer que o vampiro foi e está sendo vampirizado.

 

*Raul Longo, jornalista, escritor e pousadeiro.  

 

 
22592

Fotos popular