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O Brasil decidiu ser pobre!

11.03.2015 | Fonte de informações:

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Por Alexandre Kostolias em 06/03/2015

Título estranho. Quem escolheria ser pobre? Quem faz uma escolha destas? Como foi que isto aconteceu?

 A ideia original certamente não é minha. O grande maestro Tom Jobim, aquele que traduziu a música brasileira para o mundo (Vinícius de Moraes disse certa vez não gostar de "critérios competitivos, mas que na América Latina, é Tom e Piazolla"), opinou certa vez, num depoimento, que o Brasil decidiu ser pobre. Comparou o Brasil com o seu perfeito oposto, o Japão, um país paupérrimo em recursos naturais que resolveu, há décadas, ser rico. Outro exemplo seria a Coréia do Sul. Um mais chocantes ainda é Cingapura, porto fedorento e atrasado nos anos 50 e hoje, um dos cinco países de maior desenvolvimento econômico e humano do mundo.

Agora é a Índia, o "elefante que decola", contrariando seus hábitos milenares de privação e miséria, que está impressionando o mundo. Quanto à República Popular da China, que (se prevê que) em 10 anos será o país mais rico do mundo, em PIB a preços de mercado, esta já declarou oficialmente que bom mesmo é ser milionário. É ser um Camarada Capitalista. Adeus às ideologias!

Na contramão, temos a Argentina, há 100 anos uma das nações mais prósperas do planeta, que optou pelo seu próprio empobrecimento gradual. O que foi no passado uma grande nação em muitos sentidos, é hoje uma vítima de suas próprias escolhas.

O Brasil, com a maior reserva de água doce do mundo, com as maiores reservas da maior parte dos minérios, com o maior potencial agro-pecuário do planeta, com um litoral gigantesco, com um capital humano fácil de ser treinado e fascinado pelas novidades tecnológicas, parece ter optado por ser pobre. Esta opinião não é minha, é de quase todos os analistas internacionais das mais diversas tendências. O Brasil é o gigante que decolou para logo abortar o vôo.

No contexto da entrevista acima mencionada, o maestro Jobim chamava a atenção para certas características culturais brasileiras. Parece até que o chique era ser pobre. A miséria inspirava mais do que qualquer história de realização humana. "O Cortiço""Vidas Secas""Macunaíma", Canudos, quase tudo do Cinema Novo, do Modernismo, se inspirou na pobreza, na exclusão e na marginalidade. Não cabe aqui avaliarmos a qualidade destas obras, muitas de impacto mundial, mas apenas registrar as tendências de inspiração na arte brasileira contemporânea. Temos também uma fascinação contumaz pelo fracasso. Tom disse que todo sucesso alheio é maldito e invejado (ele próprio foi um exemplo disso quando fez sucesso no Carnegie Hall, em Nova York). Como se o fracasso fosse um dever de todos, uma obrigação nacional.

Refletindo sobre as nossas raízes, será isso um reflexo da nossa origem católica, de um voto de pobreza compulsório e ancestral, com dezenas de Papas nos exigindo (à semelhança com o Pecado Original), uma permanente "mea culpa" através da história enquanto eles viviam num esplendor sem paralelo no Vaticano? Ou será fruto da velha mania de proclamarmos ao mundo a nossa "dependência", a nossa incapacidade de resistirmos ao saque das nossas riquezas que nos impõe malvados imperialistas, neocolonialistas e neoliberais?

Os escândalos que se sucedem a cada dia (Mensalão, Petrolão, Lava-Jato, Pasadena, o uso da Bolsa-Família como curral eleitoral, e outros que já "esquecemos", que ficaram no passado)), não são dignos de uma grande nação, parecem mais chicanas de uma republiqueta de bananas. O mundo está chocado com o nosso atoleiro, até mais do que nós mesmos.

O fato do Brasil ser o país mais violento do mundo em termos absolutos - em número de homicídios e de acidentes fatais de trânsito - também não deveria nos envaidecer de orgulho varonil. A falta de uma busca de soluções e de políticas eficazes de segurança pública (a quinta ou sexta de nossas preocupações em ordem de grandeza) também corrobora a hipótese de que decidimos permanecer pobres e vitimados.

Ser rico ou pobre (não só economicamente, mas moralmente, educacionalmente, culturalmente, cientificamente) não é somente uma escolha pessoal e de gerações de famílias, é uma opção da sociedade ao longo dos séculos.

Recentemente optamos (por escolha democrática da maioria) por esquemas de distribuição de bolsas, por políticas pobres e incompetentes (não vou nem mais mencionar a corrupção galopante e sistêmica) à possibilidade de crescimento econômico, de investimentos nacionais e internacionais produtivos, à fazer jus à classificação de "país emergente". Com anos consecutivos de crescimento zero (será que presenciamos mais uma década perdida?), agora ainda vamos ter que amargar inevitáveis aumentos da carga tributária, através da manutenção velhos e da criação de novos impostos, criatividade para tal nunca falta. Vamos ser esfolados.

O mundo pede de joelhos que o Brasil volte a crescer, o que o nosso país tem potencial para produzir é de importância fundamental para chineses, estadunidenses, russos, africanos e europeus. No entanto, preferimos pensar pobre e permanecer pobres. Queremos ser pobres, tutelados pelos burocratas de plantão e docemente subordinados aos seus caprichos e interesses pessoais. A transferência de renda por meio de programas sociais pode funcionar até certo ponto, mas qual é a auditoria independente que fiscaliza o processo? O aumento real do salário mínimo teve sucesso num determinado momento, mas é preciso mais, muito mais. É preciso que cresçamos como indivíduos, como sociedade, como nação, que acreditemos em nós mesmos. Preferimos ficar na dependência do Estado, depender de benefícios eleitoreiros, gostamos de ser tutelados e enganados por uma demagogia primária. Não queremos tomar o nosso futuro pelas nossas mãos. Não é assim que se sai da adolescência nacional.

Enfim, a grande pergunta: será que estamos de volta ao país do futuro?

 

*Alexandre Kostolias (pron. Kostólias) nasceu no Rio de Janeiro, Brasil, em 1949, filho de pai grego, Yannis, e mãe brasileira, Gilda. Viveu a sua infância e parte da vida adulta nos Estados Unidos; estudou operações de aeronave na Alemanha, viajou por quarenta países, incluindo o Egito, Índia, Nepal - onde chegou de jipe até o Tibet - e Japão, além de quase todo o Brasil. Graduou-se na San Francisco State University, Magna Cum Laude, em Relações Internacionais, em 1985. Estudou na University of California, Berkeley, e atua hoje como consultor de empresas (treinamento em RH e Relações Internacionais). Treina profissionais de diversos setores para desempenhar suas funções em inglês com fluência a nível profissional ou acadêmica (Language Coaching). Vive no Rio de Janeiro e se dedica cada vez mais aos seus projetos literários.

Sua primeira obra publicada no Brasil foi MEU AVÔ GREGO, Editora Panda Books, São Paulo, 2010. UM BREVE SUICÍDIO EM VIENA (Editora Oito e Meio, Rio de Janeiro, 2012) marca o ingresso do autor no mundo do romance. Com uma abordagem crítica, sutil e bem-humorada discorre, através de Eugenio, um antiherói habitante do universo kafkiano, sobre questões existenciais do homem contemporâneo: vaidade, sucesso e fracasso, paranóia, fobias diversas, depressão, e também sobre a beleza da vida, do amor e da superação humana.

http://www.debatesculturais.com.br/o-brasil-decidiu-ser-pobre/

 

 
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