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Violenta Ofensiva da Ultradireita na América Latina

07.04.2016 | Fonte de informações:

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Violenta Ofensiva da Ultradireita na América Latina

Venezuela e Brasil: exemplos da reedição do bombardeio made in USA contra a democracia latino-americana. A Venezuela é também exemplo à sociedade brasileira, que parece sofrer da amnésia mencionada por Eduardo Galeano ao se permitir ser pautada pela mídia grande, e por clamar por saídas inconstitucionais e violentas ao país

Edu Montesanti (*)

Dois assassinatos de líderes bolivarianos, em Caracas e em Trujillo, de mais dois policiais da Guarda Bolivariana chamados para conter manifestações violentas da ultradireita em Táchira, e a de um ativista pelos direitos humanos pró-governo em Caracas, tudo isso em menos de uma semana: silêncio absoluto por parte da ditadura da informação da grande mídia, das principais organizações por direitos humanos, das elites internacionais e do regime de Washington.

Enquanto isso no Brasil, encontra-se no perfil do Movimento Endireita Brasil no Fez-Se Buque do Mark Zückerberg ("laranja" da CIA), um agrupamentos dos que lideram as manifestações massivas no gigante sul-americano (apenas para citar os "comentários" mais "moderados", já que outros tantos não poderiam ser citados aqui por respeito á família, à moral, à religião, aos bons costumes e à democracia), estas seguintes mensagens publicadas nos dias 3 e 4 de abril:

 

Fabiana Collistet "Vim ver os comentários pra entender essa postagem e Vejo um monte de comentários esquerdistas"

Movimento Endireita Brasil "Estamos limpando."

 

Ubiratan Carlos Barcellos "Bolsonaro vem ai 2018!!!!" [O deputado Jair Messias Bolsonaro, PP-RJ, é militar da reserva e defende retorno à ditadura. Algumas frases de Bolsonaro: "O erro da ditadura foi torturar e não matar";  "Pinochet devia ter matado mais gente"; "Mulher deve ganhar salário menor porque engravida"; "Parlamentar não deve andar de ônibus"]

George Sousa Lima "Esses filho de uma p+++ não treina nada não sabe dar nem um soco e fica ameaçando! Eu com minha faixa branca de jiu jitsu dou conta de uns 20 desses velhos buxudos aí! Pode vim PTralhas!"

 

André Fabiano "Eu só queria uma guerra civil! Iria caça-los sem misericórdia! Fora Dilma! Fora PT."

Marcos Vinicius Brito "O povo tem que entender que o PT ta matando! E oque vc faz com quem quer te matar?"

Oscar Mendes Filho "Bora oprimir o lixo petralha."

Dave Johanson "bando de pão com mortadela com medo de perder a mamata kkkkkkkkkkkkkkkk"

Este abaixo, esbanjando o velho espetáculo da despolitização coletiva, imperante também no Brasil de hoje principalmente entre os setores reacionários:

Yjd Rch "Eu não sabia o que era socialismo/ comunismo, só ouvia o meu avo, que já é falecido, dizer, que se o Lula e PT ganhar, o Brasil ia falir, porque o PT é comunista, eu ouvia ele falar isso quando eu ainda era criança, no entanto eu não entendia, porque ele falava isso, eu não tinha idéia do que era isso; até estudei sobre isso no Colégio, só que os professores nunca explicavam, de fato, o que era o socialismo / comunismo, eles sempre diziam que o socialismo / comunismo era bom, e muitos acreditavam no que os professores falavam, porém eu, apesar de não saber, realmente, o que era socialismo / comunismo, sabia que não era bom, por isso, nunca votei em partidos socialistas / comunistas"

Detalhe: em uma das postagens, o movimento em questão alegava: "Não tá fácil pra ninguém! Em tempos de crise... [imagem de um pote de iogurte de plástico]". Outro detalhe: o Movimento Endireita Brasil, cujos líderes e seus seguidores são de classe média e alta, é o mesmo que, dia 1º, fez as vezes de Silvio Santos e ofereceu mil reais a qualquer cidadão... não por mera benevolência, ou assistência escolar/familiar, mas para quem agredisse o ex-ministro Ciro Gomes que jantava em São Paulo, e fosse capaz não apenas de gerar reação deste mas também de filmar o entrevero.

Tais palavras são apenas uma pequena mostra da truculência e do revanchismo que se traduzem em violência nas ruas, tudo isso subproduto do ódio de classe e de cor fortemente enraizados na elitista sociedade brasileira, motores da agitação social que toma conta do país nestes tempos. País sem lei para coibir este tipo de ameaça e ofensa, onde não há justiça (por mais que as aparências enganem) com um governo esperadamente de joelhos diante deste tenebroso cenário.

Enquanto a reação política anda de mãos dadas com a ignorância (cuja figura internacionalmente emblemática é o ex-senador norte-americano, Joseph McCarthy, podendo ser sua versão brasileira, por exemplo no campo religioso, o pastor Marco Feliciano), essa onda de ódio e terrorismo é promovida pelo monopólio midiático, e para quem ainda tem alguma dúvida, pergunte-se: e se a situação fosse invertida, qual seria a abordagem midiática predominante?

E mais: qual seria a posição aberta do regime de Barack Obama e dos alegados defensores internacionais dos direitos humanos?

Contudo, a principal pergunta que se coloca especialmente dado que existe perfeita conexão internacional entre os fatos, não apenas entre Brasil e Venezuela mas em toda a região inclusive por parte de personagem e de instituições manipulando esses acontecimentos, é: o que ocorre, e para onde se quer levar a América Latina?

Guerra contra o Povo na Venezuela

Logo no início das violentas manifestações oposicionistas no país com as maiores reservas petrolíferas do mundo, exatamente a Venezuela, em fevereiro de 2014 (agitações comprovadamente financiadas e treinadas por Washington como em outros países que, de alguma maneira, contrariam aos interesses de Tio Sam), na contra-mão da abordagem midiática predominante este autor, sem nenhuma aptidão para ser profeta, afirmou convictamente no Observatório da Imprensa, Brasil (não sem ter sido ridicularizado e ofendido), exatamente em 24 de fevereiro daquele ano:

"Essa nova ofensiva fascista deve fracassar na Venezuela. Os mais recentes acontecimentos e a estrutura sócio-política venezuelana apontam que a democracia vencerá uma vez mais, a vontade popular cingirá novamente o país vizinho com a cor de vinho ancestral em nome da continuidade da Revolução Bolivariana. Tão apaixonada quanto racional lógica por excelência."

Quando o caos estava instalado em microfocos no país caribenho (contrariamente ao que vendia a mídia, que as manifestações estavam espalhadas por todo o país) e tudo parecia perdido diante da opinião pública mundial em relação ao governo bolivariano, com direito à comemoração recheada de chacotas por parte dos "comentaristas" do oligopólio midiático, eis que a situação havia se revertido pró-governo: desmascarada diante de toda a nação e do mundo bem informado, a oposição acabou sem saída, completamente desmoralizada, e por conseguinte, os violentos manifestantes que, de estudantes, não tinham nada.

Quase um mês depois, vitória tão democrática quanto pacífica da demonizada República Bolivariana da Venezuela: para que isso ocorresse, a sociedade civil desempenhara papel fundamental com senso cidadão e ativismo exemplar, em peso nas ruas das principais cidades do país após dias do espetáculo do horror da ultradireita que parecia dominar determinados pontos do país. Diminuiu os espaços dos agressivos cidadãos de classe média e alta, "profissionais" na arte de aplicar golpe (que já havia ocorrido em 2002 contra Hugo Chávez, igualmente sem sucesso).

A democracia havia vencido novamente na Venezuela. O silêncio midiático, por sua vez, era internacionalmente ensurdecedor.

Desconsiderava-se durante aquelas semanas efervescentes que o presidente Nicolás Maduro, há menos de um ano eleito, atingia popularidade em alta segundo pesquisas independentes, e pouco depois seria pontuado o líder mais popular da América Latina. Outra óbvia questão desconsiderada: como e por que um líder com altos índices de aprovação, seria tão raivosamente contestado por uma minoria, ecoada fortemente pela mídia que, então, a transformava em maioria?

Porém, a guerra civil - bem diferente da noticiada pelo mesmo setor midiático promotor dos golpes militares no Brasil e em toda a América Latina - continua: "A Venezuela está se tornando um lugar difícil para esquerdistas", escreveu Ryan Mallett-Outtrimem Venezuelanalysis.com neste dia 4.

Versão caçoada pela mídia predominante, em parte ecoada por seus macacos-de-auditório de plantão, a realidade é que se busca por parte da elitizada oposição local, em comprovada parceria com Washington (assim como no golpe de 48 horas contra Hugo Chávez em abril de 2002), aplicar golpe contra o presidente Maduro: o que não se tem conseguido nas urnas e nem através de escândalos diretos de corrupção, tenta-se obter por meios ilegais nem que se valha de toda a sorte de agressão, inclusive da força física excessiva.

Ódio Étnico, Regional e de Classe no Brasil

No caso particular do Brasil, o governo pela metade do Partido dos Trabalhadores (pela metade para se dizer cheio de boa-vontade, desconsiderando aquilo que não fez) recusou-se a promover a reforma política, aliou-se ao que existe de pior deixando como "alternativa" uma figura como Michel Temer, e nem se dispôs a enfrentar a batalha (árdua, é verdade) em direção à regulação da mídia.

Deixou de tomar vantagem de se aliar ao povo quando gozava de ampla popularidade, especialmente em junho-julho de 2013 quando os clamores populares apontavam nesta direção. Imaginando que se servindo das benesses do poder, receberia em retorno a cumplicidade de seus velhos inimigos, hoje prova do seu letal veneno enquanto depende desesperadoramente dos que outrora acusava de "esquerda radical".

Mesmo diante disso tudo, seria no mínimo muito ingênuo imaginar que os setores oposicionistas ao governo hoje travam uma luta contra a corrupção: basta uma simples verificação da estatura intelectual e moral desses próprios setores. 

Na realidade, a elite brasileira e mesmo amplos setores da classe média sempre mantiveram profunda nostalgia do regime militar; a histeria se acentuou com a ascensão de Luiz Inácio Lula da Silva, ex-líder sindical nordestino, de origem pobre (cresceu na roça), quem até os 10 anos de idade não sabia sequer ler. O próprio PT e seu maior líder são muitos vistos pela elite branca dos Estados Unidos, especialmente a da classe política.

Toda essa histeria, já forte marca das classes dominantes que se soma a uma peculiar ignorância, atingiu as últimas consequências com as políticas sociais dos governos de Lula de Dilma Rousseff os quais, a que pesem todas as limitações e equívocos em áreas primordiais, têm retirado milhões de brasileiros da pobreza extrema e, de certa forma, os colocado lado a lado com a intolerante classe média local.

É bem verdade que, por exemplo, enquanto implantou a política de cotas em favor de negros, pardos e índios nas universidades, o governo federal do PT não proporcionou condições a essas mesmas etnias de terem acesso à educação básica de qualidade, a fim de em um futuro (que já deveria ter chegado) não necessitarem mais das cotas.

Somado ao fato de que nunca os bancos lucraram tanto e nunca houve tanta fuga de divisas na história brasileira, quanto nestes 14 anos de PT no Palácio do Planalto, colocam em xeque a alegada "revolução social" petista".

Mas isso tudo é outra discussão, até porque mesmo essas políticas "pela metade" do PT, como construção de milhões de moradias populares sem melhorar em absolutamente nada saneamento básico e acesso à saúde, já é o suficiente para alarmar as classes mais favorecidas no Brasil. Uma coisa é certa, se é que pode servir de consolo ao PT e a seus apoiantes (e incrivelmente, tem servido de tão indiferente quanto longínquo consolo): os outros, aqueles que hoje pedem sua cabeça, certamente fariam pior. 

América Latina: De Novo Quintal Traseiro de Tio Sam?

Venezuela e Brasil são apenas dois exemplos do bombardeio made in USA contra a democracia na América Latina nos últimos anos. Bolívia, Equador, Nicarágua, Argentina sob Cristina Kirchner, Paraguai sob Fernando Lugo, Honduras sob Manuel Zelaya são ou foram outros governos mais voltados às causas sociais que, de alguma ou de várias maneiras, contrariaram interesses dos Estados Unidos e estão sendo ou foram vítimas de sabotagens, tentativas de magnicídios, agitações sociais artificiais e de guerra econômica.

No caso específico da Venezuela, o que fez este autor prever, no meio do olho do furacão venezuelano diante de um mundo alarmado, como terminariam aqueles artificiais protestos de elite na Venezuela não foram altas fontes venezuelanas, e nem muito menos um inexistente dote de "capacidades especiais".

Recorrer à história leva o cidadão a compreender o passado, e ter condições de projetar seu futuro, de ser protagonista da própria história. Ou esta se repetirá, trágica e inevitavelmente. Certa vez, em 23 de julho de 2013 o jornalista e escritor Eduardo Galeano, em entrevista ao jornal britânico de The Guardian, muito bem disse: "Meu grande medo é que todos nós estejamos sofrendo de amnésia. Escrevi para recuperar a memória do arco-íris humano, que corre perigo de ser mutilado".

Bem ao contrário da desastradamente "equivocada" (para usar eufemismo) postura do então Lula quando, em 2004, disse sobre a revogação da Lei da Anistia, que absolve crimes políticos à época ditatorial: "Passado é passado". Ou seja: esqueçamos os crimes de lesa-humanidade cometidos pelos militares durante os 21 anos de ditadura, contrariando inclusive condenações internacionais por tal omissão. Já dizia Nicolás Avellaneda (jurista argentino): "Povo que esquece seu passado, está condenado a vivê-lo novamente". Será?

A sociedade precisa de memória agora: memória para se dar conta, de uma vez por todas, que o caráter manipulatório e golpista da mídia predominante não mudou em nada, pelo contrário: pode-se dizer que até tem piorado dada a crise dos meios de comunicação, tanto de credibilidade quanto econômica (esta, em parte devido àquela). E para isso, não se requer sequer razoável conhecimento histórico dos fatos.

Memória nestes difíceis tempos para perceber que as mesmas forças que romperam o Estado de direito há 52 anos no Brasil, em 1º de abril de 1064, são as que atuam e manipulam hoje. A essência da Marcha da Família com Deus, pela Liberdade, impulsora do golpe militar que prometia uma "revolução democrática", era a mesma de hoje: o conteúdo é fiel em seus mínimos detalhes, inclusive na colaboração "intelectual" e financeira de Washington, que além de dinheiro tem a seu dispor o único exército capaz de invadir completamente uma nação: a mídia. E assim, manipular sociedades praticamente inteiras.

É necessário também realismo, natural consequência do uso da memória: realismo, não pessimismo e nem otimismo, mas realismo a fim de reconhecer que se vive uma reedição da Guerra Fria de péssima memória em toda a região mais rica em biodiversidade do planeta, e a mais rica em petróleo depois do Oriente Médio: exatamente a América Latina. Faz-se necessária a consciência de que os porões do poder estão polarizando sociedades, jogando uns contra outros ferozmente (milenar tática), e que o final disso não será nada animador. Ao menos não, se as coisas continuarem como estão. 

No caso particular do Brasil, o governo pela metade do Partido dos Trabalhadores (pela metade para se dizer cheio de boa-vontade, desconsiderando aquilo que não fez) recusou-se a promover a reforma política, aliou-se ao que existe de pior deixando como "alternativa" uma figura como Michel Temer, e nem se dispôs a enfrentar a batalha (árdua, é verdade) em direção à regulação da mídia.

Deixou de tomar vantagem de se aliar ao povo quando gozava de ampla popularidade, especialmente em junho-julho de 2013 quando os clamores populares apontavam nesta direção. Imaginando que se servindo das benesses do poder, receberia em retorno a cumplicidade de seus velhos inimigos, hoje prova do seu letal veneno enquanto depende desesperadoramente dos que outrora acusava de "esquerda radical".

Na Venezuela, ao longo destes 16 anos de Revolução Bolivariana a sociedade tem sabido fazer bem a leitura da história, unir-se em torno de um governo efetivamente voltado às classes menos favorecidas e à soberania nacional, mantendo assim a revolução em curso de pé aos também 16 anos de ataques diários por parte da ultradireita local (tão raivosa quanto a brasileira), e do regime norte-americano.

No Brasil, a solução é reivindicar mais democracia, unir-se em torno da defesa da Constituição sem apoiar o governo de Dilma por mais que se tente estabelecer esta polarização, inclusive por parte dos petistas e de seus meios dito "alternativos" que não admitem críticas (se não estão ao nosso lado, estão ao lado da direita): o Brasil carece de reformas urgentes as quais o PT, ao menos sua atual cúpula enlameada em casos de corrupção e no sujo jogo do poder baseado no toma-lá-dá-cá, já deixou claro não ter interesse em providenciar.

A guerra da ultradireita latino-americana está abertamente declarada, e se não se deseja retrocessos às épocas mais sombrias de nossa história, é necessário sair do "eles fariam pior que nós" do Partido dos Trabalhadores, para o "ataque": não o ataque da ultradireita, mas o das políticas que rompam definitivamente com as malditas oligarquias deste país. 

Como ao menos a curto-prazo parece tarefa praticamente impossível conscientizar a classe média do atual período histórico enfrentado pelo Brasil (para nem se dizer a classe alta), embora valha e seja necessária a tentativa, a esperança da democracia no Brasil está em no maior pilar de sustentação do nada democrático sistema capitalista: nas massas de trabalhadores. Ainda pode haver tempo, embora o PT tenha se esquecido desgraçadamente disso - transformou pobres em consumidores, não em cidadãos.

A despolitização decorrente da ausência de investimentos em educação está, previsivelmente, cobrando um alto preço no Brasil. O mesmo filme, de novo? De falta de advertência, ninguém no (já não tão doce) poder hoje pode reclamar...

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Edu Montesanti é autor de Mentiras e Crimes da "Guerra ao Terror" (Editora Scortecci, 2012), escreve para Global Research (Canadá), para Truth Out e Counterpunch (Estados Unidos), foi tradutor do sítio na Internet das Abuelas de Plaza de Mayo (Argentina), e da ativista pelos direitos humanos, escritora e ex-parlamentar afegã, Malalaï Joya. Ex-articulista semanal do Observatório da Imprensa (Brasil).

 

 
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