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OS PARTIDOS COMUNISTAS E O NACIONALISMO NO SÉCULO XX

27.10.2005 | Fonte de informações:

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Falar da história do comunismo no século XX não é fácil. Porque é uma história demasiado destorcida por mitos e propagandas - pro e anti. Foi o grande abalo ao poder dominante no mundo. E também por isso fonte abundante de preconceitos, idealizações e desilusões. Muito contraditória e plural, desde a tirania estalinista até ao comunismo libertário anarquista. E muito marcante ainda na actualidade política.

Esta conferência não escapou a esta dificuldade, mas foi enriquecedora, apesar da falta de contraditório e de espaço para debate.

Integrada num curso livre de história do século XX, promovido pela Biblioteca-Museu República e Resistência, sob o título "1917: Comunismos e Nacionalismos", apresentou uma interessante síntese de leituras da relação dos partidos comunistas ligados à União Soviética com a questão do nacionalismo.

Teve como eixo condutor a descrição de uma evolução do conceito de nação e nacionalismo, começando por Estaline e a sua obra O Marxismo e a Questão Nacional , em que se considera a nação como que um produto inevitável da história, dada a existência de comunidades estáveis caracterizadas por uma língua comum, entre outros factores. E acabando com Benedict Anderson, para quem a nação será mais uma construção política e ideológica, imaginada.

Grosso modo, o nacionalismo poderá ser visto como uma utilização de diferentes características culturais, acentuadas para disfarçar diferenças entre classes sociais e fundamentar projectos de conquista e manutenção do poder. E terá sido muito neste sentido que foi combatido, mas também utilizado por partidos comunistas ligados à URSS.

Outros aspectos foram abordados, como a distinção existente no discurso de diversos partidos comunistas e no discurso jornalístico entre um mau e um bom nacionalismo (este último identificável pela palavra patriotismo), a pluralidade e evolução de posições face ao colonialismo nos partidos comunistas e no movimento operário, as particularidades nacionais da leitura do marxismo-leninismo em diversos partidos comunistas, ou o papel do nacionalismo no desmoronamento da URSS e regimes satélites.

Ao contrário do que a data indicada no título parecia sugerir, esta conferência passou muito ao lado do que foi a Revolução Russa de 1917 e a imensa influência que exerceu na história do século XX. E também apresentou uma visão algo redutora do comunismo - muito anterior ao século XX, e que mesmo nesse século não foi apenas a URSS e os partidos ligados a ela.

É evidente que a URSS, e o movimento internacional de partidos políticos gerados em torno dela, foram a imagem e prática dominante ao longo do século XX (identificada com o comunismo). E que Estaline foi um líder bastante marcante, efectivo e imaginado, desse comunismo ao longo de cerca de trinta anos.

Mas as leituras ideológicas e as práticas políticas identificadas com o comunismo têm sido muito diversas ao longo da história. Antes do século XX, durante e depois.

Será fundamental distinguir o comunismo, enquanto ideologia de liberdade igualitária, na feliz definição de Galvano della Volpe, de práticas autoritárias que afrontaram profundamente essa ideologia. Particularmente alguns casos mais extremos referidos nesta conferência como o Cambodja de Pol Pot ou a figura de Estaline. Não para abandonar a história real em favor de uma abstracta história das ideias, mas como uma equação necessária para distinguir coisas efectivamente diferentes, e para compreender o destino (de falhanço) que teve a experiência soviética e afins. Particularmente nesta questão do nacionalismo, tal distinção e tal falhanço explicarão muito do recurso a teses nacionalistas como forma de legitimação do poder, como por Estaline na 2ª Guerra Mundial ou por Slobodan Milosevic na sua ascensão e exercício do poder. E explicará também como o nacionalismo terá sido a verdadeira base de rupturas e lutas por poder apresentadas com fundamentações de pureza ideológica, como o conflicto sino-soviético.

Por outro lado, apesar de ter havido várias propagandas a apresentar Estaline como paradigma teórico dos partidos comunistas, foi já bastante esmiuçado, por exemplo pelo historiador russo Roy Medvedev, que o contributo de Estaline nessa matéria foi muito pobre e pouco original. Secundário face a Lénine. Sublinhar este facto não conduz necessariamente a uma leitura redutora de "puros" e "impuros". Mas convida a centrar mais a atenção sobre a obra de Lénine, verdadeira fonte matricial das concepções dominantes nos partidos comunistas no século XX. E pode, pelo contrário, estimular uma leitura da relação entre leninismo e estalinismo que, simultaneamente, ultrapasse equívocos que os confundem e idealizações que de facto persistem acerca da "pureza" de um face à "impureza" do outro.

No que diz respeito à relação do Partido Comunista Português com o patriotismo, faltou esclarecer que quem a definiu não foi Álvaro Cunhal, mas sim Bento Gonçalves – veja-se particularmente a sua intervenção perante o tribunal fascista que o condenou em 1936.

 
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