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Carta aberta de Timothy Bancroft-Hinchey ao Primeiro Ministro de Portugal, José Barroso

27.03.2003 | Fonte de informações:

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Excelentíssimo Senhor Primeiro Ministro,

a sua posição sobre o ataque criminoso e assassino anglo-norte-americano contra o Iraque é bem conhecida, posição esta que provocou uma onda de revolta não só no seu parlamento mas também entre o seu povo. A manifestação no Sábado passado no coração de Lisboa por sensivelmente um por cento da população de Portugal, foi uma clara demonstração da vontade colectiva das pessoas que o senhor foi eleito a governar.

Senhor Primeiro Ministro,

gostaria de perguntar-lhe abertamente se ainda concorda com este crime de guerra, se concorda com esta iniciativa bélica anglo-americana que chacina civis e militares iraquianos fora da autoridade da ONU.

Senhor Primeiro Ministro,

como é que o senhor, que já deu aulas de diplomacia, pode justificar a sua posição de apoio a uma agressão armada contra um estado soberano sem o aval do Conselho de Segurança, assim violando a Carta das Nações Unidas?

Senhor Primeiro Ministro,

acha moral ou eticamente correcto ou de acordo com as normas da diplomacia internacional que um país use a chantagem nas suas relações diplomáticas, insinuando que se país A ou B não votar da maneira que quer, serão revistos os programas de apoio humanitário ou financeiro?

Senhor primeiro Ministro,

não acha que o acto de não voltar ao Conselho de Segurança da ONU para uma Segunda Resolução, que como saberá foi sempre necessário sob os termos das anteriores, só porque os EUA sabiam que não iriam conseguir os 15 votos necessários, foi um acto de tamanha arrogância e desrespeito pelos princípios da lei?

Senhor Primeiro Ministro,

Se Portugal fosse um dos 15 estados membros do CS da ONU, o senhor teria estado a favor dum ataque contra o Iraque quando as equipas de inspecção desta organização ainda estavam a seguir o seu mandato de acordo com as normas da lei internacional, ou teria abstido? Em qualquer dos casos, o senhor Primeiro Ministro teria aceite que de acordo com as mesmas normas, qualquer resolução no CS da ONU precisa de 9 votos a favor dos 15 membros e que qualquer uso de veto anula a resolução?

Senhor Primeiro Ministro,

Eu nunca pensei que chegaria o dia em que o Presidente dos Estados Unidos da América e o Primeiro Ministro do Reino Unido fossem criminosos de guerra e depois de 23 anos no seu país, nunca imaginei que pudesse chegar a hora de ouvir o Primeiro Ministro de Portugal pronunciar-se a favor dum acto ilegal, assassino, um acto que destruiu a autoridade da ONU e que deu uma facada mortal nas costas dos princípios de diplomacia internacional.

Senhor Primeiro Ministro,

Não acha que deveria ter vergonha pela sua posição a favor de crimes de guerra? Não acha que deveria ter vergonha por ter traído os princípios de lei, que como advogado, tem a obrigação de defender? Não acha que deveria ter vergonha por ter feito parte, voluntariamente, do Quarteto do Mal, que decidiu destruir o tecido de consenso mundial, baseado na diplomacia? Como antigo chefe da diplomacia portuguesa, o senhor tinha a obrigação de saber usar os canais diplomáticos apropriados.

Senhor Primeiro Ministro,

a população do mundo está a favor duma Nova Ordem Mundial, fundamentada nos princípios de debate e discussão, não na demagogia e no despotismo, com a Organização das Nações Unidas a funcionar como o seu foro de lei, com uma abordagem à gestão das crises baseada nos valores de igualdade de estado e de direito entre as nações e da possibilidade de exprimir as suas vontades e posições livres de chantagem económica ou de pressão política.

Senhor Primeiro Ministro,

O senhor conseguiu isolar-se pessoalmente da vontade do seu povo, e mais grave, conseguiu isolar o seu país da corrente de opinião pública mundial que o seu grande povo partilha. Daí que irá com certeza tirar as suas conclusões quanto à sua posição.

Senhor Primeiro Ministro, Obrigado pela atenção dispensada.

Timothy BANCROFT-HINCHEY Director e Chefe da Redacção Versão portuguesa da Pravda.Ru

 
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