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HOMENAGEM AOS PRISIONEIROS DO TARRAFAL

26.10.2005 | Fonte de informações:

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PRESERVAR A MEMÓRIA HISTÓRICA É DEFENDER A LIBERDADE Por Sérgio Vilarigues

Impossibilitado de aceitar, por razões de saúde próprias de uma pessoa que já soma 90 anos de vida, o convite – que agradeço – do senhor Presidente da República, dr. Jorge Sampaio, para estar presente na homenagem às vitimas do campo de concentração do Tarrafal, não quero deixar de me associar à iniciativa, aproveitando a oportunidade que me é dada de dirigir a todos os presentes uma breve saudação e fazer votos para que a iniciativa corra pelo melhor e possa, de algum modo, contribuir para lembrar que o fascismo e os seus crimes foram uma realidade negra na nossa vida colectiva, crimes que não podem, nem devem ser esquecidos.

Recordar que no campo de concentração do Tarrafal, muito apropriadamente também conhecido por «campo da morte lenta», centenas de antifascistas, comunistas, anarquistas, republicanos e alguns mesmo sem partido, civis e militares, foram durante dezanove anos (1936-1954) sujeitos pela equipa carcerária – directores, guardas e médicos –, ao serviço e por ordem do regime fascista, a cruéis condições prisionais, tendo dezenas deles sido verdadeira e friamente assassinados, tem hoje um duplo significado e importância.

É que, ao mesmo tempo que se comemora este ano o 60.° aniversário de um acontecimento de importância histórica para os destinos da humanidade, que foi a derrota do nazi-fascismo na Europa e se divulgam os seus crimes, em Portugal pratica-se há bastante tempo, de forma sistemática e com a conivência de poderes públicos, toda uma política visando apagar da memória dos portugueses, e sobretudo das jovens gerações, a existência do fascismo e o seu largo cortejo de crimes que vitimaram milhares de portugueses que tiveram a ousadia de cometer um único crime: não se conformarem e actuarem em conformidade para que o nosso país e o nosso povo não fossem condenados a viver privados da liberdade e de uma vida digna.

Há vários fundamentados e dolorosos testemunhos do que foi a vida dos prisioneiros deportados para Cabo Verde, cuja descrição não cabe, obviamente, nestas breves palavras. Entretanto, o campo de concentração do Tarrafal não foi apenas mais uma das várias cadeias fascistas – Peniche, Caxias, Aljube, Angra do Heroísmo, etc. – onde foram lançados milhares de antifascistas, como não era também mais uma cadeia onde os presos cumpriam penas mais ou menos longas à espera do dia da liberdade.

O campo de concentração do Tarrafal era a expressão concentrada da arbitrariedade fascista, da ilegalidade transformada em lei, onde eram lançados presos, uns que nem sequer estavam condenados, outros que continuavam presos longos anos, mesmo depois de cumprir as penas.

Inaugurado no auge da ofensiva nazi e inspirado nos seus métodos (não esqueçamos que os carcereiros do Tarrafal foram estagiar na Alemanha nazi), destinava-se a liquidar psicológica e fisicamente os prisioneiros, pela tortura sistemática, os trabalhos forçados, às vezes até quase à morte, a falta de assistência médica e uma alimentação imprópria. Não havia, é certo, fornos crematórios, mas havia a «frigideira» , donde se saía mais morto que vivo. Não foi um mero acaso que, a par do campo de concentração, se tenha construído um cemitério para a previsível morte dos prisioneiros, onde viriam a ser enterrados dezenas deles.

O regime democrático saído da Revolução de Abril, que pôs fim à ditadura fascista, foi demasiado generoso para com os inimigos da liberdade. Nem um só crime e nem um só criminoso fascista foi julgado.

O fascismo não foi só privação da liberdade, repressão, obscurantismo, brutal exploração dos trabalhadores e do povo. O fascismo era um regime terrorista montado para servir os grandes grupos económicos e financeiros, ao fim e ao cabo os grandes beneficiários da ditadura e seu suporte principal. Esta é uma verdade histórica indesmentível. Talvez se encontre aqui a explicação do porquê da «manta» de silêncio com que se procura cobrir a história do fascismo.

É preservando a memória histórica de um povo, é explicando e conhecendo o que foi o nosso passado colectivo que se criarão as condições para que o povo esteja em condições de defender as liberdades.

A minha longa vida parece desmentir a realidade negra que foi o campo de concentração do Tarrafal. A natureza, pelos vistos, resolveu ser muito generosa para comigo. Mas como ex-prisioneiro do campo de concentração do Tarrafal, saudando, mais uma vez a iniciativa à qual infelizmente não pude comparecer, e certo de que interpreto o pensamento das vítimas do Tarrafal e em particular dos comunistas que, como se sabe, foram a grande maioria dos prisioneiros, termino dizendo-vos que a melhor homenagem que se pode prestar às vítimas do Tarrafal, homens que, cheios de generosidade, deram o melhor dos suas vidas e alguns a própria vida pela liberdade não deixar cair a sua memória no esquecimento e para que o slogan, "fascismo nunca mais!", tenha todo o sentido.»

 
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