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JOSÉ DIAS COELHO, O CHE GUEVARA PORTUGUÊS!

19.12.2005 | Fonte de informações:

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Entrevista exclusiva com Júlia Coutinho, investigadora que está a escrever uma biografia do artista plástico e dirigente comunista assassinado a tiro pela polícia política, em pleno dia, numa rua de Lisboa, no dia 19 de Dezembro de 1961 - faz hoje precisamente 44 anos.

JOSÉ DIAS COELHO, O CHE GUEVARA PORTUGUÊS!

ENTREVISTA COM JÚLIA COUTINHO

José Dias Coelho é um ícone do comunismo e da resistência antifascista em Portugal, evocado em poesia e música. Um grande activista estudantil. Um jovem artista plástico de talento que abdicou de uma promissora carreira para se dedicar de corpo inteiro à luta pela liberdade e pelo socialismo. Um dirigente comunista clandestino que foi assassinado a tiro pela polícia política, em pleno dia, numa rua de Lisboa – a 19 de Dezembro de 1961 - faz hoje precisamente 44 anos

Fomos falar com Júlia Coutinho, investigadora que está a preparar uma biografia de José Dias Coelho. Tem consultado documentos da época e arquivos, ouvido testemunhos de pessoas que conviveram com Dias Coelho.

José Dias Coelho nasceu em 1923, em Pinhel, uma pequena cidade do interior de Portugal. Filho de um escrivão de direito, virá adolescente viver para Lisboa. Aqui, conta Júlia Coutinho, Dias Coelho calhará a estudar num colégio particular onde leccionavam alguns professores proibidos de o fazer no ensino oficial da ditadura fascista que então imperava em Portugal. Por essa via, Dias Coelho terá acesso a tertúlias onde participavam destacadas figuras intelectuais da oposição democrática, nomeadamente Bento Jesus Caraça, prestigiado professor universitário que viria a desempenhar um papel de grande relevo em movimentos de unidade antifascista na década de quarenta.

Júlia Coutinho sublinha que é sob estas influências que José Dias Coelho, já estudante da Escola de Belas Artes de Lisboa, adere à Juventude Comunista, através de um colega, em 1942. Nos primeiros tempos, "estudam e discutem textos marxistas que lhes chegam por via clandestina. Dedicam-se fundamentalmente ao auxílio das famílias dos presos políticos, angariando medicamentos, roupas, géneros alimentícios, dinheiro ou, ainda, levando-lhes cuidados de saúde prementes para o que conseguem a colaboração de médicos".

Dias Coelho será também um militante activo dos movimentos unitários de oposição democrática participados pelo PCP, particularmente no MUD Juvenil.

Em 1948/9, uma importante iniciativa de oposição à ditadura será a candidatura presidencial de Norton de Matos, que acabará por desistir de ir às urnas, dada a evidência da manipulação do processo eleitoral. Mas conseguirá fazer alguma propaganda e agitação. Dias Coelho terá um cargo modesto nesta candidatura: membro da Comissão Eleitoral de Pinhel. Mas desenvolve uma grande actividade, particularmente entre estudantes em Lisboa, sendo preso pela polícia política, a PIDE, durante alguns dias.

Júlia Coutinho realça que José Dias Coelho foi um grande mobilizador de estudantes e de intelectuais para abaixo-assinados, pintura de frases de propaganda em paredes e outras iniciativas de oposição ao regime, pela libertação de presos políticos ou pela paz. Uma iniciativa marcante será a mobilização de estudantes para assistirem ao julgamento do líder comunista Álvaro Cunhal. "Dias Coelho era um líder, muito corajoso, que levava os colegas a pensar. Mas era também muito humano, afectivo. Interessava-se bastante pelos problemas de cada um".

A par de toda a sua actividade política, Dias Coelho dedicava-se também com afinco e talento à criação artística e a iniciativas culturais. Foi por, exemplo, um dos organizadores das Exposições Gerais de Artes Plásticas promovidas pela Sociedade Nacional de Belas Artes.

Em 1955, Dias Coelho, sacrificou a sua vocação artística e uma promissora carreira nesse campo, para, juntamente com sua mulher, se dedicar por inteiro à luta contra a ditadura: tornou-se funcionário clandestino do PCP. E ficou logo encarregado de uma importante missão, de grande secretismo e isolamento: a oficina do partido para a produção de documentação falsa, conhecida apenas por alguns membros do Secretariado do Comité Central. Nomeadamente Júlio Fogaça, o último sobrevivente da direcção do partido do tempo de Bento Gonçalves, o secretário-geral do PCP que em 1929 lançou o partido na actividade clandestina de resistência à ditadura e que morreu no campo de concentração do Tarrafal em 1942.

Os documentos falsos que Dias Coelho produzia eram fundamentais para toda a actividade deste partido então ilegalizado e fortemente perseguido pela ditadura. Sem eles os militantes clandestinos do partido praticamente não poderiam viver nem circular em Portugal, ou atravessar a fronteira para sair do país.

A par desta tarefa, Dias Coelho será responsável por uma renovação, "tornando-o muito mais atractivo", do grafismo de uma das principais vozes e símbolos da resistência antifascista em Portugal, o jornal do PCP, o Avante. Para o qual também escreve e, principalmente, ilustra.

Em 1957, José Dias Coelho viaja ao estrangeiro para receber formação. Em Paris aperfeiçoa técnicas de falsificação de documentos junto do seu congénere do Partido Comunista de Espanha. Em Berlim-Leste aprende técnicas de micro-fotografia.

Regressado a Portugal, Dias Coelho irá acumular uma nova tarefa: ser o guardião do arquivo do partido e fotografá-lo em micro-filmagem, para o tornar mais a salvo de buscas policias, mais fácil de esconder e de transportar.

No início de 1960 dá-se a fuga de Álvaro Cunhal da prisão. É só então que Dias Coelho o vai conhecer, embora já fosse amigo do seu pai, Avelino Cunhal, também artista plástico, com quem já expusera em conjunto.

Dias Coelho vai receber uma nova tarefa, que executa com a colaboração de sua mulher: baseando-se no arquivo do partido, escrever um livro sobre a resistência ao fascismo em Portugal, destacando a acção do PCP. Nas palavras de Júlia Coutinho, "trata-se do primeiro documento sistematizado e publicado em Portugal, sobre a história da repressão salazarista". Mas só foi publicado em Portugal semanas após a queda da ditadura, em 25 de Abril de 1974. Antes disso, foi publicado em língua russa, na União Soviética, conhecendo outras edições no Brasil e alguns países aliados da URSS.

Cumprida esta tarefa, José Dias Coelho passa a dirigente da organização regional de Lisboa do PCP, responsável pelo sector intelectual. Logo se lança aí numa grande actividade. Será, segundo Júlia Coutinho, um dos obreiros de uma vitória de democratas nas eleições para a Ordem dos Engenheiros. E será também um grande mobilizador em torno das eleições-farsa promovidas pelo regime esse ano para a Assembleia Nacional.

Até que a 19 de Dezembro de 1961, a PIDE assassinou Dias Coelho. A sua última ilustração para o Avante foi sobre o assassinato pela polícia de um operário que participava numa manifestação contra a fraude das "eleições".

Sobre o desempenho de José Dias Coelho no sector intelectual do PCP, Júlia Coutinho evoca e valoriza muito o testemunho de José Tengarrinha, conceituado historiador que foi amigo, cunhado e companheiro de luta de Dias Coelho naqueles tempos.

Diz Tengarrinha que, sem José Dias Coelho, o PCP "teria tido dificuldade de um relacionamento tão regular e tão amplo com os grandes artistas plásticos do seu tempo, pois o diálogo que estabelecia nunca foi fechado ou redutor, mas sempre aberto e estimulante". Com Dias Coelho "confrontavam-se posições por vezes divergentes sobre ardentes questões estéticas e políticas, mas sem que alguma vez a crispação irredutível dominasse o diálogo, antes conduzindo a permutas enriquecedoras (...) entre pessoas que podiam ter opiniões diferentes sobre várias coisas, mas que acima de tudo se estimavam e tinham objectivos finais comuns".

Tengarrinha sublinha que, "para além do mundo das artes plásticas a que pertencia, também praticamente em todos os campos da vida intelectual portuguesa do tempo se fez sentir a sua influência. No meio literário foram muitos os que através dele mantiveram contactos regulares com o PCP (...) E ainda muitos os que, fora da organização, aceitavam participar em acções comuns, pelo prestígio de Dias Coelho e a confiança que lhes merecia". Aponta Tengarrinha que "Este traço da personalidade política de Dias Coelho ganha ainda maior valor se tivermos em conta as circunstâncias históricas em que se inseria. (...) estávamos em plena guerra fria".

Conclui Tengarrinha: "é nestas circunstâncias que podemos avaliar as grandes dificuldades do trabalho político desenvolvido por José Dias Coelho e o mérito da sua influência no campo intelectual. É nestas condições, também, que podemos compreender como era difícil manter uma postura equilibrada entre a firmeza das convicções e a abertura ao diálogo com ideias diferentes, num clima de tolerância e compreensão. E o que lhe dá ainda maior dimensão é que assim procedia não por frio calculismo político, mas porque achava que assim é que devia ser, de acordo com a sua natureza humanista"

Segundo Júlia Coutinho, há ainda aspectos do percurso político de Dias Coelho por esclarecer. Ele trabalhou em grande proximidade com Júlio Fogaça, o dirigente mais proeminente do partido na década de 50. O líder do que Cunhal chamaria "desvio de direita", que, entre outros apectos, se caracterizava por uma linha de aproximação a outros sectores mais moderados da oposição, e de busca de fracturas, através de reformas ou golpe militar, dentro do próprio regime como forma de conseguir uma transição para a democracia. E que Cunhal, apesar de a condenar, chegou a admitir, no seu livro Rumo à Vitória, que com ela "o partido registou importantes sucessos nas 'eleições' presidenciais de 1958", com a candidatura do general Humberto Delgado, dissidente da ditadura.

Dias Coelho e Fogaça terão sido amigos, como se nota pelo respeito com que Fogaça é referido no livro A Resistência em Portugal ou nas memórias da viúva de Dias Coelho. Além disso, Júlia Coutinho, pelos documentos e testemunhos a que teve acesso, considera que Dias Coelho "trabalhou sempre no partido dentro da linha do chamado 'desvio de direita', que foi considerada traidora. Tornou-se funcionário do PCP em finais de 1955, precisamente quando se discutiam internamente as questões do sectarismo. Era muito essa a linha dele, tentar ser abrangente na unidade. Dias Coelho acreditava que se podia fazer unidade. E ele conseguia essa unidade".

Júlia Coutinho acrescenta: "existem documentos que me levam a concluir que dentro do partido, naquele período há um clima de insatisfação, de incomodidade, alguma contestação mesmo, de quadros que se sentem desorientados e que dizem basicamente isto, 'não percebo, fazíamos as coisas assim e estavam bem. E agora, de repente, dizem-nos que já não é bom tudo o fizemos antes. Mas que fizemos de mal ?". Sentiam-se confusos. Desanimados. É muito possível que José Dias Coelho estivesse entre estas vozes.

Há portanto ainda interessantes aspectos por contar e esclarecer acerca do percurso político de José Dias Coelho. A quem, pela importância que teve no movimento comunista e na resistência contra a ditadura, e por causa do seu humanismo, coragem, determinação e trágica morte, alguns amigos consideram "o Che Guevara português".

Talvez venham a ser esclarecidos na biografia de José Dias Coelho que Júlia Coutinho está a escrever. Um lançamento a aguardar.

Quem é Júlia Coutinho?

Licenciou-se em História – variante de História da Arte, na Universidade de Lisboa, depois de ter trabalhado vários anos no ramo da informática. Mais tarde, após ter passado pelo Museu do Fado, dedicou-se exclusivamente à investigação histórica, tendo vindo a especializar-se na arte e na história social e política dos anos 40 e 50 do século XX, em Portugal.

Logo após a Revolução de 25 de Abril de 1974 tornou-se militante do Partido Comunista Português, do qual se afastou recentemente.

Hoje, continuando a considerar-se comunista, Júlia Coutinho faz parte da comissão instaladora de uma nova associação cívica, a ARIS (Associação para a Reflexão e Intervenção Social), e é activista do Movimento Cívico Não Apaguem a Memória, empenhado na preservação da memória do que foi a repressão da ditadura fascista em Portugal e da resistência que lhe foi movida. Luís Carvalho PRAVDA.Ru

 
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