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O Sindroma da Carolina

07.04.2006 | Fonte de informações:

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Vamos imaginar um bebé recém e felizmente nascido no seio duma família de pessoas de bem, com espírito construtivo, com amor pela família, que zelam pelo desenvolvimento do novo ser entre eles, ensinando palavras como “mãe”, ou “amor”. Vamos comparar esse bebé com outro que teve a infelicidade de ter nascido no meio duma família disfuncional – em alguns casos, mais vale não ter nascido – e vemos ver a diferença entre os dois.

Se o homem cria o meio, também o meio cria o homem.

Hoje, sexta-feira dia 7 de Abril, nos manchetes de vários jornais se vê histórias acerca da Carolina, Pinto da Costa e um faqueiro, e grupos de homens interessadíssimos a volta dos quiosques a perguntarem se Pinto de Costa lhe deu “porrada” e se ela merecia, e por aí fora.

Não se vê ninguém a discutir a outra face da moeda. Primeiro, há a questão do direito de respeito pela vida privada do senhor Jorge Nuno Pinto da Costa e as pessoas que constituem seu círculo mais próximo. É um assunto que diz respeito a eles, e só a eles e não é o lugar nem o papel da imprensa meter-se nos assuntos particulares de quem quer que fosse.

Segundo, por quê é que não focamos também no lado positivo das coisas? Onde estão as histórias do muito que este senhor fez e faz pela sua cidade e pelo seu país? Onde estão as histórias da sua extraordinária cultura, das suas capacidades de comunicação? Se dissesse que há vários anos dirigi-lhe uma carta, na altura do penta campeonato, congratulando-o pelo empenho e excelente trabalho, ímpar, de gestão desportiva, carta que mereceu uma folha de dois lados em resposta, manuscrito, pelo próprio Presidente do FC Porto, não é exagero.

Quantas pessoas elevaram o nome duma entidade portuguesa tão alta? Não estamos a falar de matar crianças no Algarve, não estamos a falar de tendências sexuais, não estamos a falar de violar órfãos ou a pagar crianças de famílias desfavorecidas por actos sexuais – infelizmente destas histórias há muitas e chegam bem longe, até na Rússia se fala da Casa Pia, que vergonha!

Não, o que estou referindo são o tipo de acções que engrandecem o país, do tipo que senhor Jorge Nuno Pinto da Costa fez várias vezes ao longo de 34 anos, desde 1972 como dirigente desportivo (hóquei em patins, hóquei em campo, boxe, e futebol desde 1976 até 1982, altura em que foi eleito Presidente).

Quantos portugueses fizeram com que seu país fosse falado, e bem, por exemplo na Síria? Na Tanzânia? Na Mongólia? Países onde o FC Porto é uma referência, onde o futebol português é respeitado e o futebol, sendo o grande comunicador que é e sendo o grande catalista de solidariedade, camaradagem, socialização, convívio, no seu melhor, há de ser respeitado como órgão cultural, quer que se goste ou não.

A verdade nua e crua é que os portugueses vivem com esse tipo de manchete enfiado pela garganta abaixo, dia após dia. Se não é a Carolina e um faqueiro, é uma pobre menina torturada até a morte, ou um bebé queimado com cigarros, ou uma piada com terrível mau gosto acerca de alguém dar uma carga de tareia ao chefe de cozinha porque fez a canja simples e ele queria comer miúdos, ou boatos sem qualquer substância sobre a vida sexual dos políticos, ou se se come o melão calado.

Em fim, coisas fúteis, tópicos sem qualquer fundamento, questões sem qualquer interesse, a deseducar os portugueses, a criar gerações de autómatos que vivem sedentos por mais do mesmo. Não é essa a função da média, nem em Portugal nem em qualquer outro país.

É informar, criar pólos de conhecimento, utilizar os órgãos de comunicação social para fins humanitários, estimular debates para trocar ideias. Na altura em que o jornal PRAVDA.Ru entra numa nova fase, com uma nova apresentação gráfica nos próximos dias, na altura do início duma actividade de desenvolvimento em países e comunidades que necessitam, apelamos a todos os órgãos da media para esquecerem o sindroma da Carolina e concentrarem no lado positivo, o lado bonito das coisas, e colocar aqueles homens a discutirem questões mais positivas.

Não será tão difícil assim.

Timothy BANCROFT-HINCHEY PRAVDA.Ru Director e Chefe de Redacção Versão Portuguesa

 
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