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O passo em frente da Renovação Comunista

02.07.2005 | Fonte de informações:

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Com a passagem de movimento a associação política, a Renovação Comunista deu um passo em frente na afirmação das razões pelas quais se constituiu. Um passo considerado ajustado à actual conjuntura política e às oscilações inelutáveis por que passou, mas sem perder de vista o contributo que já deu às causas da democracia e da esquerda, desde a sua fundação em 22 de Março de 2003.

Na Declaração Constituinte da associação é afirmado que “a associação política que agora se constitui é um passo indispensável para a consolidação de uma identidade própria e de um projecto autónomo que supere e acrescente novos valores à base de agregação e ponto de partida dos renovadores comunistas: o seu património de ideias, experiências e lutas pela liberdade, a democracia e o socialismo, o seu combate pelas grandes causas dos trabalhadores, pelo saber e o conhecimento como paradigma da nossa época”.

Este passo será tanto mais seguro e consistente quanto a sua amplitude estiver em conformidade com a implantação, capacidade organizativa, conjuntura política, modalidades de intervenção e os objectivos a alcançar no curto e médio prazo pela associação. E estará tanto mais adequado às expectativas de quem a ela se dirige quanto esses objectivos contribuírem para despertar a Bela Adormecida em que se transformou a causa comunista e conseguirem ser facilitadores da promoção de pontos de convergência entre as várias famílias da esquerda, porque é prioritariamente em justiça social que estamos a pensar - quanto ao emprego, à saúde, à instrução, à cultura, à distribuição da riqueza e à justiça – quando estamos a invocar a necessidade da esquerda se concentrar sobre o que é essencial para os portugueses, sem que para isso seja necessário abdicar das respectivas identidades. É nesta linha de pensamento que a Renovação Comunista inscreve nos seus estatutos o objectivo de “defender e valorizar a liberdade, a democracia e a cidadania plenas, lutar pelas grandes causas dos trabalhadores, combater o neoliberalismo e todas as formas de exploração e dominação, de discriminação e exclusão”.

Mas se as regras de funcionamento de uma organização são também já outros tantos sinais das suas intenções quanto ao projecto de sociedade que defende, também neste aspecto a Renovação Comunista sedimentou algum pensamento nestes dois anos. Valorizando o conceito de “um homem, uma ideia”, ficou consagrado nos seus estatutos o princípio da “plena liberdade de circulação da informação e opinião, rejeição de qualquer limitação à expressão e divulgação, interna ou pública, de opiniões individuais, de grupo ou minoritárias, e reconhecimento do direito de objecção, quando invocada”.

Reconhecendo que toda a acção política que não estiver ancorada num referencial teórico corre o risco de só fazer caminho caminhando, é particularmente relevante que não se perca de vista estas duas dimensões da intervenção política, sob pena de se reproduzirem as duas mais antigas doenças crónicas da política partidária: o tarefismo e o fulanismo. Mas a ancoragem num referencial teórico significa antes de mais ter-se a capacidade analítica e a clarividência para construir novas sínteses que integrem o que é novo no que é histórico mas que se mantém actual, de tal maneira que a soma das partes mais do que um guia seja o motor para a acção. Tem sido na contribuição de cada uma das partes para a construção de novas sínteses que as esquerdas comunistas têm divergido. Nomeadamente entre aqueles que distinguem o que já são narizes de cera teóricos e os que fazem da história um kit de sobrevivência para o presente.

Hoje as organizações políticas ou são também organizações do conhecimento, colocando nas suas decisões uma importante fracção de racionalidade, ou gastam parte significativa das suas energias na necessidade de estarem continuamente a mudar de máscara, visto o espectáculo ter de continuar. Mas também não é menos verdade que as organizações políticas se criam para alterar, pela acção, o rumo dos acontecimentos, pondo nela toda a subjectividade sempre que chega o momento de se fazerem escolhas. Mas não confundimos racionalidade e subjectividade com pragmatismo e voluntarismo. O primeiro, não passa de uma racionalidade despida de ideologia, e o segundo, de uma subjectividade descarnada de conhecimento.

A associação política Renovação Comunista acabou por ser fundada numa conjuntura social e económica particularmente críticas para os portugueses. Algumas das medidas entretanto anunciadas pelo governo para lhe dar combate, como a subida do IVA de 19% para 21%, o tratamento que é dado aos funcionários públicos, que aos olhos da população são apresentados novamente como os suspeitos do costume, e a manutenção dos privilégios de que tem gozado o capital financeiro, constituem outros tantos sinais contraditórios relativamente à resultante final que os portugueses esperam desta situação: uma sociedade mais solidária, mais coesa e mais igualitária. Embora não tenha sido possível fazê-lo nas semanas que antecederam as eleições legislativas, mantém-se mais válida do que nunca, e apesar da maioria absoluta alcançada pelo PS, a necessidade das forças de esquerda se comprometerem com um conjunto de medidas, que não necessariamente as seleccionadas pelo governo, que sejam compreensíveis, aceites e transformadoras do actual estado de coisas, e com capacidade de trazer benefícios reconhecíveis aos sectores maioritários da população. E para que, nos actos eleitorais que se aproximam, designadamente a eleição presidencial, se consiga fazer eleger um candidato aglutinador do eleitorado que derrotou a direita em 20 de Fevereiro. Sob pena de o pós-socratismo se transformar num pós-guterrismo revisitado, mais ou menos pantanoso.

Cipriano Justo 26/06/2005, in www.comunistas.info

 
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