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Plantas Medicinais da Guiné-Bissau

24.07.2003 | Fonte de informações:

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PARTES OU ÓRGÃOS DA ESPÉCIE DE QUE SE UTILIZAM E QUE PODEM SER VENENO. CUIDADO !

PLANTAS MEDICINAIS

ESTE É NOSSO CONTRIBUTO PARA OS SEUS ESTUDO E USO (A BIBLIOGRAFIA APLICÁVEL ENCONTRA-SE NO TEXTO) GUINÉ-BISSAU SECTOR AGRO-PECUÁRIO PLANTAS MEDICINAIS

Uma cultura que julgamos de muito interesse para a Guiné-Bissau é a cultura intensiva de plantas medicinais.

É de muito interesse para as gentes, que não têm «aspirina», sequer par tratar uma dor de cabeça ...

Esta cultura poderia minorar, alguma coisa, o estado sanitário das populações.

Basta dizer que vale mais pouco que nada e, sendo as plantas medicinais utilizadas industrialmente para delas se extraírem os seus princípios activos, que a indústria farmacêutica isola, purifica e concentra, esses princípios activos estão lá na planta e podem ser utilizados nesse estado.

Assim, nas carências de produtos farmacêuticos, os médicos, os farmacêuticos, os enfermeiros, as parteiras e, porque não, os "curandeiros", receitariam plantas medicinais.

Mas a "filosofia" que nos leva a aconselhar a cultura está mais relacionada com as exportações possíveis, em fardos, do que a sua utilização local.

Já nos fins do século passado um estudioso destas plantas, nascido, criado e educado em Bissau seleccionou e catalogou cerca de uma centena de plantas da Guiné-Bissau com efeitos terapêuticos. Esta listagem teve por base mais a tradição do seu uso pelos nativos do que pela comparação e prova dos efeitos.

Parece que esta listagem se poderá manter, mas não é sobre ela que nós julgamos dever o agricultor debruçar-se, mas sim sobre a cultura de outras plantas, conhecidas internacionalmente e cujo consumo mundial o justifique.

Na Guiné-Bissau há algumas plantas, a confirmarem-se os seus efeitos, descritos há quase um século, que mereceriam, por serem espontâneas, aproveitamento imediato.

Indicamos algumas, por serem as mais conhecidas. Mas repare-se que quando dizemos «algumas» estamos a falar em centenas .! Quando nos referimos a este tipo de cultura intensiva pensamos, como acima dissemos, na exportação, principalmente.

Também pensamos na grande disponibilidade de mão-de-obra e na grande utilização desta que a cultura deste tipo de plantas exige. Por outro lado, a cultura não exige investimentos consideráveis e pode ser praticada individualmente. Como a produção se destinaria, principalmente, às exportações, o pagamento aos produtores poderia ser compensadoramente acrescido (obviamente não em divisas, porque é necessário reabilitar a moeda).

Muitas exóticas poderiam ser cultivadas, mas seria necessária uma observação das suas potencialidades de venda no mercado mundial. Seria necessária uma acção que deveria ser levada a cabo, pelas autoridades da Guiné-Bissau, para a clarificação que isso traria às possibilidades de exportação e de utilização no próprio País, a fim de diminuir a importação de especialidades farmacêuticas. É imprescindível a análise farmacognósica a fazer num centros especializados, de algumas espécies espontâneas que na Guiné se perdem por falta de colheita.

Reafirmamos que estas considerações não podem ser tomadas "à letra" e sem prévia investigação que, como é óbvio, deveria envolver pessoas comprovadamente competentes

Mas que estas plantas são usadas com as finalidades terapêuticas parece não haver dúvida.

E, diga-se também, julgamos que se não fosse o seu uso, muito maior seria o sofrimento das populações.

Parece que não seria difícil que as populações em geral aceitassem o seu uso com facilidade, ao contrário do que porventura aconteceria numa população com menos sentido e prática animista.

INTRODUÇÃO Falar da Guiné-Bissau no presente, obriga a falar do seu passado. Mas não só. Falar da Guiné-Bissau, isto é, do seu Território e das suas gentes, obriga a falar de gentes que habitam para lá das suas fronteiras e, também, de gentes que aí habitam, mas não são seus cidadãos; de terras que hoje não fazem parte dela. E, falar dela sem referir os laços que a unem a outras nações (quer de África quer de outros continentes) e as organizações supranacionais, será incompleto devido à inter-penetração de culturas e de interesses mútuos que, de algum modo modificam, diminuem ou ampliam a sua personalidade colectiva própria, condicionam a seu presente e, obviamente, moldam o seu futuro.

Julgo que deve ser caracterizada antes do mais, naquilo que hoje é, pacificamente aceite quer por ela quer pela Comunidade Internacional, observando-a de vários ângulos: geográfico, humano, económico, etc. Mas o Autor deste trabalho não pode fazer tanta coisa. O Autor deste trabalho esclarece, desde já, como é da seu dever, que não é guineense, nem tem quaisquer laços económicos que o liguem a este País, mas "bebeu a água do Pigiguiti" pelo que à Guiné-Bissau o ligam laços afectivos que sente serem fortes.

Por outro lado, o ser português pode levá-lo a interpretar os factos históricos duma forma própria. Esclarece porém que, não tendo aí interesses económicos, gostaria de ter. Não abandonará (assim o deseja) o sentido de rigor que se impõe. E será objectivo, tanto quanto puder ser, para contrariar as eventuais falhas humanas que a qualidade de pessoa pressupõe e acima deixa antever.

Obviamente que o Autor não pretende fazer um trabalho sobre a Guiné-Bissau. Pretende sim fazer um caderno de divulgação e sentir-se-á satisfeito se com ele contribuir para um melhor conhecimento dos que querem saber o que é este País.

Mas, fundamentalmente, para retratar a Guiné-Bissau, utilizará, como meio, o sector primário não pesqueiro nem mineiro, isto é, usará a agricultura, pecuária e florestas.

Ao longo deste pequeno trabalho, o Autor recorre ao conhecimento pessoal que tem das terras e das gentes da Guiné-Bissau, assim como a inúmeros trabalhos publicados por muitos cientistas que à Guiné dedicaram os seus tempo e saber.

Porque não é conveniente fazer citações ao longo do texto (do texto descritivo), para não dificultar a leitura, o Autor indicará a quem lhe pedir o vasto conjunto de obras que leu para este efeito. No aspecto mais técnico, nomeadamente quando se trata de plantas medicinais, tema que lhe é caro, apresentam-se as referências bibliográficas, para permitir, a quem o quiser fazer, um aprofundamento dele.

Desde já se apela para a compreensão de quem nos ler ao serem encontradas referências e "estímulos" às culturas de exportação. O Autor declara já que não concorda com o seu desenvolvimento prioritário, isto é, com o seu desenvolvimento desordenado e não acompanhado pelo desenvolvimento paralelo de medidas atenuadoras do impacto negativo que estas culturas têm no meio ambiente. Mas, obviamente, não tem que concordar ou não: Opina. Como primeira prioridade, o Autor entende deverem ser desenvolvidas as culturas que possam criar independência na alimentação das populações mas, encarando a agricultura como um todo, concorda que se desenvolvam as culturas industriais de exportação para, no mínimo, angariar recursos externos de suporte ao desenvolvimento das restantes.

E, não ultrapassando níveis críticos, não se vê inconveniente no seu desenvolvimento. Não há dúvida, até, que algumas culturas industriais serão altamente rentáveis e desejáveis, como no caso das frutas, e prevê-se que as produções sejam fortemente competitivas e lucrativas nos mercados consumidores.

Não se vê que ecologicamente possam ser contraproducentes e, além disso, darão trabalho a muita gente.

O esboço feito para este trabalho faz prever que não é possível, na maior parte dos casos, contrariar a necessidade de referir números, o que pode tornar certas partes maçadoras. Procurar-se-á apresentá-los duma forma comparativa, mais para dar a ideia das diferenças do que de situações a reter.

DESCRIÇÃO A Guiné-Bissau é um País independente desde 1974. Tem um pouco mais de 36.000 km2 e estima-se a sua população (em 1985) em cerca de 865.000 habitantes, dos quais se calcula que uns 150.000 se concentram na cidade de Bissau (isto é: uns 17,5% do total). O Território situa-se na costa ocidental de África, no externo Norte do Golfo da Guiné e é composto por duas partes distintas: uma insular (o arquipélago de Bijagós) e outra continental em que se distinguem duas regiões diferentes quanto ao solo e ao clima.

Uma em que os estuários, recortes da costa e "braços do mar" influenciam, cuja largura se estende por cerca de 60 km e outra do interior onde a influência do mar se não sente mas onde chega alguma influência do Saara e das grandes planuras secas Sub-saarianas. As fronteiras são: a Norte com o Senegal e a Leste e Sul com a República da Guiné.

A sua linha de costa com o Atlântico, a oeste, mede 680 m. A Guiné-Bissau não tem relevo pronunciado, mas chegam até si os contrafortes do Futa-Djalon a Sudoeste, cujos enrugamentos de sentem e as colinas atingem os 250 metros.

Mas pode dizer-se que se uma onda gigante de 45m chocasse contra a costa, a Guiné ficaria praticamente toda submersa.

Daí a grande importância do fenómeno das marés chamado Macaréu, que atinge uns 6/7 metros, no Geba e no Corubal.

Enquanto no interior o clima tropical assume um tipo seco, sudanês, na faixa costeira, de influência das marés, o tipo é húmido sub-guineense. Em qualquer destes dois tipos, porém, distinguem-se duas estações: a das chuvas (que começa em meados de Maio com o seu máximo em Agosto) e a da seca (que começa em meados de Novembro).

NOTAS Uma linha recta traçada entre o ponto mais ao Norte da costa atlântica ao ponto mais ao Sul, na mesma costa, mede 193 km e outra na sua mais larga extensão de oeste para Leste, mede 330 km. Esta última linha é o paralelo que passa pelo Cabo Roxo. A Guiné-Bissau situa-se abaixo do Trópico de Câncer, entre os paralelos 10º 59' N e 12º 20' N e os meridianos 13º40' W e 16º43' W. A área territorial foi fixada (oficialmente mas imprecisamente) no recenseamento de 1953 e modificada em 1954 por Teixeira da Mota. Consta com valor diferente no Anuário Estatístico do Ultramar (publicação portuguesa) com 3.612.500 hectares; parece que também imprecisamente.

O clima da Guiné-Bissau é um clima tropical. Genericamente pode dizer-se que é quente e húmido. Fundamentalmente, há que dividir o ano em duas épocas distintas: a época seca e a das chuvas.

O movimento aparente do sol faz progredir, para Norte, a zona de convergência inter-tropical, a qual atinge o Sudoeste da Guiné em Maio, acabando por cobrir todo o Território em cerca de 3 semanas. Com este avanço sentem-se as influências dos ventos alísios frescos e húmidos formados sobre a grande massa do Atlântico Sul. A influência do anticiclone dos Açores faz-se sentir também, com massas de ar húmido e fresco. Daí as precipitações elevadas. Não iremos comentar a influência dos alísios continentais; porém pode-se dizer que os seus efeitos são inversos.

Nesta época, que se inicia com a penetração no Território, de Sul para Norte, da zona de convergência inter-tropical, as temperaturas do ar médias mensais e máximas e mínimas diárias começam a ter um comportamento particular: as médias máximas mensais começam a decrescer em Maio. Por exemplo em Catió (ao Sul litoral), a média máxima anual é de 31,7º C, a média máxima mensal mais elevada é atingida em Abril com 34,2º C e em Maio começa a decrescer com 33,6º C, atingindo-se em Agosto 28,3º C, altura em que começa de novo a subir.

Quanto à média mínima anual, ela é aí de 21,8º C, atingindo-se em Janeiro a média mínima mensal mais baixa e nesta altura de Maio uma situação intermédia de 22,6º C. As amplitudes diárias de variação são menores em Catió (localidade que estamos a apontar como exemplo, devido á influência moderadora do oceano), do que no interior, onde nalguns dias pode haver amplitudes térmicas da ordem dos 30º C.

No interior, como se disse, as amplitudes são maiores, bem como são mais altas as médias máximas mensais e são mais baixas as médias mínimas mensais.

Por exemplo em Gabú (ao Nordeste), portanto no interior, a média máxima mensal em Maio é de 35,4º C, depois de ter atingido a mais elevada em Abril de 36,9º C e a média mínima mensal de 21,8º C, tendo-se atingido em Janeiro a média mínima mensal mais baixa com 13,7º C. Do ponto de vista agronómico teria interesse analisarem-se os registos das temperaturas do solo, em profundidade.

Há registos para profundidades de 30 cm, 50 cm, 180 cm, 300 cm. Porém, seria fastidioso fazê-lo.

Todavia, porque nos interessa reter alguns conceitos para posterior aplicação, uma vez que pretendemos fazer considerações sobre algumas culturas em que o factor temperatura do solo é muito importante, diremos em síntese: a temperatura média do solo a 30cm de profundidade é superior à média do ar em cerca de 3 graus centígrados.

Há a notar que estas temperaturas têm uma amplitude diária muito menor que as do ar e os valores são muito diferentes conforme se medem no solo nú, coberto por ervas ou coberto por arbustos. Em solo nú, enquanto que a temperatura do ar às 8 horas da manhã é de 22,2º C, por exemplo, a 10cm de profundidade é de 27,5º C. e às 11 horas a do ar é de 28,3º C e a 10cm é de 31,7º C, enquanto que ás 14 horas a do ar é de 36º C e a do solo a 10cm é de 36,8º C. Quer dizer: enquanto a amplitude das temperaturas do ar é 13,8º C, a 10cm de profundidade é de 9,3º C.

Como resumo deste tema (temperaturas) informamos a seguir as temperaturas médias do ar em vários pontos do Território, pela seguinte sequência, e em º C: média anual, máxima média anual e mínima média anual:

LOCALIDADE M. ANUAL MM ANUAL mm ANUAL Bafatá 27,1 33,5 21,0 Bissau 26,3 31,5 21,0 Bolama 26,2 31,0 22,5 Bubaque 25,7 29,0 22,0 Caió 26,0 29,5 22,0 Catió 26,7 31,7 22,0 Farim 26,3 33,5 18,8 Gabú 25,5 31,5 19,5

As chuvas caem fundamentalmente, como se disse, a partir de Maio, atingindo o seu máximo em Agosto, terminando em Novembro. Entre Novembro e Maio não têm significado.

Do ponto de vista informativo geral é isto que se pode dizer, bem como que a precipitação é mais elevada no litoral Sul do que no interior Norte como se pode ver nas informações abaixo.

Precipitação média anual em mm :

LOCALIDADE PRECIPITAÇÃOANUAL (mm) Farim 1374 Gabú 1418 Bafatá 1765 Bissau 1978 Bubaque 2044 Caió 2148 Bolama 2200 Catió 2585

Notem-se as diferenças entre Farim ou Gabú, quer nas temperaturas quer na precipitação e em Bubaque no respeitante à precipitação, o que poderá parecer uma contradição mas, de facto, não é.

Quanto à precipitação, o que interessa referir, especialmente, são os seus efeitos e consequências para a agricultura.

As chuvas concentram-se num pequeno período do ano o que, aliado aos restantes factores climáticos: ventos, nebulosidade, insolação, etc. cria sérios problemas à agricultura. Ou há carência absoluta de água no solo (desde Novembro a Maio) ou há excesso (de Junho a Outubro).

Diríamos que o bom hidrológico está só em 2 meses: Maio e Setembro. Assim, salvo pequenas áreas do Território (com inconvenientes de salinidade) dir-se-ia que na Guiné-Bissau só vão bem as culturas de sequeiro, ou melhor, que vão bem as culturas que a chuva prejudica. Essas, como o amendoim, contribuem para de ano a ano agravarem a situação, pois trazem consigo a destruição do manto arbóreo e arbustivo, abrem as portas à erosão causada pelas chuvas, que são depois torrenciais e não amortecidas pelas folhas das árvores e do manto de folhas mortas que cobre o solo nos terrenos arborizados. Estas culturas, pelas mesmas razões deixando o solo nú, não permitem que a água das chuvas se infiltre lentamente no terreno; antes facilita que escorra e vá assorear as bolanhas (pequenas áreas cultiváveis junto às linhas de água) com a terra e areia que arrastam. Abordaremos o assunto, novamente, quando tratarmos da semeadura de prados e da reflorestação.

POPULAÇÃO A população divide-se em várias etnias que conservam os seus distintos usos e costumes.

No interior do Território estão fixados fundamentalmente os islamizados (Fulas e Mandingas) que se dedicam, em especial, à pecuária e a alguma cultura de amendoim e outras de subsistência. No litoral fixam-se as restantes etnias (a mais numerosa das quais é a Balanta) cuja actividade principal é a agricultura (e a pesca, também um pouco, de forma artesanal).

A população segue o Islamismo, no interior (Fulas e Mandingas), alguns habitantes professam o Cristianismo. Desde há longa data que a maior parte da população é animista, no litoral e um pouco por, afinal, toda a parte.

A densidade populacional é de cerca de 23 pessoas por km2, mas se não contarmos com a zona de Bissau, este número é de 19 por km2, o que traduz bem o gigantismo (salvaguardadas as devidas acepções do termo) da capital.

As mais baixas densidades populacionais encontram-se no Leste e no Sudoeste (no Boé, Xitole e Quebo), enquanto as densidades mais altas se verificam no Nordeste (cacheu e biombo).

Para além da capital Bissau (a região de maior densidade populacional), outros centros populacionais de relevo são Bafatá, Mansoa, Canchungo, Farim, Bolama, Catió e, no interior, Gabú. Estimam-se em 3.600 aldeias (tabancas) em que a população rural vive, sendo que, rurais, são mais de 80% dos habitantes do País.

E, bem vistas as coisas, rurais são quase todos os habitantes, pois só 5% da população de Bissau tem água canalizada para o domicílio, por exemplo.

NOTAS * As estatísticas de 1979 referem como taxa de natalidade 4,1%; taxa de mortalidade 2,9%; taxa de mortalidade infantil 25% (250 por mil); taxa de crescimento da população 2% e período de esperança de vida 35 anos. * Etnia é um termo não adoptado correntemente. Actualmente a realidade que o termo contempla designa-se "Povo". * Impressão pessoal do Autor : há que reconhecer, humanamente, que as crianças são o futuro e não se podem defender dos erros dos adultos! Esta mortalidade infantil é um crime da humanidade. * Noutra parte deste trabalho apresentam-se Estatísticas Globais do País, mais próximas, isto é, já da década de 1990. Devem confrontar-se com estas.

Mais ou menos extenso, cada uma das mais de 20 etnias tem o seu "Território" tradicional, a que chamam "Chão". Para além da sua tradição, cultura e identidade, cada uma destas inúmeras etnias tem o seu dialecto próprio.

Mas uns 50% (tendência decrescente) dos habitantes falam Crioulo, resultado da influência do conjunto dos dialectos na língua portuguesa. Esta só é falada, provavelmente, por uns 10% (tendência acentuadamente decrescente, pensa-se) da população, o que corresponde mais ou menos à percentagem de alfabetizados.

O Português é a língua oficial.

A Sociedade Guineense organiza-se de várias formas, sendo de salientar o relacionamento hierárquico entre os Fulas e entre os Mandingas em que se colocam em primeiro lugar os Chefes (Nobres) e a seguir a camada de servos: pastores, agricultores de amendoim, artesãos e comerciantes ambulantes (os Gilas).

É de salientar, também, a organização dos Balantas em que a "subserviência feudal" não existe, sendo a família o centro do poder e as relações entre as famílias ou entre os indivíduos pautadas pela igualdade de direitos e deveres.

Foi evidente a tentativa de modificar o estatuto "feudal" das sociedades Fula e Mandinga, pelo esforço de politização introduzido pelas autoridades políticas, mas transformações desta natureza levam a conseguir o tempo de muitas gerações, pelo que ele permanece e permanecerá durante muito tempo, sem, todavia, a este estatuto feudal se poder ou dever atribuir o sentido algo pejorativo que tem na Europa Há alguns anos foi publicada a "Lei das Terras". Parece-nos um trabalho muito meritório. Não é exaustiva na enumeração de direitos dos cidadãos e dos estrangeiros. Mas tem de se reconhecer que ela procura seguir uma filosofia básica de bem comum e uso em proveito colectivo.

Leis desta natureza e alcance demoram muito tempo a "regularizar" uma Sociedade. E não se sabe mesmo, ainda, se é legítimo que "regularizem".

NOTAS Como etnias e sub-etnias contamos: Badjarancas; Bagas; Baiotes; Balantas-Bravos; Balantas-Canja; Balantas-de-Lona; Balantas-de-Naga; Balantas-Mané; Bambarãs; Banhuns; Beafadas; Bijagós; Brames; Cassangas; Cobianas; Felupes; Fulas-Boencas; Fulas-Forros; Fulas-Pretos; Futa-Fulas; Jalofos; Jaloncas; Jancancas; Landumãs; Mandingas; Manjacos; Nalús; Oincas; Papeis; Saracolés; Sossos; Suruas; Tandas e Temenes.

Segundo dados que julgamos aproximados, a população divide-se pelos seguintes (Etnias e suas Sub-etnias) Grupos:

POVO(ETNIA) % Balanta 27 Fula 23 Mandinga 12 Manjacos 11 Papeis 10 Restantes 17

O TERRITÓRIO Após acordo/convenção assinada entre Portugal e França em 1886, pelo qual Portugal cedeu à França a zona de Ziguinchor e a França cedeu a Portugal a zona de Cacine, fixaram-se, definitivamente, as actuais fronteiras da Guiné-Bissau.

Mas o actual Território, nas zonas de Bolama/Rio Grande de Buba e Arquipélago dos Bijagós havia sido "dominado" pelos Ingleses desde 3 de Agosto de 1792 até 21 de Abril de 1870, data em que Ulysses Grant, presidente dos E. U. A., servindo de árbitro entre Portugal e Inglaterra, reconheceu a Portugal o seu direito de posse.

NOTAS * Embora a discussão da data da independência possa ter pouca importância há que referir que a declaração, unilateral, foi feita em 1973. * Os actuais políticos consideram a declaração unilateral de independência em Madina do Boé, em 1973, como o marco histórico que tornou o País independente.

A Guiné-Bissau possui um Território fisico-político de 36.135 km2 (o que corresponde a 3.613.500 hectares). Se considerarmos o Território sob o ponto de vista económico e agronómico, só 3.350.000 hectares podem ter interesse de observar, seja porque podem produzir agricolamente, seja porque têm cobertura arbórea, embora de difícil acesso e de fraco valor. É claro que a estes valores se devem acrescentar à área do Território o das suas águas territoriais (muito importante até), pois nelas se pode produzir riqueza.

É conhecido o seu valor em peixe e crustáceos, assim como o de hidrocarbonetos cuja exploração pode vir a ser economicamente rentável. Mas não a referiremos, para já.

Dos 3.350.000 hectares aproveitáveis, três quartos (cerca de 2.750.000 hectares) estão ocupados por floresta várias consociações (incluindo culturas inter-meadas) e apresentando vários tipos:

TIPO DEPOVOAMENTO DAFLORESTA DOTOTAL AGRÍCOLA Floresta sub-húmida densa(ao Sul litoral) 5,2% 3,8% Floresta aberta ou degradada, 44% 33% Floresta seca e semi-seca, 34% 26% Floresta de galeria, que inclui palmares, 3,2% 2,5% Mangal, 11,5% 9% Mangal com lalas, 1,3% 0,95% Floresta de transição, 1% 0,69% Floresta sub-húmida empobrecida (ao Sul litoral) 1% 0,7%

NOTAS * Morfologicamente, quanto ao solo, distinguem-se: a zona de colinas de Boé; do planalto de Bafatá; do planalto (pene-planície) do Gabú; da planície do litoral e, ainda, as zonas de transição de Forreá a Sul e de Oio a Norte. * A fronteira marítima entre o Senegal e a Guiné-Bissau está ainda em disputa no Tribunal de Haia (isto em 1986).

A restante parte do Território (para além dos valores acima apresentados para a floresta), cerca de 24%, está sendo cultivada: cerca de 6% com arroz (incluindo as zonas de lalas sob mangal), cerca de 8% com outras culturas diversas incluindo amendoim e prados; palmeiras estremes cerca de 3,5% e savana cerca de 6,5,%. Dizer que esta parte do Território está sendo cultivada não é correcto, pois o óptimo agronómico nunca foi vislumbrado na Guiné-Bissau, nem nos parece que o venha a ser tão cedo. Com efeito, a savana, por exemplo, não é rentabilizada com a semeadora de ervas paliáveis para o gado; a floresta é literalmente destruída com as "queimadas" anuais da agricultura itinerante; os madeireiros (uma única empresa responsável «em 1986») não seguem normas de desbaste que permitam a regeneração, nem abatem o suficiente para que haja renovação, etc..

O Território é cortado por inúmeros rios e ribeiros ziguezagueantes, mas os mais importantes são de Norte para Sul: * O rio Cacheu desembocando entre a ponta de Bolôr e o Cabo da Mata de Ocon, que é navegável durante cerca de 170 km, isto é, até junto de Farim. * Desaguando junto á ilha de Piche o rio Mansoa; * Desaguando junto à ponta Volvo, o rio Geba, que é navegável até Xime, durante cerca de 80km. * Em Xime junta-se ao Geba o rio Corubal, que nasce no Futa-Djalon, na Guiné Conackri e é, em extensão, o maior Território. * O Rio Grande de Buba não é propriamente um rio mas sim um "braço de mar". Começa em Buba e termina junto a Bolama. * Também o "Rio" Tombali é um "braço de mar". Começa perto de Bijanto Gantua Balanta e desagua no canal de Canhabaque, frente à ilha Roxa. * O Rio Cumbijã, que vem dos lados de Quebo (região de Forreá), desagua mesmo a Norte da Ilha do Melo. * Por último, há a referir o Rio Cacine que é navegável por navios de pequeno calado (até 2 metros), durante 60km.

NOTAS * O sistema hidrográfico é formado por três bacias: a do Farim/Cacheu; a do Geba (que ultrapassa a fronteira Nordeste) e a do Corubal (que também ultrapassa a fronteira Leste, pois o rio nasce no Futa-Djalon). * É claro que a primeira das bacias referida não se circunscreve unicamente ao Território nacional, ultrapassando a fronteira Norte.

ARROZ As lalas e as bolanhas são cultivadas, geralmente duma forma intensiva, especialmente com arroz. Destacam-se as da região do Tombali, talvez mais aproveitadas. Haviam sido, em grande parte, abandonadas devido à instabilidade dos tempos de guerra.

É de referir o esforço hercúleo que os Balantas fazem, em qualquer parte do Território, para conquistar terreno de cultura aos rios com ou sem influência das marés.

Fazem diques de lama com comportas que abrem na maré baixa. Não entrando aí a água salgada e descarregando a água das chuvas, faz-se uma lavagem da salinidade para permitir a cultura do arroz. A salinidade é também arrastada para camadas mais profundas do solo, pela infiltração da água doce das chuvas.

Falamos da cultura do arroz porque é a base alimentar da população. Não se pode calcular com exactidão, actualmente, a produção de arroz, embora números referidos a cada passo nos digam que a produção é muitíssimo mais baixa do que aquilo que poderia ser e já foi.

A título de comparação referiremos alguns números: Cerca de 8% do solo com aptidão agrícola serve à produção de arroz. Isto corresponde a cerca de 275.000 hectares, dos quais há a distinguir, pelo menos, seis graus de produtividade, isto é, com mais ou menos aptidão, quer para arroz de sequeiro quer para arroz de regadio. Este último é fortemente condicionado por dois factores: salinidade elevada dos solos e impressibilidade das inundações, devido à precariedade das obras de protecção.

No de sequeiro há que ter em conta o elevado grau de erosão nalguns solos e a fraca fertilidade noutros. Mas destes 275 mil hectares podem considerar-se muito bons cerca de 60.000 hectares, ou seja, cerca de 20% do total apto para esta cultura.

NOTAS * É de aceitar o corte drástico no endividamento externo, do ponto de vista macroeconómico, operado entre 1980/1982. Obviamente, sofreram com isso, pelo menos seis projectos financiados pelo estrangeiro, directamente ligados ao desenvolvimento da produção de arroz, para além de outros que se destinavam a infra-estruturas centrais mas que apoiariam esta produção. * Os projectos directamente prejudicados (melhor dizendo: afectados) totalizavam investimentos cuja "ajuda" externa rondava 14,5 milhões de US Dolares à data dos cálculos de custo. * Aceitamos como correcta a decisão de travagem de tudo o que significava endividamento externo, mas julgamos que seria agora de realizar a decisão e estabelecer prioridades. Calcula-se que a produção de arroz, em 1973 (ano de provável máximo abandono de terras) tenha sido de 100.000 toneladas e a média entre 1977 e 1980 tenha sido de 47.500 toneladas.

Como confirmar?

Segundo cálculos muito imprecisos também, cerca de 100.000 hectares (mais ou menos 36% dos solos com aptidão para arroz) estavam a ser cultivados em 1981.

Se calcularmos uma produção média de 800 kg por hectare (produção baixíssima) a produção total teria sido de 80.000 toneladas. O que parece exagerado.

É muitíssimo difícil fazer observações quanto às produções na Guiné-Bissau, quaisquer que elas sejam. Prejudicam-nas a ausência de estatísticas, a falta de circuitos comerciais regulares, a falta de estruturas industriais ou semi-industriais, a forte influência dos mercados irregulares, ilegais e surdos com os países vizinhos, a falta de produtos de troca para abastecimento das áreas rurais, a ausência de poder de compra da moeda local, etc., a falta de transportes.

Convém lembrar que a Guiné-Bissau já em 1920 exportava 200 toneladas de arroz, em 1940 exportava 4.370 toneladas e em 1961 encontramos também valores de exportação para 604 toneladas.

Não nos preocupámos em saber se as exportações que se fizeram eram devidas a um puro exercício de "especulação" mercantil, se a um excesso de produção relativamente ao consumo. Mas lá que a partir de 1915 se exportava arroz isso é inegável e isso pode dizer-nos que a situação era bem diferente das 12.800 toneladas importadas em cada um dos anos de 1977; 1979; 1980 e das 30.550 toneladas importadas em 1978 e em 1981. E a oferta foi inferior à procura, como se sabe, neste período:

Há que referir, para melhor compreensão, que se estima a produção possível (e sem grandes luxos de cultura) por hectare, na Guiné-Bissau poder bem ser de 3 toneladas nos terrenos de boa fertilidade, de regadio.

NOTAS Parece que "psicose colectiva" contra o colonialismo de Portugal é uma construção artificial. Rejeita-se tudo sem cuidar do que era bom e bem feito. Nas actividades económicas "paga o justo pelo pecador" e o povo da Guiné-Bissau é que sofre. Assim, os 60.000 hectares referidos como de boa aptidão e de regadio bem poderiam produzir umas 180.000 toneladas, o que sobejaria do consumo anual necessário, de 130 a 140.000 toneladas. Isto não contando com a produção para auto-consumo da restante área de 215.000 hectares de menor fertilidade ou com dificuldades de cultivo. Em 1955 foram feitas observações aéreas, e registadas em mapa, que "calculavam" a área total cultivada intensivamente com arroz em 78.800 hectares. Estava repartida da seguinte maneira:

ARROZZONAS DE CULTURA (1955) % Catió 26,0 Vale do Mansoa 19,0 Vale do Geba 18,5 Cacheu 15,0 Bissau 8,0 S.Domingos 5,7 Bafatá 4,0 Vale do Tombali 2,0 Vale do Cacheu 1,0

Sem querermos ser daqueles que sabem tudo, diremos que, sendo aquela época uma época de explosão agrícola da Guiné-Bissau e tendo as potências coloniais que detinham o poder nos países vizinhos perdido as suas colónias na Indochina, teria derivado um aumento de exportações de arroz da Guiné para aí.

O arroz era, então, mercadoria valorizada e, porque havia por um lado uma produção não quantificada e exportação incontrolada (sobretudo exercida pelos Gilas) e por outro lado um incentivo à produção, praticado pelo comércio tipo colonial exercido pelos comerciantes legalmente estabelecidos, é de prever que as áreas referidas sejam aquelas que maiores e melhores condições naturais têm para a produção.

NOTAS * Os 60.000 hectares aptos para a cultura do arroz não poderão produzir 10.000 kg a 12.000 kg por hectare, como produz um hectare de terra privilegiada em Espanha ou em Itália. * Mas 800 kg/hectare também é muito pouco. * A média de Portugal é de 4.000 kg/hectare, que também será exagerada para a Guiné-Bissau, mas uns 3.000 kg/hectare é, provavelmente, possível.

Parece também deduzir-se que a produção se deveria, na altura acima indicada a: % ETNIA 75,0 Balantas 12,5 Manjacos 6,4 Papéis 5,7 Felupes

E, tudo isto quer dizer que, se em primeiro lugar está, em qualquer parte do mundo, o "dar de comer a quem tem fome" e se os hábitos alimentares da população se baseiam no arroz, há que produzir arroz, nos lugares onde é mais que provável produzi-lo, com as pessoas que mais hábitos tradicionais de produção dele têm. Estudos económicos, projecções de produtividade, pedidos de sementes seleccionadas e adubos, etc., são questões de somenos importância quando os meios próprios são (ou serão se orientados) capazes de evitar a carência alimentar primária. Que é dramática!

Mas obviamente que "não só de arroz vive o Homem"! Há que considerar outras culturas.

Considerando básica a necessidade de produzir arroz, há que encarar esta cultura duma forma moderna.

Não podendo os Serviços Públicos assumir a responsabilidade de produzir arroz, talvez pudessem, nalgumas regiões, estimular o aparecimento de empresas mistas, por exemplo entre técnicos e agricultores, o que iria levar, certamente, ao aumento da produtividade.

É claro que o Autor não é a pessoa indicada para dizer qual a melhor forma de organização social a estimular, mas sabendo-se que os técnicos, enquanto técnicos, só têm lugar praticamente nos Serviços Estatais e para eles dilui-se a responsabilidade da máxima produtividade das terras: cumprem o seu horário de trabalho, dão o seu esforço dentro desse período de tempo e, a partir daí, não se sentem mais responsabilizados pelos eventuais insucessos, que atribuem sempre "aos outros".

Por outro lado, "exigem" os melhores ambientes de trabalho, o máximo de meios técnicos possíveis. Quando isso não acontece!... Por outro lado, o agricultor da Guiné (como já se referiu) cultiva para fazer face às suas necessidades. Para que quer ele mais ? Ora, se os técnicos pudessem obter uma remuneração suplementar, percentualmente ligada à produção que ultrapassasse mínimos estabelecidos, julgamos que a produção cresceria.

Os agricultores beneficiariam disso directamente, as modernas técnicas de cultura seriam apreendidas e passariam a ser praticadas por eles, ao contrário do que agora acontece.

Note-se que, actualmente, nas agriculturas evoluídas tecnicamente, a produção média de arroz por hectare (como se sabe, um quadrado de 100 metros de lado) é de 4.500 kg.

Mas nos terrenos melhores (só se considera o regadio) as produções correntes são de 10.000 a 12.000 kg por hectare. Isto, comparado com os 700 a 800 kg que se obtêm na Guiné é uma disparidade muito grande.

NOTAS * Embora o agricultor não se aperceba, seria impossível a actual produção mundial de alimentos se não houvesse técnicos agrícolas. * São eles que ajudam a aumentar as produções e os rendimentos.

Repete-se que o autor não é especialista.

Tem só conhecimentos de agronomia; o que não impede que possa dizer alguma coisa sobre o assunto, como está a fazer.

A título comparativo pode dizer-se que em 1976 Portugal cultivou a menor área de sempre (22.000 h.), o ano foi muito seco, na sequência de dois anos anteriores também muito secos. Pois, a produção foi de 97.000 toneladas, o que equivale a dizer que foram certamente cultivados os terrenos mais aptos e que a produção média foi de 4.040 kg por hectare.

Será que dos 60.000 hectares bons para a cultura do arroz, na Guiné-Bissau, não se poderão escolher 22.000 hectares muito bons? Se sim, então a melhoria técnica da cultura levaria à produção neles duma quantidade que, se não satisfaz as necessidades, quase o conseguiria.

A selecção das sementes não poderá ser feita ao acaso e seria bom se houvesse, do passado, resultado de experiências de campo. Receamos não haver.

Mas constituirá isso um problema real? Talvez não. Vejamos: A Guiné-Bissau pode recorrer aos serviços técnicos da FAO, que nisto do arroz tem bons especialistas.

O Território fica situado numa faixa do mundo, em latitude, em que se situam países como Gâmbia, Senegal, Guiné Conackry, Mali, Níger, Chade, Sudão, Etiópia, Índia do Sul, Tailândia, Venezuela do Norte, Colômbia do Norte, Panamá, etc., etc. ...

Conhecendo as características dos solos da Guiné-Bissau, que se conhecem bastante bem; conhecendo os factores que influenciam o clima da Guiné, que se conhecem muito bem, será fácil optar por duas ou três variedades de arroz que, certamente, produziriam muito mais do que as variedades locais.

E qual é o problema de pedir a ajuda da FAO? Julga-se que não é nenhum.

A Guiné-Bissau paga para as Nações Unidas a quota mínima de 0,01% das despesas da O.N.U., mas isso representa cerca de 1% do Produto Nacional Bruto do País. Para quê? Por solidariedade somente para com outros países? A solidariedade "começa por nós próprios" e a Guiné-Bissau é, provavelmente, o País mais pobre do mundo (à luz das estatísticas).

A melhoria da cultura implica a utilização de adubos e de pesticidas. Tem que ser encontrada a forma de financiamento necessária para estes e para as sementes. Julgamos que não deve ser feita "oferta". Isso levará ao sistema de trocas, ou seja, ao funcionamento dos mecanismos de mercado, que já de si será estimulado pela presença dos técnicos nas regiões, com naturais hábitos de consumo.

Como fertilizante é provavelmente suficiente a ureia a 150/200 kg por hectare e talvez o fósforo e o potássio a 50/60 kg cada. Como pesticidas haverá que escolher um herbicida ou dois, por exemplo de molinato para as infestantes gramíneas e de bentazona para as de folha larga.

Após a colheita, a produção excedentária ao consumo do agricultor obrigará ao pressionamento do seu escoamento. E os técnicos, para poderem "receber" o seu pagamento de "recompensa", se encarregarão de procurar os canais mais rápidos para as unidades de descasque e canais de distribuição. O arroz é, como se disse, a cultura de subsistência há muito adoptada.

Por isso descemos a estas considerações que, é óbvio, pouco têm a ver com aspectos agronómicos práticos. Repetimos: sentimos um certo desconforto ao subscrever o que acima dissemos. Mais do que tudo gostaríamos que aquilo que dissemos tem boa intenção e não pretende "dar lições" seja a quem for.

NOTAS * As autoridades da Guiné-Bissau deveriam pedir ajuda em sementes, adubos, gados de charrua, etc., em vez de pedirem produtos de consumo. * Quem fornece as ajudas deveria orientar-se nesse sentido e não no de escoar os seus excedentes, quer de produtos quer de mão-de-obra, traduzida em «cooperantes».

MILHO

Também o milho é uma cultura de subsistência e pode ir muito bem em muitos terrenos da Guiné-Bissau. Neste, devido à grande possibilidade de escolha, entre as variedades híbridas disponíveis no mercado mundial, as produções poderiam provavelmente ser feitas duas vezes por ano, embora numa delas os problemas da sementeira se pusessem e na outra os da secagem.

Mas, francamente, julgamos que, escolhendo uma variedade de ciclo vegetativo completo de 85 a 90 dias e outra de 130 a 135 dias os dois problemas poderiam ser minimizados. Outra vez se impõe a escolha com o auxílio da FAO.

Outra vez, porém, somos levados a dizer que, se a FAO existe para ajudar a resolver os problemas alimentares, talvez não haja no Mundo país que, proporcionalmente à sua riqueza, tanto pague para as Nações Unidas e tão pouco receba daí, percentualmente às despesas desta organização.

E os problemas alimentares na Guiné-Bissau são dramáticos, minimizados com o auxilio/dádiva de países "amigos" (diríamos que "amigos, amigos, negócios à parte" e a Guiné-Bissau conta com várias experiências muito desagradáveis nesta matéria!).

A situação pode e deve ser vencida internamente. Uma das culturas que tem tradições na Guiné-Bissau é a do milho. Este cereal, em termos mundiais, é destinado em cerca de 50% para a alimentação dos animais domésticos (especialmente suínos e aves).

Mas, na Guiné, o milho representa um forte contributo na alimentação humana. Cultivam-se diferentes variedades regionais de milho, mas dir-se-á que todas elas sem valor económico e alimentar, face aos avanços tecnológicos de que este cereal tem beneficiado ultimamente, particularmente nos aspectos da hibridação, mas também quanto às suas exigências culturais.

Neste momento conhecem-se e utilizam-se inúmeras variedades híbridas, cujo ciclo vegetativo total (da sementeira à colheita) vai desde os 80 dias aos 140 dias.

Ora, há duas épocas potencialmente próprias para a sua cultura na Guiné: a época em que o terreno não está saturado de água mas em que já é possível a sementeira (todavia sem recurso à mecanização que, aliás, seria opção má, do nosso ponto de vista, pois há que dar trabalho ao maior número possível de pessoas) e a época em que os terrenos estão cedendo água, nos fins do período das chuvas, quando a lavoura já é possível e as sementes ainda germinarão em boas condições.

Para a intensificação da cultura há que optar por híbridos, nas áreas onde o milho de variedades regionais não está sendo cultivado, para evitar o seu cruzamento com as variedades regionais. Dos vários híbridos disponíveis, parece que se deveria optar pelas variedades mais ricas em aminoácidos, como é o caso da "Opaco 2" e da "Floury 2".

O milho vai bem em terrenos de ph abaixo de 7, que são frequentes na Guiné. Não vai bem, pelo contrário, nos salgados. Isto é importante considerar, tendo em vista a não concorrência com a cultura do arroz.

A cultura, tal como noutro ponto deste caderno se diz, deveria ser "acompanhada" pelos técnicos, no sentido de associação com os agricultores, estimulados pelo rendimento monetário suplementar, e não no de assistência técnica estatal, ou cooperativa na acepção ocidental do termo.

Com o acompanhamento da cultura pelos técnicos obter-se-ia, seguramente, uma poupança em fertilizantes e em pesticidas e diminuir-se-ia a itinerância da cultura praticada com recurso às queimadas. É que o técnico, para aumentar o seu rendimento praticaria, duma forma natural, a rotação com outras culturas, por exemplo fava, grão-de-bico, tremoço, etc., com o fito de azotar a terra duma forma natural e mesmo obter massa verde que, enterrada à sementeira do milho, supriria a falta de matéria orgânica proveniente dos estrumes, que são inexistente.

NOTAS * Talvez para começar a criar hábitos de cultura moderna fosse de optar por variedades de milho de ciclo longo de 125 dias, correspondente à classe 700 FAO. * A tendência natural dos povos é mecanizar as tarefas duras. É legítima essa procura de melhoria das condições de vida. * Mas, objectivamente, e neste momento, a Guiné não tem alternativa de trabalho para os excedentes de mão-de-obra que a mecanização agrícola produz. * A mecanização resultaria no aumento dos que comem sem trabalhar.

Sabe-se que a produção (boa produção média) de 6 toneladas de grão por hectare necessita de 125 kg de Azoto. Pois, a cultura de fava, por exemplo, pode produzir uma incorporação de cerca de 60 kg de Azoto por hectare e pode permitir uma apanha de 2.500 kg a 3.000 kg de grão para consumo humano ou animal. Considerando rotações culturais largas, a cultura de milho pode proporcionar um forte contributo para resolver o problema alimentar básico da população.

A Guiné-Bissau tem aptidões agrícolas muito grandes. E, é importante considerar que tem algumas infra-estruturas capazes de rentabilizar a produção derivada dessas aptidões.

Deixaremos para mais tarde uma análise mais cuidada, mas queremos, neste momento, contrariar as opiniões correntes de que, por exemplo, empreendimentos/investimentos como a Titiana Silá ou o complexo do Cumeré foram megalómanos e sem utilidade rentável.

As vias de comunicação por estrada não existem, praticamente. O transporte das produções para os centros fabris é difícil. Os rios são navegáveis mas não há barcos nem portos fluviais. Mas quem não tem o trabalho de que gosta é "obrigado" a trabalhar no trabalho que há. O comércio surdo com os países vizinhos sempre se fez transportando á cabeça os produtos.

Não se quer mais escravatura ou trabalhos forçados, mas não se devem estranhar as condições duras do esforço braçal, mesmo na época em que se vai à lua mais depressa do que de Gabú a Cacine.

Seria bom pensar e equacionar a questão seguinte: deve ser estimulada a produção para depois se montarem as infra-estruturas industriais destinadas ao seu tratamento, ou o inverso ? Apareceu primeiro a galinha ou apareceu o ovo?

A nosso ver, o agricultor não poderá suportar o compasso de espera de ver os seus produtos sem valorização até que se montem as infra-estruturas que os valorizem. Ele, agricultor, não está capitalizado para suportar as ausências de lucro do seu trabalho e esforço. Por outro lado, é preciso não esquecer que uma economia global não é um simples jogo de ganhos e perdas individuais. É que, se o agricultor tiver lucros e não houver que comprar, de que lhe servem os lucros? Ora, era importante referir estes "pequenos" pormenores, antes de analisarmos outras potencialidades agrícolas da Guiné-Bissau, mais viradas para o comércio.

NOTAS * O hábito de cultura do "fundo" como minimizadora dos problemas nutricionais graves da época de maiores carências alimentares pode permitir a fácil introdução do sorgo, outro cereal que julgamos de fácil adaptação à Guiné-Bissau. * Tal como no milho, conhecem-se inúmeros híbridos de sorgo, pelo que seria fácil escolher aqueles que melhor e mais fácil mente se adaptariam. * Não há hipótese de melhoria quando, reconhecendo-se a inadequação das infra-estruturas, se gasta o tempo com lamentações. * Gaste-se com as tarefas de reconversão dessas erradas infra-estruturas. É o que nos parece dever ser feito com o empreendimento do Cumaré.

AMENDOIM

O amendoim foi uma das grandes fontes de receita do País. Sê-lo-á actualmente ? Cremos que não.

Durante muito tempo esta cultura foi largamente praticada, muito especialmente nas áreas do Nordeste e Centro Norte. Mas, afinal, um pouco espalhada por todo o Território.

O amendoim era um sucedâneo das outras oleaginosas. Na Europa (zona mediterrânica) a oliveira ia sendo uma cultura cada vez mais cara; na África a palmeira exigia investimentos a longo prazo para começar a produzir; a soja era ainda uma cultura desconhecida.

Assim, o amendoim resultava eficaz como cultura com inversão dos investimentos duma forma rápida, fácil de cultivar com fraca tecnologia e capaz de produzir onde, para produzir outra coisa qualquer, era exigido muito mais trabalho. Daí cultura barata, custo baixo de produção dum produto que servia aos interesses da industrialização.

Mas, se virmos atentamente, as circunstâncias e razões parece estarem alteradas.

Outras oleaginosas são agora suas fortes concorrentes: o girassol, a soja e até a colza, apesar dos perigos que parecem derivar do óleo desta última cultura.

NOTAS * Observações recentes demonstram grandes potencialidades económicas em várias culturas industriais. * São, principalmente, de frutas tropicais, não só pelas aptidões dos solos como pela proximidade dos grandes mercados consumidores europeus, comparativamente à actual proveniência das mesmas. * É o caso, por exemplo, da banana e do ananás.

Mas enfim, o amendoim (na Guiné chamado de MANCARRA em Crioulo, GUÉRTÊ em Fula, ULIC em Mancanha, TIÔ em Mandinga e UPIATE em Manjaco) é ainda uma produção capaz de satisfazer as exigências dum país com falta de óleos alimentares e de óleos industriais, como por exemplo para o fabrico de sabão.

Entre 1940 e 1950 as exportações de amendoim da Guiné-Bissau foram em média de 61% em peso e de 46% em valor do total das exportações feitas.

Antes do mais é importante realçar ser um grave erro económico deixar chegar uma economia a esta situação.

É que, à mínima crise nos mercados consumidores "vai toda a economia do País por água abaixo". Mas, sem que isso tenha que ver com a situação actual, diremos que a situação na altura seria tanto mais grave quanto se sabia que o destino das exportações era um só, isto é, Portugal.

Então, a crise, se a houvesse, não teria qualquer paliativo, pois não haveria destino alternativo da produção, a mais baixo preço que fosse. Salvava isto a zona do escudo, em que a economia global assentava (ainda não bem) e o facto, presumido, de que quem orientava a indústria em Portugal era quem a orientava na Guiné-Bissau. Mas isto, que parece favorável, também poderia constituir uma grave limitação.

Em 1926 exportavam-se 20.700 toneladas; entre 1940 e 1950 a média de exportação de amendoim foi de 32.600 toneladas. Em 1961 exportavam-se 40.000 toneladas, o que representou exactamente 49,65% das exportações totais em peso, sendo de 59,79% em valor. É de notar a inversão dos números peso/valor, comparativamente à década de 1940/1950.

Embora com todo o rol de aspectos que podemos considerar negativos na cultura do amendoim, ela sempre foi uma das maiores fontes de receita da Guiné-Bissau.

Por isso devem ser tidos como muito maus sintomas os seguintes valores: as exportações entre 1976 e 1981 foram em média de 9.000 toneladas (nível sensivelmente igual a metade da quantidade exportada em 1920).

NOTAS * A industrialização do amendoim colhido não deve ser direccionada unicamente na extracção de óleo. Uma eficaz acção de "marketing", conjugada com as reais e grandes potencialidades de escoamento das frutas tropicais nos mercados europeus pode multiplicar por várias vezes o rendimento com uma simples operação de escolha, seguida de torrefacção e salga, para venda como aperitivo. * Neste conceito, o aproveitamento do amendoim apoia a cultura racional do cajueiro, sendo que esta tem interesse económico evidente sem necessidade de demonstração teórica e, muito importante, permite a "clarificação" de vastas zonas de mangal e recuperação de muitas zonas "Sahélicas".

Bem, nós diríamos que para 6 anos (últimos apontados acima) não há desculpa de seca, de desorganização social, etc., que justifique minimamente estes números.

E mesmo a produção, grande parte da qual é industrializada ou consumida internamente (nós estamos procurando dados sobre isso), foi de 27.000 toneladas em média para estes seis anos, o que é sensivelmente o nível das exportações em peso entre 1936 e 1940, anualmente.

É muito difícil apontar esta cultura como de futuro; mas também a podemos considerar com benevolência ao reparar que, se em 1955 a Guiné era o 4º país africano exportador de amendoim (à sua frente o Senegal, a Gâmbia e a Nigéria) é porque tinha reais potencialidades de produção, potencialidades essas que se, eventualmente, se degradaram devido ao desgaste que a cultura causa ao solo, é bem possível que este já se tenha regenerado, pelo abandono da cultura que os números traduzem.

Geograficamente a cultura do amendoim distribui-se por todo o Território, mas parece que, se não for implementado um sistema de recolha eficaz em que o abastecimento de sementes seleccionadas está implícito como troca (troca directa ou não), não se poderá esperar aumento da produção.

E o mesmo se diz para o abastecimento de outros produtos ao agricultor. Se ele não pode gastar o que ganha, porque não tem em quê, para que quer os ganhos ?

Se a sua moeda não tem valor!

Obviamente trabalha para comer, somente! É claro que a cultura é mais apropriada para os plainos do interior. Mas note-se que é aí onde mais cuidado é necessário para evitar as "queimadas" que estão destruindo o equilíbrio ecológico dessa parte do Território.

A título de relato "como que histórico" diremos que por meados da década de 50 se tentou normalizar esta cultura. À data gastavam-se cerca de 6,6 toneladas de semente, mais ou menos seleccionada (a selecção dependia de pessoas sem classificação específica, como os Chefes posto).

A Guiné-Bissau nunca se estruturou eficazmente, em termos económicos, para rentabilizar esta cultura.

Porque em Portugal estava montada "uma moderna fábrica de óleos" não se estimulou a implantação de unidades transformadoras de amendoim na Guiné. Transportes baratos justificavam as exportações em "natureza". E note-se que quem poderia fazer a industrialização da produção na Guiné era quem a fazia (ou fez) em Portugal.

Enfim, mas os estudos levados a cabo e isso é que nos interessa reter neste momento, tinham em vista a produção; a cultura. E deles resulta que se propunha a distribuição de sementes seleccionadas, proporcionalmente, da seguinte maneira:

REGIÕES % S. Domingos 1,5 Bissau 3,8 Cacheu 5,3 Fulacunda 7,0 Mansoa 15,0 Bafatá 20,0 Farim 23,0 Gabú 24,0

Esta distribuição de sementes seleccionadas estaria em consonância com as potencialidades produtivas de cada região e estamos quase certos de que tinha em conta evitar, tanto quanto possível, a alteração do equilíbrio ecológico.

Técnicos e cientistas Portugueses estudaram e propuseram isto, que não tinha nada que ver com os interesses económicos. Seria bom atentar-se nestes factos para orientar a reanimação da cultura.

Dados recentes dizem-nos que 2.000.000 de hectares do solo da Guiné têm vocação agrícola (no conceito já exposto, a que há a acrescentar os solos de vocação orizícola e de silvo-pastorícia). Assim, sem prejudicar a cultura do arroz, teremos para outras culturas esta área.

Não podendo ser prejudicada a área florestal, por exemplo, utilizar-se-ia parte da área disponível com limitação de água, o que equivale a cerca de 73.000 hectares, e de aptidão diversificada, o que equivale a cerca de 200.000 hectares.

Se os 273.000 hectares fossem cultivados com amendoim (impossível e indesejável) teríamos uma produção global de cerca de 220.000 toneladas, o que seria cerca de 10 vezes a produção média do período 1977 a 1980 e muitas vezes superior à maior produção já alguma vez havida na Guiné-Bissau.

Obviamente que isso seria muito bom para a população em geral! E, quanto ao amendoim só há a dizer que poderá ser industrializado na Guiné-Bissau: poupando custos de transporte, dando trabalho a muitos braços, embora estas considerações tenham pouco a ver com o aspecto agrícola, directamente. Mas é bom tê-las em mente!

FLORESTA

E continuando, não podemos deixar de analisar o sector das florestas, pois são estas, provavelmente, das maiores riquezas que a Guiné tem. Se bem entendida a sua função, elas podem "dar de comer" a muita gente (e de beber; não se esqueçam os vinhos de palma e de cibe, por exemplo, extraídos por Balantas e Beafadas).

Quando se pensa numa floresta como a da Guiné pensa-se em densa floresta impenetrável, a não ser à custa de cortes das lianas com catanadas a "torto e a direito".

Temos que dizer que não é bem assim!...Há de tudo. Mais do que noutro qualquer aspecto da produção agronómica, as florestas são influenciadas pela inter-relação solo/clima. Numa área paralela à costa, duma largura de uns 60/70 km, o clima é húmido e os solos hidromórficos, com alta salinidade e quase só aptos, em grandes áreas, ao crescimento do mangal. Como se disse já, a cultura do arroz é também aí praticada.

No que diz respeito à floresta, ela tem um valor económico relativo, mas é aí que, também mais frequentes se encontram as árvores de fruto e a palmeira de dém-dém.

Considerando o todo do Território, no Sul encontramos a floresta sub-húmida, ao Centro e a Nordeste a floresta semi-seca. No interior encontram-se a floresta seca e as savanas. Medindo as áreas totais podem estimar-se em cerca de

HECTARES POVOAMENTO 110.000 Palmares; 155.000 Sub-húmida; 300.000 Mangal. 860.000 Seca e semi-seca; 1.300.000 Floresta aberta e savanas 2.725.000 TOTAL

Como salta à vista, a floresta ocupa à volta de uns 75% da área total do País (ou uns 82% da área agricolamente útil). Pelo meio dos aglomerados arbóreos e arbustivos há lalas e bolanhas, savanas e zonas degradadas pelas "queimadas".

A sensação que se tem quando se atravessa o Território é de que a vegetação arbórea vai escasseando para o interior.

Durante muito tempo a Guiné deixou explorar as suas florestas sem criar regras de reconstituição das mesmas, sem criar reservas intocáveis, etc. (não se estão a apontar os "responsáveis" actuais como responsáveis por isso...).

As queimadas destroem muito com um benefício directo fraco das culturas que permitem fazer. Com elas a erosão alastra, as reservas de água no solo diminuem, o resto da floresta que fica sofre e vai morrendo.

As exportações de essências florestais devem rondar de perto os 9% (dados para 1986) em valor das exportações totais.

Julga-se que, pura e simplesmente, por uma questão de gigantismo duma só empresa estatal, encarregada da exploração florestal (e industrialização das madeiras) é que a floresta rende à Guiné só isto!

Calcula-se, sem grande margem para dúvidas, que o rendimento poderia ser 7 a 8 vezes superior. E é claro, entendendo exploração florestal só no sentido tradicional do termo, pois poderia produzir carvão, álcool etílico, gás de madeira, alcatrão, etc..

A Guiné está às portas da Europa, seu principal e provável único mercado de madeiras.

Porém a Europa vai buscar as madeiras muito mais longe (parece-nos que a Guiné tem um só importador de madeiras na Europa, em Portugal, o que é caricato nos tempos que correm!).

Desde muito cedo (por volta de 1945) que os madeireiros "descobriram" a floresta de transição que borda o rio Cacheu. E foram abatendo as árvores mais valiosas, especialmente o mogno.

Isso, salvo raros casos, pouco mal fazia à floresta, do ponto de vista de equilíbrio ecológico global, pois as matas não eram homogéneas e os madeireiros tinham de abater uma aqui outra ali, sem desbaste em massa.

Mas "cataram" uma a uma as melhores essências, que não só o mogno: o pau-bicho, o pau-conta, o mambode, o mancone, o incenso e a farroba-de-lala.

Isto veio a constituir algum problema a nível de exploração, pois passou a ser necessário ir procurar essas essências longe dos rios navegáveis (fundamentalmente Cacheu) nas margens dos quais se faziam os cortes. Aproveita-se para referir que a exploração das madeiras não era feita nas melhores condições.

Por exemplo, o corte de cibes que era feito, para as necessidades de construção interna, trouxe como consequência uma "montandade" dos cibes que ficavam, pois os madeireiros deixavam ficar na floresta os restos dos abatidos, donde derivou uma praga de "oryctes gigas" que atacou os cibes adultos.

Mas é claro que também a "sangria" efectuada nos cibes adultos, especialmente pelos Balantas e Beafadas, para fazerem vinho, conduziu e conduz aos mesmos resultados. "Sangrados" os cibes, estes morrem, ficando de pé e constituindo enorme e perigoso ninho de larvas do "oryctes gigas" que vão atacar os outros cibes.

Note-se que, se o cibe "sangrado" morre, matem-se os cibes em altura de "sangrar" (cerca dos 60 anos de idade) e proíba-se o abate dos não "sangrados".

É que um cibe "sangrado" dá cerca de 900 litros de vinho de cibe. E queremos impedir que o Balanta ou o Beafada aproveitem isso? É impossível, é economicamente aberrante e até desumano. Sejamos práticos! "Sangrem"-se os cibes e aproveitem-se para madeira. Mas é claro que exploração florestal é exploração florestal e, das 120.000 toneladas de madeiras diversas que poderiam e deveriam ser cortadas (não se esqueçam os prejuízo do envelhecimento florestal por falta de cortes!), só cerca de 8.500 toneladas o são. Note-se que estes números não são só diferentes dos anteriormente referidos: São estimativas independentes e que colocam o "quadro" muitíssimo mais negro quanto à falta de rentabilidade e, consequentemente, prejuízos dum país inteiro!

Mas é assim! Também se poderão aproveitar (depois de estudo que nós julgamos não está feito) o pau-sangue; o pau carvão, a goiaba brava, a malagueta preta, o tarrafe, o zimbrão. Obviamente para além das essências nobres atrás referidas.

A palmeira encontra-se espalhada por todo o Território, mas surge com intensidade no arquipélago dos Bijagós, onde já nos princípios deste século havia uma indústria de extracção de óleo, em Bubaque. É também muito frequente, melhor, constitui-se em formações muito importantes, nas Galinhas de Jeta e Pecixe e em toda a zona continental a Norte do rio Mansoa, principalmente no litoral: Caió, Calequisse, Suzana e Varela.

Mas borda muitas lalas e bolanhas, principalmente para oeste da linha que une os pontos em que se sente a influência das marés (uns 60 a 70 km da costa).

Também na região do Oio: Bissorã e Olossato, a palmeira abunda. Mas por todo o Território, como se disse, há palmeira do azeite, especialmente bordando as lalas e bolanhas. Muitas vezes, a palmeira encontra-se em consolidação com o cibe, cujas rachas, isto é, quartos de toros depois de abertos em quatro e secos, constituem a mais dura e resistente madeira que se conhece para vigamentos, vedações, postes, etc..

O cuidado que é preciso ter no abate dos cibes é muito importante pois, se ficam toros sem serem abertos, para que a parte interior "esponjosa" seque, podem desenvolver-se pragas de "oryctes gigas", já referido.

Esta árvore, o cibe, poderia constituir,

 
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