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De olho no hidronegócio

29.06.2005 | Fonte de informações:

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Ao que parece, diante das crescentes referências, está se consolidando no mercado mundial uma atividade cada vez mais poderosa –o hidronegócio.

Na verdade, devemos compreender o hidronegócio a partir da compreensão do que seja água virtual, que é o conceito utilizado para calcular a quantidade de água necessária para produzir um determinado bem, produto ou serviço.

À primeira vista associa-se o hidronegócio ao tratamento e distribuição de água, às engarrafadoras e outras atividades deste tipo, mas ele é muito mais abrangente e complexo do que isto.

A água virtual está presente em tudo que usamos e consumimos, porque é parte de todos os processos de produção, direta ou indiretamente.

Na prática, a água virtual é o produto do hidronegócio e o agronegócio é o seu principal consumidor. O aparente sucesso do agronegócio nacional, também significa que somos, crescentemente, grandes exportadores de água. E isto interessa a diversos países que consideram “sustentável” subsidiar seus agricultores, poupando escassos recursos hídricos ao importar carne e grãos de países do terceiro mundo.

Isto pode ser demonstrado em interessante artigo da Eng. Vânia Rodrigues, disponível em http://www.aesabesp.com.br/artigos_agua_virtual.htm, do qual transcrevo um trecho:

***”Atualmente, em discussões técnicas, esse parâmetro está sendo avaliado como um instrumento estratégico na política da água. O comércio agrícola promove uma gigantesca transferência de água de regiões onde ela se encontra de forma abundante e de baixo custo para outras regiões onde é escassa, cara e seu uso compete com outras prioridades. É previsível que este comércio crescerá em futuro próximo, paralelamente com o esgotamento e contaminação dos recursos hídricos.

Por exemplo, a China importa cerca de 18 milhões de toneladas de soja por ano, a um custo de 3,5 milhões de dólares; por esse caminho ingressam no país 45 milhões de metros cúbicos de água. Em 2003, o Brasil exportou 1,3 milhão de toneladas de carne bovina, com uma receita cambial de 1,5 milhão de dólares. Por esse caminho, exportou também 19,5 km³ de água virtual ( 19,5 bilhões de m³ ).

Dados recentes da UNESCO (3) dão conta que o comércio global movimenta um volume anual de água virtual da ordem de 1.000 a 1.340 km³, sendo:

•67 % relacionados com o comércio de produtos agrícolas; •23 % relacionados com o comércio produtos animais; •10 % relacionados com produtos industriais.

No 3º Fórum Mundial da Água, realizado em 2003 nas cidades de Kyoto, Shiga e Osaka, o Brasil foi citado como o 10º exportador de água virtual (atrás de Estados Unidos, Canadá, Tailândia, Argentina, Índia, Austrália, Vietnã, França e Guatemala). Os maiores importadores são: Siri Lanka, Japão, Holanda, Coréia, China, Indonésia, Espanha, Egito, Alemanha e Itália. É interessante notar na figura os fluxos de água virtual no planeta.

Quantificando a “água virtual” de alimentos:

Para produtos primários como cereais e frutas, o cálculo da água virtual é relativamente simples: é uma relação entre a quantidade total de água usada no cultivo e a produção obtida (m³/ton). A estimativa da água requerida no cultivo dos vários tipos de plantas é feita em função do tipo de solo, clima, técnica de plantio e irrigação, etc. Existem softwares que podem ser usados para este fim.

Uma vez obtida a água virtual do produto primário, um inventário hídrico deve ser feito acompanhando os vários passos para obtenção do produto final.

O volume exportado de água pelo agronegócio é mais do que significativo, mas a água virtual também tem peso em outros setores. No Brasil, nossa geração de energia elétrica é essencialmente hidrelétrica, o que faz a água ser componente de tudo que demanda energia elétrica. Isto é muito claro na indústria eletrointensiva (alumínio, siderurgia, ferroligas, papel e celulose e petroquímica), principalmente na indústria de alumínio.

Dados do Ministério de Minas e Energia demonstram que 408 indústrias eletrointensivas consomem 28,8% de toda a energia elétrica produzida no País, o que a faz, ao mesmo tempo, massiva exportadora de energia elétrica e água.

Vejamos um exemplo prático – metade da energia elétrica produzida em Tucuruí é contratualmente destinada à industria de alumínio. Cerca de 41% do custo final do processamento do alumínio corresponde à energia elétrica e, no caso de Tucuruí, isto é significativo porque sua tarifa subsidiada é 30% menor do que seria no sul ou sudeste do país.

É por isto que o Japão produzia 1,1 milhão de toneladas de alumínio por ano e baixou a produção para apenas 41 mil toneladas/ano, passando a importar o restante.

Neste caso, a indústria eletrointensiva é “competitiva” porque, como todas as exportações de bens primários de baixo valor agregado, soma mão de obra barata, energia elétrica subsidiada e gigantescas quantidades de água virtual.

Enquanto isto, o hidronegócio discreta e silenciosamente trabalha pelo controle do acesso à água. O açude controlado pelo coronelismo é algo da pré-história do hidronegócio, porque era muito mais uma questão de política paroquial do que de negócio.

O semi-árido brasileiro já possui uma impressionante rede de reservatórios, açudes e adutoras, mas a maior parte da população continua sem acesso à água, majoritariamente destinada à agricultura de exportação. Este é um processo que se repete em boa parte dos paises do terceiro mundo e não é uma mera coincidência.

Esta é a lógica do hidronegócio, que será cada vez mais concentrador do acesso à água, na medida em que os recursos hídricos forem mais escassos. Quanto menor for a disponibilidade hídrica em um país ou região, maior o valor agregado aos bens e produtos em razão do “preço” da água virtual.

A partir do controle dos reservatórios e açudes cresce a tendência de buscar, como negócio, ter o controle de toda a água disponível. Logo, quem controlar uma nascente, um manancial, também controla toda a bacia e, por conseqüência, impõe seu poder de negociação em toda a água virtual incorporada à produção da região.

Nos novos projetos hidreléticas já existe a concepção de que a água estocada no reservatório é um negócio em paralelo à própria geração de energia elétrica

Esta é a essência do projeto de transposição do rio São Francisco. Ele foi concebido para garantir segurança hídrica dos grandes reservatórios, que destinam 70% de suas águas para o agronegócio exportador e à carcinocultura. O projeto não tem preocupações para com o acesso à água porque não é esta a motivação do hidronegócio.

No caso do aqüífero Guarani não é diferente porque, independente de sua vasta área, ele possui poucas áreas de recarga e afloramento. E, neste sentido, ter a “propriedade” das áreas de afloramento também equivale a ter a “propriedade” do aqüífero.

Se não compreendermos a importância de implementar as políticas públicas de proteção aos mananciais e ao acesso à água, estaremos subsidiando o poder econômico e político de quem controlar os “estoques” de água.

O século 21 erá o século da escassez de água e, por isto, o hidronegócio chegou para ficar. Se não formos atentos, este será o século do hidronegócio.

Henrique Cortez, ambientalista e sub-editor do Jornal do Meio Ambiente, henriquecortez@jornaldomeioambiente.com.br

 
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