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Lula: "Eu não vou errar na política"

29.05.2003 | Fonte de informações:

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Ele recebeu separadamente correspondentes internacionais e representantes da mídia brasileira. Leia, a seguir, os principais pontos da entrevista, segundo a transcrição publicada hoje pelo jornal O Globo:

Radicais do PT "Nós temos uma lógica. Num partido político, ou você concorda com as diretrizes emanadas ou você se afasta. Acho que quem fica pintando de dono da bola e acha que o partido não vale nada deveria então criar a figura do candidato avulso. Quero ver quem se elege sozinho, sem os votos que o partido dá. Os companheiros sabem o que fizeram. Ali não tem criança. O PT é assim e vai continuar assim, para o bem do PT. As pessoas têm liberdade para entrar no partido e liberdade para sair. É como ficar falando mal da mulher. Casou, tem que sustentar. Mas ninguém precisa esperar ser expulso. Pode sair antes."

A fita de João Fontes "O Genoino queria me mostrar a fita, mas nem vi. Você acha que tenho cara de quem fica magoado com fita com coisas que falei em 1987? O que falei está falado."

Juros "A questão da redução da taxa de juros é apenas o momento a ser escolhido para isso. O Banco Central fez muito bem ao não reagir a essas pressões todas de editorial de jornal, de comentaristas, de muita gente... É preciso tratar o tema com responsabilidade. Todo mundo quer reduzir, do Palocci ao Mercadante, do Gushiken ao José Alencar. Mas embora a inflação esteja dando sinais de queda, não temos ainda a certeza de que vai cair indefinidamente."

Mudança na política econômica "Estamos fazendo um esforço muito grande para mudar a política econômica. Mas não podemos fazer política econômica de sobressaltos. Temos de criar as condições. Ninguém imaginava que teríamos conseguido chegar onde chegamos nesses meses. Mas começamos a trabalhar com o tanque vazio. Peguei um carro, achei que ia dar uma bela volta e vi que o tanque estava vazio. Então, tivemos que contingenciar recursos. Temos que criar condições. Como será a nova política econômica? Investimento no setor produtivo, geração de empregos e distribuição de renda."

Pacote de crédito "Estamos preparando o maior projeto de cooperativas de crédito do país. Logo teremos coisas a anunciar nessa área, e por resolução do Banco Central. As cooperativas vão poder captar depósitos, o que não podem fazer hoje. Estamos também vendo uma forma de estimular a poupança. O Brasil não tem poupança, é uma merreca."

MST "Temos que ter cuidado quando falamos do MST. O movimento não é responsável por todos os atos, não tem culpa por todas as coisas que acontecem. Temos que ter um processo de conversa tranqüilo. Vamos anunciar um pacote para os sem-terra, e a preocupação não é só assentar, são também os que já estão assentados mas sem qualquer recurso para permanecer na terra. Estou tranqüilo, vamos fazer o que tem que ser feito na hora certa."

Discurso no G-8 [Lula participa neste final de semana, na França, da reunião ampliada dos sete países mais ricos do mundo mais a Rússia] "Ainda estamos examinando a versão definitiva da proposta de combate à fome. Poderemos propor a constituição de um fundo contra a fome formado com um percentual cobrado de cada país, que pode ser até sobre o orçamento de armas. Mas alguma coisa precisa acontecer. Vamos propor a criação de um organismo multilateral para gerir isso. Pode ser a FAO (Fundo das Nações Unidas para Alimentação), mas não sei se tem estrutura para isso. O principal é sensibilizar os países ricos para uma ação de nobreza humanitária. Mas é claro que essa proposta não pode ser feita apenas pelo presidente do Brasil, tem que ter um leque de apoio e solidariedade em torno dela. Estamos discutindo isso com diversos organismos e países. Mas acho que há um clima favorável no mundo para isso. A fome transformou-se num assunto discutido mundialmente. E só se resolve uma questão quando ela se transforma em problema político."

Integração da América do Sul "Estamos aqui há 500 anos e não houve um político brasileiro que não tenha falado em integração da América do Sul. Mas raríssimas foram as providências para isso. Se você não tem ponte, estrada, nem vôo direto, não tem integração, nem comércio, nem desenvolvimento. Deveria ser criado um fundo para investir em infra-estrutura nos países pobres."

Argentina "O Brasil tem possibilidades de ter, historicamente, sua melhor relação com a Argentina. Sem vaidades nem disputas. Descobrimos que somos países pobres e ninguém é melhor do que ninguém. Eles já não têm ilusões com os EUA."

Liderança "Ninguém se auto-indica líder. Você é escolhido de forma natural. O Brasil sempre foi respeitado, mas sempre tratou a América do Sul com desdém. Os olhos de sua elite estavam voltados para a Europa."

Alca "O Brasil vai participar da mesa de negociações. Mas tem que defender sua soberania como os EUA fazem. Os EUA querem negociar seus produtos sensíveis só na OMC (Organização Mundial do Comércio), e não na Alca. A pior proposta deles foi para o Mercosul. Negociação é queda-de-braço."

Juros ao consumidor "Uma coisa é a taxa Selic, que causa efeito psicológico e mexe com a dívida pública. Outra são os juros ao consumidor. A economia real é movida a uma taxa de juros que ninguém sabe qual é. É preciso levar o sistema financeiro a investir no setor produtivo."

Violência "O que eu disse é que a polícia brasileira não foi preparada para enfrentar o crime organizado, mas para prender bandidos comuns. A polícia não foi treinada para combater o crime organizado, uma indústria poderosa que tem braços no poder político, no meio empresarial, e também internacional. Para isso, tem que ser preparada, mas não é um trabalho simples, de uma hora para outra. É preciso unificar a ação policial, acabar com as divergências entre polícia civil, militar e federal. É preciso criar uma polícia de inteligência. Tem que mudar estruturas, substituir, tirar as bandas podres. Estamos fazendo isso, mas leva algum tempo."

Exército nas ruas "O Exército não tem essa função, sua missão é defender o país de inimigos externos, não cuidar de bandidos. Não vamos ser irresponsáveis de pôr um recruta de vinte anos de idade na rua para combater a turma do Fernandinho Beira-Mar."

Reformas "Vamos aprovar as reformas. Aprendi com os erros do PSDB. Para se fazer a reforma tributária, é preciso negociar com os governadores. Estou certo de que vamos aprovar as reformas. Este será o ano em que eu não vou errar na política."

Centralização dos programas sociais "Nesse governo, não tem política de ministro, só existe política de governo. Ou todos ganham ou todos perdem."

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