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Os riscos da desarticulação da esquerda no Brasil

25.08.2005 | Fonte de informações:

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“Ah, se as propriedades, títulos e cargos Não fossem fruto da corrupção! E se as altas honrarias Se adquirissem só pelo mérito de quem as detém!”

“O Mercador de Veneza” – W. Shakespeare

A atual crise política brasileira deve servir para nos levar a pensar não só nos fatos que possibilitaram os atuais escândalos, mas também as causas maiores da corrupção em geral no país – hoje e ao longo da história. O acompanhamento dos escândalos e depoimentos em tempo real trouxe uma situação completamente nova, que seguramente irá contribuir para dificultar um acordo que permita aos envolvidos escapar impunemente. É fato, no entanto, que não são tantos assim os que podem acompanhar o desenrolar dos fatos em tempo real. Seja através da tevê a cabo ou da Internet, o acesso dos brasileiros ainda é muito limitado, embora venha crescendo significativamente. Ainda é preciso avançar muito nas políticas de democratização do acesso à tecnologia e da informação.

Antes de tudo, deve-se levar em conta o chão concreto onde se pretende estabelecer tal ou qual política de qualquer natureza ou da realização de qualquer empreendimento. No caso brasileiro, as particularidades da política levam a que seja necessário um acompanhamento muito atento dos encaminhamentos e das atitudes em geral da classe governante. Assim, uma política de democratização da informação deverá levar em consideração tais “particularidades”, que embora não sejam exclusivas de nosso país, têm uma influência nefasta sobre a construção de uma nação altiva e soberana, com sentido de coletividade.

O filósofo francês Pierre Levy acredita que as “más ações” são mais difíceis de se realizar quando se tornam publicamente visíveis, de modo que a internet aumenta as possibilidades de informação e controle democrático sobre as ações governamentais, assim como sobre as grandes empresas e todos os poderes de um modo geral. Para aquilo que Levy chama de inteligência coletiva (que pode ser aqui entendida no sentido de nação soberana usada acima), o “principal obstáculo à participação não é a falta de computador, mas sim o analfabetismo e a falta de recursos culturais”. É por isso que os esforços para a educação e a inovação pedagógica (mais do que a tecnológica) são os fatores chave do desenvolvimento do país.

Juntamente com os imensos problemas enfrentados pela educação brasileira, a busca pela cidadania encontra imensos obstáculos. A repulsa à classe política é causada por sua própria atuação. Um dos maiores problemas gerados por esta situação é sem dúvida a apatia generalizada em relação à política, que leva ao perigoso questionando por parte do cidadão comum, cada vez mais farto de tais escândalos e mais descrente nas promessas e projetos políticos, acerca de seu valor como atividade necessária para a manutenção da república e do respeito à ordem democrática.

Desde que o homem passou a se organizar em grupos ele começou a conviver com a corrupção. No Código de Hamurabi, escrito há quatro mil anos, no auge do império babilônico já havia penas previstas para quem desse falso testemunho em busca de benefícios pessoais. Os legisladores gregos despenderam muito tempo para criar legislação suficientemente dura ou clara para evitar excessos dos particulares sobre os negócios públicos. Tem-se a impressão no Brasil de que a política está mergulhada num mar de lama interminável, e que esta é uma situação que não poderá ser controlada, entretanto deve-se saber que a corrupção na política não é um fenômeno apenas brasileiro. É possível e é preciso manter esta situação sob controle, e este controle exige mobilização política diante dessas adversidades, e não o oposto.

A desmobilização política do povo brasileiro deriva em grande parte da descrença da opinião pública no caráter dos seus representantes. A classe política brasileira nunca teve muita credibilidade junto à população, porém esta falta de credibilidade vem se agravando nos últimos de forma alarmante. Os escândalos da base política de apoio do governo refletem a situação atual da sociedade, em que o que vem ocorrendo hoje é o rebaixamento dos valores públicos. A política converteu-se numa prática de interesses espetacularizada e dirigida pela mídia. A reforma política tramitando atualmente no Congresso é uma tentativa de reverter este quadro, limitando inclusive a possibilidade da realização de shows em campanhas políticas.

É preciso recuperar a política como uma atividade humana, de modo que ela não pode mais ser entendida como um mero jogo de “arrecadação” de votos e de marketing. Segundo o sociólogo Gabriel Cohn, se faz necessária uma política de formação de cidadãos a longo prazo. “a política tem, ou deveria ter, um papel civilizatório, de construção social”. A combinação entre pobreza (ou exclusão social), e apatia generalizada pela política pode trazer (e na verdade já traz, na medida em que esta situação serve para ajudar a manter a ordem atual) problemas para a organização da democracia brasileira.

A combinação explosiva de exclusão e falta de controle democrático da classe política poderia nos levar a uma situação insustentável de precarização das instituições democráticas. Este é o grande perigo da desarticulação das esquerdas brasileiras no momento atual.

Rodrigo Alves Correia Alcartur@bol.com.br

 
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