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A FLORESTA MORTA

23.04.2003 | Fonte de informações:

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Ao derrubar as florestas, o homem remove sistemas biológicos complexos, multiestruturados, extremamente diversificados e estáveis. Ao instalar a agricultura convencional, coloca em seu lugar sistemas simples e instáveis.

Entre os problemas relacionados com o desmatamento estão o esgotamento dos estoques de madeira, que é a fonte primária de energia de 80% da população dos países em desenvolvimento, e irreparáveis danos ambientais, como erosão do solo, provocando a perda da fertilidade, desertificação gradativa, diminuição da produtividade da terra, assoreamento de rios, represas e nascentes, e a eliminação da biodiversidade.

Ao derrubar as florestas, o homem remove sistemas biológicos complexos, multiestruturados, extremamente diversificados e estáveis. Ao instalar a agricultura convencional, altamente mecanizada e dependente do uso extensivo de fertilizantes artificiais, herbicidas e pesticidas, coloca em seu lugar sistemas simples e instáveis. Reduzindo a diversidade e recobrindo vastas áreas com monoculturas, ocorrem flutuações drásticas em populações, com o surgimento de pragas capazes de alterar todo o precário equilíbrio.

Com a destruição e fragmentação das florestas, as nascentes ficam totalmente secas ou se tornam menos abundantes, e os leitos dos rios, que ficam secos durante a maior parte do ano, se convertem em torrentes caudalosas, depois de cada chuva pesada. Sem a cobertura vegetal, as águas da chuva não encontram obstáculos no seu curso, e em vez do nível subir lentamente por infiltração progressiva, essas águas causam inundações repentinas e destrutivas.

Dentre as conseqüências mais importantes da fragmentação das florestas está a diminuição da diversidade biológica existente nestes ambientes, com a perda de populações, espécies e comunidades ecológicas de valor imensurável. A perda de populações geneticamente distintas dentro de uma determinada espécie é um problema tão grave quanto a extinção desta espécie. Uma vez que uma determinada espécie é reduzida a uma pequena população, a sua extinção total num futuro próximo se torna muito mais provável. As espécie mais propensas à extinção são aquelas presentes no topo da pirâmide alimentar, espécies com dificuldades de dispersão, espécies endêmicas, migratórias e com hábitos gregários. Espécies de animais que se alimentam em grandes grupos ou formam grandes congregações de procriação, parecem ser especialmente susceptíveis à epidemias e eventos catastróficos.

A diminuição de uma área de floresta natural pode levar à diminuição exponencial do número de espécies e afetar a dinâmica de populações de plantas e animais existentes, podendo comprometer a regeneração natural e, conseqüentemente, a sustentação destas florestas.

Chamamos de fragmentos florestais, as áreas de vegetação natural interrompidas por barreiras antrópicas ou naturais. Nestes ambientes, pode haver uma diminuição significativa do fluxo de animais, pólen e sementes. Apesar da importância dos fragmentos florestais na conservação da diversidade biológica, a maior parte destes ambientes encontra-se abandonada e em acelerado processo de degradação. O número de espécies vegetais e animais que um fragmento florestal pode suportar e as suas respectivas taxas de extinção dependem do seu tamanho, da distância de uma fonte de povoamento e da estrutura do ambiente. O tamanho do fragmento florestal exerce um efeito direto sobre a diversidade de espécies da avifauna, sendo que pequenos fragmentos de vegetação natural suportam menos espécies do que os grandes fragmentos.

A fragmentação de um ambiente se torna um sério problema quando não existe mais o fluxo de animais migratórios, e a qualidade deste ambiente é muito pobre ou este ambiente é muito pequeno para sustentar populações viáveis. A fragmentação é conseqüência das atividades humanas, e as áreas de vegetação natural que ainda restam encontram-se geralmente muito próximas de áreas com perturbação antrópica, como fazendas agrícolas e de exploração florestal, estando sujeitas a tensão excessiva de agentes externos como fogo, inseticidas e espécie invasoras.

Os fragmentos florestais localizados num ambiente de intensa ação antrópica, assemelham-se às ilhas oceânicas, separadas dos continentes aos quais estiveram ligadas em outras épocas. Estas ilhas biogeográficas encontram-se em equilíbrio quando o número de espécies presentes represente um balanço entre imigração e extinção. A taxa de imigração é determinada pelo grau de isolamento da ilha: quanto mais isolada estiver a ilha, mais baixa será a taxa de imigração. A taxa de extinção está diretamente ligada ao tamanho da ilha, sendo que ilhas maiores hospedam mais espécies, tanto de animais como plantas, do que ilhas menores, e desta forma são menos vulneráveis à extinção.

O primeiro problema sério que se encontra numa área fragmentada é o efeito de borda, ou seja, o efeito das populações que estão ao redor. Estas populações tentam colonizar o fragmento, enquanto que as populações do fragmento também tentam colonizar esta área de transição. O efeito da colonização se propaga até o núcleo do fragmento, e as populações ficam desorganizadas, pois a tensão ecológica é muito grande, havendo redução de populações devido ao fenômeno da consangüinidade.

A estrutura e a dinâmica dos fragmentos florestais podem ser afetadas por diversos fatores dentre os quais destacam-se a história de perturbações, a área, a forma, o tipo de vizinhança e o grau de isolamento. Os fragmentos florestais devem ser vistos como o resultado de um processo histórico de perturbação da vegetação no qual inúmeros fatores interagiram ao longo do tempo. Para se entender a estrutura e dinâmica atuais de um fragmento, é importante reconstruir ao máximo a história da vegetação local. A área de um fragmento florestal representa uma forte correlação com a diversidade e estabilidade das comunidades de animais e vegetais, sendo que o número de espécies está freqüentemente relacionado à área abrangida.

Após a fragmentação de uma floresta, ocorrem mudanças imediatas na quantidade de luz incidente sobre o solo, na temperatura, umidade e na velocidade do vento. Tais mudanças são mais pronunciadas na borda e diminuem na direção do interior da floresta. Com o aumento da incidência de luz na borda dos fragmentos, há um aumento das espécies vegetais do início da sucessão natural.

A distância entre fragmentos, assim como o grau de isolamento e a diminuição das áreas naturais, dificultam a dispersão e reduzem o tamanho das populações. O tipo de vizinhança e a redução da área dos fragmentos, contribuem para o aumento da pressão dos predadores, competidores, parasitas e doenças.

A vizinhança também pode afetar profundamente a diversidade biológica e a sustentação dos fragmentos florestais. As áreas vizinhas de um fragmento florestal, por exemplo, um plantio homogêneo de eucaliptos, uma área de pastagem ou uma área agrícola de cultivo intensivo, podem funcionar como fontes de propágulos invasores, de poluentes e de perturbação, como modificadores climáticos e barreiras para o trânsito dos animais silvestres.

O grau de isolamento de um fragmento florestal, que pode ser considerado como a média das distâncias até os fragmentos mais próximos, pode afetar o influxo de animais, pólen e sementes e, portanto, a diversidade biológica e a dinâmica das populações de plantas e animais. Fragmentos isolados há muito tempo degeneram pela perda de animais polinizadores, dispersores e predadores, causando um desequilíbrio da flora e fauna.

Entre os representantes mais ameaçados de extinção pela fragmentação de áreas florestais estão as espécies raras e de baixa densidade populacional, os grandes predadores, os grandes frugívoros que vivem nas copas das árvores, e as espécies do estrato inferior da mata, que são maus colonizadores, como certas aves insetívoras terrícolas. A reprodução destes animais diminui ao longo dos anos e não compensa mais a mortalidade dentro da população, levando a espécie sucessivamente à extinção, sem a necessidade da ocorrência de eventos dramáticos, como a destruição total do seu ambiente natural.

Todos os animais necessitam do seu espaço vital para sobreviver. O espaço vital é o território que cada animal alcança, variando de espécie para espécie. Por exemplo, cada indivíduo da espécie Panthera onca (onça pintada), o maior felino das florestas tropicais da América, necessita de uma área mínima ou espaço vital de cerca de três mil hectares. É impossível a sobrevivência de uma população desta espécie em florestas fragmentadas e altamente antropisadas, pois a medida em que uma população isolada se torna pequena, aumentam os riscos com a consangüinidade e perda da diversidade genética, com o acasalamento entre indivíduos de uma mesma família, tornando mais graves os problemas demográficos, conduzindo a população mais rapidamente para a extinção.

Entre os possíveis fatores que contribuem para a extinção de populações locais estão a raridade ou baixa densidade, limitada habilidade de dispersão e adaptação, perda sucessional do hábitat, isolamento, deterioração genética (perda da heterozigoticidade, depressão da procriação e perda da plasticidade genética), hibridação, catástrofe, competição, predação, epidemia, coleta e caça furtiva, variação ambiental, distúrbio e destruição do ambiente natural.

A vegetação é uma das características do meio mais importante para a manutenção dos animais. Intervenções na vegetação produzem efeitos diretos na fauna, pela redução, aumento, ou alteração de dois atributos chaves, que são o alimento e o abrigo. Desta forma, a composição da vida silvestre é alterada com as mudanças na vegetação. A fauna atua de forma crucial na manutenção e restauração dos ambientes naturais, principalmente nas florestas tropicais, onde cerca de 90% das espécies vegetais arbóreas são polinizadas e suas sementes dispersas por animais. Os principais polinizadores são as abelhas, vespas, mariposas, borboletas, besouros, morcegos e beija-flores, e na dispersão das sementes, diversas espécies de aves e mamíferos. Estas espécies de animais e vegetais se encontram organizadas, através de cadeias químicas alimentares, interagindo na polinização e dispersão. Portanto, uma floresta fragmentada e pobre em animais é uma floresta condenada à morte.

Fábio Rossano Dario Pisa - Italia

 
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